Fundamentos de História do Direito
376 pág.

Fundamentos de História do Direito


DisciplinaHistória do Direito8.262 materiais306.785 seguidores
Pré-visualização50 páginas
TAVARES, António 
Augusto. As civilizações pré-clássicas - guia de estudo. Op. cit., p. 101-111. 
espancando a filha de um homem livre, faz com que ela aborte pagará uma indenização de 10 
siclos de prata; se se tratar da filha de um subalterno, 5 siclos; de um escravo, apenas 2.\u201d46 
Alguns elementos surpreendentemente modernos marcam a delimitação do direito 
de família no Código de Hammurabi. A mulher, dotada de personalidade jurídica, mantém-se 
proprietária de seu dote mesmo após o casamento, e tem liberdade na gestão de seus bens. É 
prevista a possibilidade de repúdio da mulher pelo marido, mas a recíproca é igualmente 
verdadeira: a mulher pode alegar má conduta do marido e propor ação para retomar a sua 
família originária, levando de volta o seu patrimônio.
47
 A organização familiar é em regra 
monogâmica, sendo, contudo, flexibilizada quando se tratar da continuidade da linhagem 
familiar; é permitida, em alguns casos, a inserção de uma segunda esposa, uma espécie de 
concubina, quando o casal não conseguir gerar filhos, mas fica mantida a precedência da 
primeira esposa em relação à segunda.
48
 O Código prevê, ainda, com minúcias, os institutos 
da adoção (estipulando as conseqüências jurídicas da ruptura do vínculo entre adotante e 
adotado) e da sucessão (com limitações ao poder de dispor sobre o patrimônio, especialmente 
se isso ocorrer em detrimento de algum dos filhos sobreviventes). 
No que se refere ao domínio econômico, o Código consagra alguma intervenção 
na atividade privada, por meio da delimitação de salários e preços. Não existem dados seguros 
acerca do êxito dessa tentativa, e da sua estrita observância pelos agentes econômicos da 
época. Mas, como pontuam Aymard e Auboyer, \u201cdeterminando um bom número de salários e 
preços, a legislação de Hammurabi surge-nos como a mais ampla experiência, numa época 
antiga, do tabelamento oficial\u201d.49 
O direito penal trazido pelo Código de Hammurabi reflete o momento de 
elaboração do próprio documento; buscando uma extrema centralização do poder nas mãos do 
 
46
 AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga - vol. I. As Civilizações Imperiais. Op. cit., p. 213. 
47
 Cumpre invocar, agora a respeito da conduta que a mulher deveria obedecer em caso de ocorrência do que 
seria chamado hoje como abandono do lar, os seguintes dispositivos do Código: \u201c133. Se um homem 
desaparecer e na sua casa há de comer, a sua esposa manterá a sua casa e tomará conta de si; não entrará na casa 
de outrem. Se essa mulher não tomou conta de si e se entrou na casa de outro, essa mulher será condenada e será 
deitada à água\u201d; \u201c134. Se um homem desapareceu e se não há de que comer na sua casa, a sua esposa poderá 
entrar na casa de um outro; essa mulher não é culpada.\u201d Adota-se, para os fins do presente trabalho, a versão 
apresentada por John Gilissen para a redação do Código de Hammurabi. Cf., então, nos casos citados, e nos 
doravante transcritos, GILISSEN, John. Introdução histórica ao direito. Op. cit., p. 65-66. É possível, por outro 
lado, ter acesso a várias transcrições do Código em páginas da Internet ligadas à história do direito. Veja-se, 
como exemplo, o site: <http://eawc.evansville.edu/anthology/ hammurabi.html>, em que consta a íntegra do 
texto com criteriosa tradução de L.W. King (acesso em: 18.3.2002). 
48
 Eis o teor do art. 145: \u201cSe um homem casou com uma sacerdotisanaditum e se ela não lhe deu filhos e se ele 
se propôs casar com uma sacerdotisa sugétum, este homem poderá casar com uma sugétum; e poderá fazê-la 
entrar na sua casa. Esta sugétum não será tida em pé de igualdade com a naditum\u201d. 
49
 AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga - vol. I As Civilizações Imperiais. Op. 
cit., p. 218. No mesmo sentido: TAVARES, António Augusto. As civilizações pré-clássicas - guia de estudo. 
Op. cit., p. 103. 
soberano, o Código, na parte alusiva aos delitos e às penas, consagra uma fusão de elementos 
sobrenaturais, princípios de autotutela e retaliação e penas ligadas à mutilação e ao castigo 
físicos.
50
 
E, por fim, um dos principais legados da obra de Hammurabi para o direito 
superveniente localiza-se na regulamentação do direito privado. Várias modalidades de 
contratos e negócios jurídicos são contempladas no texto do documento. Por intermédio de 
artigos do Código, sabe-se que na Mesopotâmia já eram praticados os seguintes contratos: 
compra e venda (inclusive a crédito), arrendamento (com ênfase na regulamentação das terras 
cultiváveis) e depósito. A responsabilidade civil é levada às últimas conseqüências. Há 
previsão, ainda, de empréstimo a juros, títulos de crédito, operações de caráter bancário e de 
sociedades de comerciantes. 
Após a declinação das principais características dessas normas escritas que regiam 
as sociedades da antiga Mesopotâmia, uma pergunta se impõe: como se davam os processos 
de aplicação do direito? A resposta é proporcionada pela subsistência de milhares de 
documentos escritos, conservados sob a forma de tabletes de argila ou de cilindros de pedra, 
que reproduzem decisões judiciárias tomadas em casos concretos. Mesmo no período de 
maior centralização do poder político auge dos impérios sumério, acádico, babilônico, assírio 
e neobabilônico -, não se formou, nas cidades da Mesopotâmia, uma estrutura burocrático-
profissional nos moldes existentes no Egito antigo. Havia, isso sim, funcionários do palácio 
real e sacerdotes locais, que auxiliavam o soberano na aplicação do direito. Mas, em regra, os 
juízes eram nomeados pelo próprio monarca, que poderia, igualmente, ser instado para 
decidir, em grau de recurso, determinada causa existente no reino. Eis a descrição de Aymard 
e Auboyer, característica do período de Hammurabi: \u201cAo lado da justiça das cidades e da dos 
templos, existe urna justiça real cujos representantes são nomeados pelo rei. Ainda mais, 
Hammurabi oferece a todos a possibilidade de apelo ao rei ou ao seu ministro \u201esupremo\u201f.\u201d51 
 
 
50
 É oportuno invocar os seguintes preceitos do Código, a título ilustrativo: \u201c1. Se alguém acusou um homem, 
imputando-lhe um homicídio, mas se ele não pôde convencê-la disso, o acusador será morto\u201d; \u201c2. Se alguém 
imputou a um homem atos de feitiçaria, mas se ele não pôde convencê-la disso, aquele a quem foram imputadas 
as atividades de feitiçaria, irá ao Rio; mergulhará no Rio. Se o Rio o dominar, o acusador ficará com a sua casa. 
Se este homem for purificado pelo Rio, e se sair são e salvo, aquele que lhe tinha imputado atos de feitiçaria será 
morto; aquele que mergulhou no Rio ficará com a casa do seu acusador\u201d; \u201c195. Se um filho agrediu o pai, ser-
1he-á cortada a mão por altura do pulso\u201d; \u201c196. Se alguém vazou um olho de um homem livre, ser-lhe-á vazado 
o olho\u201d; \u201c197. Se ele partiu o osso de um homem livre, ser-lhe-á partido o osso\u201d. 
51
 AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga - vol. I As Civilizações Imperiais. Op. 
cit., p. 207. Para um elaborado exame de fontes primárias relacionadas com a aplicação do direito na 
Mesopotâmia, ver: JOANNES, Francis (Dir.). Rendre la justice en Mésopotamie - Archives judiciaires du 
Proche-Orient ancien. Saint-Denis: Presses Universitaires de Vincennes, 2000. 
4.2 O Egito: o princípio de justiça divina 
 
É lamentável que o historiador do direito não possua, no estudo do direito egípcio, 
a mesma riqueza de fontes de que dispõe no exame dos direitos das cidades da Mesopotâmia. 
Nenhum texto legal do período antigo do Egito chegou ao conhecimento do homem moderno. 
Há, contudo, excertos de contratos, testamentos, decisões judiciais e atos administrativos - 
além, é claro, de urna