Fundamentos de História do Direito
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acesso: A selection of Greek historical 
inscriptions (Uma seleção de inscrições históricas gregas) editado por Russel Meiggs e David Lewis e Greek 
historical inscriptions (Inscrições gregas históricas), editado por Marcus N. Todd. 
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 TODD, S. C. The shape of Athenian law. Oxford: Clarendon Press, 1995, p. 36-42. 
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 Os dez oradores áticos são: Antífonas, Lísias, Isaeus, Isócrates, Demóstenes, Ésquino, Licurgo, Hipérides e Dinarco. 
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 Todd inclui aqui a Constituição de Atenas de Aristóteles. 
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 Todd se refere a Platão, em particular As leis; no entanto cita Teósfatos (c. 370-285 a.C.) de cuja obra somente 
se conhecem fragmentos e citações e que, na opinião de Todd, seria mais útil do que o trabalho de Platão. 
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 O principal representante da velha comédia ateniense é Aristófanes, e Menandro para a nova comédia. 
No meio do sexto século, muitas cidades gregas já tinham leis escritas, sendo Esparta a 
exceção. 
Os gregos não elaboraram tratados sobre o direito, limitando-se apenas à tarefa de 
legislar (criação das leis) e administrar a justiça pela resolução de conflitos (direito 
processual). Adicionalmente, devido à precariedade dos materiais de escrita utilizados na 
época (inscrições em pedra e madeira e textos escritos em papiro), um texto literário, 
filosófico ou lei escrita, somente chegaria aos nossos dias, não pela conservação do original, 
mas pelas contínuas transcrições e reproduções e até mesmo citações por autores posteriores. 
Assim aconteceu com os escritos dos filósofos e escritores gregos do passado e, mesmo 
assim, muita coisa se perdeu. Sabe-se que Sófocles escreveu 120 peças, porém somente 
dispomos de sete tragédias completas e fragmentos de outras. Tem-se conhecimento de que 
Aristóteles escreveu um segundo volume da Poética versando sobre a comédia, no entanto o 
original se perdeu e nenhuma cópia sobreviveu até nossos dias. Com o direito grego 
aconteceu um processo diferente do tratamento dispensado à filosofia, literatura e história. 
Enquanto estes foram copiados, recopiados e constantemente citados, nada se fez com relação 
às leis gregas, não havendo compilações, cópias, comentários, mas Pouquíssimas citações.
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Ficaram apenas algumas fontes epigráficas e as menções feitas por escritores, filósofos e 
oradores. Douglas MacDowell, em seu livro The law in classical Athen (O direito na Atenas 
Clássica), menciona: 
Temos os textos de um número de leis (embora seja somente uma pequena 
proporção do total que deve ter existido), seja nas inscrições originais em pedra ou em 
citações nos discursos forenses que sobreviveram. Muito pouco destes textos são completos.
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Uma forma utilizada para classificar as leis gregas é a utilizada por Michael 
Gagarin,
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 categorizando-as em crimes (incluindo tort),
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 família, pública e processual.
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 A 
categoria denominada por crimes e tort, que aproximadamente corresponderia ao nosso 
direito penal, inclui o homicídio que os gregos, já com Drácon (620 a.C.), diferenciavam entre 
 
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 Uma compilação moderna de leis gregas antigas, com seu contexto histórico legal, foi publicada por Ilias 
Arnaoutogou sob o título Ancient greek laws (Leis gregas antigas), As leis apresentadas são classificadas em 
família (oikos) - casamento, divórcio, herança, adoção, ofensas sexuais e situações pessoais como cidadania, 
filhos, escravos, casamentos mistos; mercado ou praça pública (ágora) - comércio, finanças, vendas, aluguéis; 
Estado (pólis) - constituição, processo legislativo, deveres públicos, propriedades e dívidas, estabelecimento de 
colônias, construção, assuntos navais, relação entre cidades. 
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 MACDOWELL, Douglas, The law in classical Athens. New York: Cornell University Press, 1986, p. 54. 
36
 GAGARIN, Michael. Op. cit., p. 63. 
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 Tort: palavra inglesa que significa agravo, dano, delito de natureza civil. Tort ocorre quando alguém causa 
dano a outro ou à sua propriedade. Homicídio é incluído nessa categoria. 
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 Um dos mais completos livros sobre o direito grego antigo é o de A. R, Harrison, The law of Athens (O direito 
de Atenas), em dois volumes. O primeiro volume trata do direito relativo à família e à propriedade e o segundo 
volume trata do direito processual ateniense. 
voluntário, involuntário e em legítima defesa. A lei de homicídio de Drácon manteve-se em 
vigor até, pelo menos, o quarto século a.C. e uma inscrição fragmentada, datada de 409 a.C., 
sobreviveu até os dias de hoje. 
Ainda na categoria de crimes e tort se incluem: as leis estabelecidas por Zaleuco, 
que fixou penalidades para determinadas ofensas,
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 um embrião de nosso moderno direito 
penal; as leis de Carondas, que também estabeleciam penalidades para vários tipos de 
assaltos; as leis de Sólon, que previam uma multa para estupro, penalidades específicas para 
roubo, dependendo dos bens roubados, e penalidades para difamação e calúnia. 
Classificadas como família, encontramos leis sobre casamento, sucessão, herança, 
adoção, legitimidade de filhos, escravos, cidadania, comportamento das mulheres em público, 
etc., e nesse caso a informação é mais abundante do que no caso das leis da categoria crimes e 
tort. 
Como leis públicas temos as que regulam as atividades e deveres políticos dos 
cidadãos, as atividades religiosas, a economia (regulamentando as práticas de comércio), 
finanças, vendas, aluguéis, o processo legislativo, relação entre cidades, construção de navios, 
dívidas, etc. 
Algo notável no direito grego era a clara distinção entre lei substantiva e lei 
processual. Enquanto a primeira é o próprio fim que a administração da justiça busca, a lei 
processual trata dos meios e dos instrumentos pelos quais o fim deve ser atingido, regulando a 
conduta e as relações dos tribunais e dos litigantes com respeito à litigação em si, enquanto 
que a primeira determina a conduta e as relações com respeito aos assuntos litigados. 
Não é casual dispormos de considerável informação a respeito das leis processuais 
na Grécia antiga. A importância dada pelos gregos à parte processual do direito é evidenciada 
por Aristóteles em sua Constituição de Atenas quando, ao se referir às três mais populares 
reformas democráticas de Sólon, declara: 
 
Ao que parece estas três constituem as medidas mais populares do regime de Sólon: 
primeiro, e a mais importante, a proibição de se dar empréstimos incidindo sobre as 
pessoas; em seguida, a possibilidade, a quem se dispusesse, de reclamar reparação 
pelos injustiçados; e terceiro, o direito de apelo aos tribunais, disposição esta 
referida como a que mais fortaleceu a multidão, pois quando o povo se assenhoreia 
dos votos, assenhoreia-se do governo.
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As duas últimas medidas de Sólon, citadas por Aristóteles, são claramente 
 
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 A menção de que Zaleuco fixou penas para determinadas ofensa é atribuída a Éforos, conforme um fragmento 
de sua obra sobre a história do mundo antigo. 
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 ARISTÓTELES. A Constituição de Atenas, IX, 1. 
relacionadas com a operação do processo legal de Atenas, ou seja, eram leis processuais, 
enquanto que a primeira tratava-se de lei econômica e social, podendo ser classificada como 
lei pública. 
Um exemplo significativo de quão evoluído era o direito processual grego é 
encontrado no estudo dos árbitros públicos e privados.
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 Trata-se aqui de duas práticas que se 
tomaram comuns, no direito Grego, como alternativas a um processo judicial normal: a 
arbitragem privada e a arbitragem pública. A arbitragem privada era um meio alternativo mais 
simples e mais rápido, realizado fora do tribunal, de se resolver litígio, sendo arranjada