Fundamentos de História do Direito
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Fundamentos de História do Direito


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law. Oxford: Clarendon Press, 1995, p. 77-78. 
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 MACDOWELL, Douglas M. The law in classical Athens. Cornell University Press, 1978, p. 34. 
49
 GAGARIN, Michael. Antiphon: the speeches. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, p. 1-2. 
50
 BONNER, Robert J. Lawyers and litigants in ancient Athens. Chicago: The University of Chicago Press, 1927. 
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 FORSYTH, William. The history of lawyers: ancient and modern. Boston: Estes & Lauriat, 1875. 
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 Em A verdade e as formas jurídicas, Capítulo III, Michel Foucault analisa o direito na Idade Média. 
Consciente ou inconscientemente, Foucault mistura fatos e características da Idade Média com a Grécia antiga. 
Nas páginas 59 a 61, fala das provas do tipo verbal e das fórmulas escritas para o acusado por uma terceira 
pessoa \u201cque mais tarde se tomaria, na história do direito, o advogado\u201d. Essa é justamente a situação que existia 
na Grécia antiga com os oradores áticos (logógrafos). 
Já então Robert Bonner reconhecia a importância dos oradores áticos e de seus 
discursos como fonte de informação do direito grego, a ponto dedicar todo um capítulo à 
retórica forense e outro aos oradores áticos. 
O direito grego através de seus tribunais formados por um júri composto de 
cidadãos comuns, cujo número chegava a várias centenas, era atividade que fazia parte do dia-
a-dia da maioria das cidades gregas. Os atenienses pleiteavam o crédito de terem sido os 
primeiros a estabelecer um processo regular jurídico, e tanto tinham razão que era 
reconhecido por Cícero. 
Na sociedade moderna, a administração da justiça está nas mãos de profissionais 
especializados, os juízes. Na Atenas clássica, a situação era o reverso. A heliaia era o tribunal 
popular que julgava todas as causas, tanto públicas como privadas, à exceção dos crimes de 
sangue que ficavam sob a alçada do areópago. Os membros da heliaia, denominados 
heliastas, eram sorteados anualmente dentre os atenienses. O número total era de seis mil e, 
para julgar diferentes causas, eram sorteados novamente para evitar fraudes. O número de 
heliastas atuando como júri em um processo variava, mas atingia algumas centenas. Para 
permitir que o cidadão comum pudesse participar como heliasta sem prejuízo de sua 
atividade, recebiam um salário por dia de sessão de trabalho. 
As sessões de trabalho para julgar os casos apresentados eram chamadas 
dikasterias, e as pessoas que compunham o júri eram referidas como dikastas em vez de 
heliastas. Os dikastas eram apenas cidadãos exercendo um serviço público oficial, e sua 
função se aproximava mais da de um jurado moderno. A decisão final do julgamento era dada 
por votação secreta, refletindo a vontade da maioria. 
A apresentação do caso era feita por discurso contínuo de cada um dos 
litigantes,
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 interrompido somente para a apresentação de evidências de suporte, e era dirigido 
aos dikastas, cujo número poderia variar em algumas centenas, por exemplo 201 ou 501, por 
julgamento; o número total era sempre ímpar para evitar empate. A votação era feita 
imediatamente após a apresentação dos litigantes, sem deliberação. Não havia juiz: um 
magistrado presidia o julgamento, mas não interferia no processo. 
Os litigantes dirigiam-se diretamente aos jurados através de um discurso, sendo 
algumas vezes suportados por amigos e parentes que apareciam como testemunhas. O 
 
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 Uma anedota é relatada por Plutarco, com respeito a Lísias, sobre a característica dos tribunais gregos de 
limitarem aos litigantes apenas um discurso. Consta que Lísias escreveu um discurso para um cliente e que este 
pegou o texto para aprende-lo e poder recitá-lo no júri. Devolveu-o no dia seguinte, queixando-se que ao lê-lo 
pela primeira vez achou um discurso formidável, na segunda leitura começou a ter dúvidas e na terceira seus 
defeitos eram como golpes no rosto. Lísias, segundo Plutarco, replicou secamente que os dikastas iriam ouvir o 
discurso apenas uma vez (Relatado por S. C. Todd em The shape of Athenian law, p. 36-37). 
julgamento resumia-se a um exercício da retórica e persuasão. Cabia ao litigante convencer a 
maior parte de jurados e para isso valia-se de todos os truques possíveis. O mais, comum, e 
que passou a ser uma das grandes características do direito grego, foi o uso de logógrafos, 
escritores profissionais de discursos forenses. Podemos considerá-los como um dos primeiros 
advogados da história. Sobre eles, William Forsyth menciona: 
 
As pessoas em Atenas que correspondem mais de perto a nossa idéia de advogado, 
não eram os oradores nos tribunais, mas aqueles que forneciam discursos para os 
clientes (logógrafos) para serem apresentados pelas partes em seu próprio 
benefício.
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Apesar de ser requerido por lei que os litigantes apresentassem seus próprios 
casos aos jurados, era difícil fazer cumprir essa lei, que aos poucos foi transformando-se em 
lei morta. O júri regularmente permitia que um parente, ou associado, auxiliasse um litigante. 
Alguns litigantes faziam uma breve introdução e solicitavam que um amigo o representasse. 
As solicitações dirigidas aos jurados para solicitar auxílio eram normalmente formais e 
perfunctórias. Robert Bonner exemplifica: \u201cEu tenho dito o que podia. Chamarei um de meus 
amigos se me permitem.\u201d55 Ainda segundo Bonner, as pessoas que prestavam auxílio, no 
início, eram recrutadas dentre os parentes de sangue ou por casamento, ou ainda dentre os 
amigos mais íntimos ou vizinhos. Pelos meados do quarto século a.C., a prática ficou 
firmemente estabelecida e os litigantes já não mais fingiam que a pessoa que prestava auxílio 
era na verdade um amigo e até mesmo um profissional. 
Os logógrafos escreviam para seus clientes um discurso que este último deveria 
recitar como se fosse sua a autoria.
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 Eles suprimiam sua própria personalidade e escreviam 
um discurso que parecesse o mais natural possível para o litigante cliente e desse a impressão 
de ser extemporâneo. Além disso, o logógrafo não era um mero retórico. Devia ter 
considerável familiaridade com as leis e o processo. Bonner cita vários usos de agentes que 
utilizavam serviços de pessoas com domínio de leis de práticas jurídicas, como banqueiros, 
 
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 FORSYTH, William. The history of lawyers: ancient and modern. Boston: Estes & Lauriat, 1875 (Reimpresso 
por The Lawbook Exchange, 1998), p. 22. 
55
 BONNER, Robert J. Lavvyers and litigants in ancient Athens. Chicago: The University of Chicago Press, 
1927, p. 202. 
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 Citação explícita a respeito da lei que proibia a utilização de advogados e que o uso de logógrafos era uma 
forma de burlar essa lei é encontrada em Quintiliano: \u201cet tum maxime scribere litigatoribus, quae illi pro se ipsi 
dicerent, erat moris, atque ita iuri, quo non licebat pro altero agere, fraus adhibebatur". (Era uma prática usual 
naqueles dias [referindo-se ao período de Sócrates e Lísias] escrever discursos para as partes apresentarem no 
tribunal em seu próprio benefício, uma maneira de burlar a lei que proibia a utilização de advogados). 
QUINTILIANO. Institutionis Oratoriae, Liber II, XV, 30. Citado de The Institutio Oratoria of Quintilian, V. I, 
p. 315, edição Loeb Classical Library. 
pessoas que emprestavam dinheiro, políticos e homens de negócios.
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A retórica dos logógrafos tomou-se um dos mais eficazes meios de persuasão
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 e 
tem sido discutida e analisada como uma das grandes fontes do direito grego antigo. Em seu 
tratado, Retórica, Aristóteles diferencia três tipos de retórica: deliberativa, judiciária e 
epidítica. A retórica judiciária, segundo Aristóteles, visava ao júri e tratava de eventos 
passados.
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