Fundamentos de História do Direito
376 pág.

Fundamentos de História do Direito


DisciplinaHistória do Direito8.244 materiais306.392 seguidores
Pré-visualização50 páginas
23
 
Gagarim argumentava que as leis escritas não colocaram em xeque e nem limitaram o poder 
de governantes e magistrados. Elas podem ter limitado a autonomia dos magistrados judiciais, 
mas o poder político absoluto continuava intocável. Embora mais tarde, como foi o caso de 
Atenas, as reformas introduzidas no sistema legal tenham aumentado o poder do povo, 
inicialmente as leis visavam a beneficiar a pólis e dessa forma fortalecer o controle do grupo 
que dominava a cidade, fosse ele qual fosse, e, principalmente, as leis inicialmente eram 
essencialmente aristocráticas. Devem-se a Sólon (594 a.C.) as primeiras iniciativas de 
democratização das leis. 
Outro ponto utilizado como argumento é de que, com o colapso da cultura 
micênica (por volta de 1200 a.C.), ocorreu uma mudança importante na sociedade grega: a 
transição do grande reino micênico para um menor, formado pelas cidades (pólis) 
independentes. Por volta de 750 a.C., as cidades estavam crescendo rapidamente e, com o 
aumento na prosperidade material e o crescimento populacional, passou a haver necessidade 
inevitável de maior controle pela cidade sobre a vida de seus habitantes. 
Com o crescimento das cidades, aumentavam as oportunidades de conflitos e 
conseqüentemente a necessidade de meios para sua solução pacífica. Como resposta às 
perturbações e agitações que se formavam, muitas cidades devem ter buscado na nova 
tecnologia da escrita uma forma de controle e persuasão. Embora já estivesse disponível por 
quase um século, a escrita somente foi utilizada em inscrições públicas para as primeiras leis 
por volta da metade do sétimo século antes de Cristo. 
Gagarin acrescenta que mesmo as leis de Sólon, mais democráticas que as 
anteriores, aumentaram o controle da cidade sobre a vida dos habitantes. Como exemplos, 
tem-se o controle das atividades econômicas e a idéia de serviço político como obrigação de 
todo cidadão. Dessa forma, a promulgação de uma legislação escrita estabelecia a autoridade 
da cidade sobre seus habitantes. Evidentemente, a legislação escrita não era o único meio de 
 
22
 HESÍODO. OS trabalhos e os dias. São Paulo: Iluminuras, p. 39. 
23
 GAGARIN, Michael. Early greek law. Berkeley: University of California Press, 1989, p. 121-141. 
fazer isso: temos o exemplo de Esparta que, de forma consciente, rejeitou o uso de leis 
escritas e aumentou o seu grau de controle sobre o sistema educacional para atingir 
similarmente uma autoridade forte sobre os cidadãos. Atenas e outras cidades optaram pelo 
uso da nova tecnologia, a escrita. 
O entendimento de Gagarin está em harmonia com a explicação dada pela 
moderna teoria geral do processo para o surgimento da jurisdição em substituição à autotutela, 
onde \u201ca justiça privada dá lugar à justiça pública em que o Estado, já suficientemente forte, 
impõe-se sobre os particulares e, prescindindo da voluntária submissão destes, impõe-lhes 
autoritativamente a sua solução para os conflitos de interesses. À atividade mediante a qual os 
juízes estatais examinam as pretensões e resolvem os conflitos dá-se o nome de jurisdição\u201d.24 
Assim, as inscrições públicas das primeiras leis não fortaleceram determinadas 
formas de governo, democrático, aristocrático, oligárquico ou tirânico, mas reduziram as 
contendas entre os membros da pólis e, aumentando o alcance e a eficiência do sistema 
judiciário, apoiava e fortalecia o grupo, não importando qual deles estivesse no controle da 
cidade. Independente do tipo de governo, todas as cidades gregas começaram gradualmente a 
aumentar seu poder, às custas das famílias e dos indivíduos. À medida que as cidades 
aumentavam em tamanho e complexidade, reconheciam a necessidade de um conjunto oficial 
de leis escritas, publicamente divulgadas, para confirmar sua autoridade e impor a ordem na 
vida de seus cidadãos. Não se discute aqui o bom ou mau uso desse exercício de poder, ou de 
se é justo ou injusto, mas apenas a sua razão social para o estabelecimento de leis escritas, 
Leis que serviriam não apenas ao interesse de algum grupo, ou partido político, mas de todos 
os cidadãos incorporados nessa instituição única, a cidade (pólis). 
 Além de Gagarin,mais recentemente outros especialistas em história da escrita e 
em direito grego antigo tem reconhecido que as leis gregas antigas, principalmente as 
inscrições públicas em muros, demonstraram poder da cidade sobre o povo. Marcel Dettienne, 
em seu artigo L\u2019écriture et ses nouveaux objets intelleetuels en Grèce25 (A escrita e seus 
novos objetos intelectuais na Grécia), desenvolve a idéia de que a escrita, nos povos antigos, 
além de sua complexidade intrínseca, estava confinada aos palácios e era privativa de 
especialistas letrados. Assim foi também com a escrita linear B do período Micênico, de uso 
restrito para atividades administrativas. Porém, com a nova escrita alfabética, mercadores, 
poetas, artesãos e o povo em geral, cada um a sua maneira, começaram a usar escrita. Com os 
 
24
 Citado de CINTRA, A. C. de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; CÂNDIDO R. Dinamarco, Teoria geral do 
processo. São Paulo: Malheiros, p. 23. 
25
 DETTIENNE, Marcel. Le savoir de l\u201fécriture en Grèce ancienne (Os saberes da escrita na Grécia antiga), sob 
a direção do próprio Marcel Dettienne. 
legisladores criando e codificando leis, a escrita muda de status e se torna \u201coperador de 
publicidade\u201d. As leis escritas são tornadas públicas através de inscrições em pedra, mais 
afirmando do que informando. Assim se refere Marcel Dettienne: \u201cMas também afirmando 
uma vontade para agir, de transformar a vida pública, de impor novas práticas seja na 
intervenção da cidade nos crimes de sangue ou a obrigação para a assembléia de aceitar a 
vontade da maioria.\u201d26 Henri-Jean Martin faz referência a Marcel Dettienne e conclui: \u201cIsto 
demonstra que a importância das inscrições públicas na cidade antiga era mais para assegurar 
uma presença do que para ser lida.\u201d27 
 
4. O DIREITO GREGO ANTIGO 
 
Após o período Micênico, a Grécia atravessou um período denominado \u201cera das 
trevas\u201d, que se estendeu de 1200 a 900 a.C. e, no começo de 900 a.C., os gregos não tinham 
leis oficiais ou sistemas formalizados de punição. Os assassinatos eram resolvidos pelos 
membros das famílias das vítimas, que buscavam e matavam o assassino, dando início a 
disputas sangrentas sem fim. Somente no meio do século VII a.C. estabeleceram os gregos 
suas primeiras leis codificadas e oficiais. 
As fontes das leis escritas gregas dividem-se em duas categorias fontes literárias e 
fontes epigráficas. Devido à característica democrática dos gregos, particularmente dos 
atenienses, de publicar documentos em forma pública e permanente (madeira, bronze e 
pedra), grande número dessas inscrições em pedra sobreviveram até os dias atuais e 
constituem as fontes epigráficas.
28
 Quanto às fontes literárias temos uma classificação dada 
por S. C. Todd:
29
 (i) discursos forenses dos dez oradores áticos;
30
 (ii) monografias 
constitucionais;
31
 (iii) filósofos do direito
32
 e (iv) antiga e nova comédia.
33
 
De modo geral, a tradição vê em Zaleuco o primeiro legislador que escreveu leis 
(cerca de 662 a.C.) em Locros, no sul da Itália. A primeira inscrição legal conhecida é a de 
Dreros em Creta, datada tentativamente para o meio ou segunda metade do sétimo século a.C. 
 
26
 DETTIENNE, Marcel. Op. cit., p. 14. 
27
 MARTIN, Henri-Jean. The history and power of writing. Chicago: The University of Chicago Press, 1994, p. 47. 
28
 Duas coletâneas de inscrições gregas são relativamente de fácil