Fundamentos de História do Direito
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(madeira, pedra e papiro), associado à pequena reprodução de cópias pelos escritores 
posteriores, muito pouco material sobreviveu para servir ao estudioso moderno do direito 
grego antigo. Mesmo assim, nos últimos dez anos, um sem-número de obras sobre o direito 
grego antigo tem aparecido, e as pesquisas dos escolares têm-se intensificado no estudo e na 
interpretação dos discursos dos oradores áticos, lançando novas luzes e outra visão sobre o 
assunto. 
Contrariamente ao pressuposto de que o direito começou a ser escrito na Grécia 
antiga, tão logo surgiu a escrita, para que o povo tivesse acesso às leis, os estudos publicados 
nos últimos anos reconhecem na inscrição das primeiras leis escritas uma demonstração de 
poder da cidade (pólis) sobre os cidadãos. A escrita é vista como nova tecnologia que, ao se 
tomar disponível, foi utilizada como meio de controle e persuasão. Dessa forma, confirmava-
se a autoridade da cidade e impunha-se a ordem na vida dos cidadãos. Situação idêntica 
ocorreu com o surgimento do Estado moderno. 
 
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 A proverbial severidade das leis de Drácon é questionada por Michael Gagarin em seu livro Drakon and early 
athenian homicide law (Drácon e antiga lei ateniense de homicídio), p, 116-118. Um dos argumentos de Gagarin 
é baseado no fato de que uma das leis de Drácon sobreviveu até nossos dias, em uma inscrição em pedra datada 
de 409 a.C., e pune o homicídio involuntário com o exílio. 
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 BONNER, Robert J. Lawyers and litigants in ancient Athens. Chicago: The University of Chicago Press, 1927, p. 209. 
Os gregos antigos não só tiveram um direito evoluído, como influenciaram o 
direito romano e alguns de nossos modernos conceitos e práticas jurídicas: o júri popular, a 
figura do advogado na forma embrionária do logógrafo, a diferenciação de homicídio 
voluntário, involuntário e legítima defesa, a mediação e a arbitragem, a gradação das penas de 
acordo com a gravidade dos delitos e, finalmente, a retórica e eloqüência forense. Essa 
influência não foi resultado de um acaso, mas fruto da atividade, do envolvimento e da 
genialidade de um povo que, além de se haver destacado na filosofia, nas artes e na literatura, 
destacou-se também no direito. Na história de uma civilização, a diferença muitas vezes 
reside naquilo que as gerações seguintes, atuando como filtro, preservaram e transmitiram, ou 
deixaram de fazê-lo.
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 Em sua tragédia Édipo em Colono, Sófocles sintetizou a visão do 
ateniense sobre o direito quando Teseu, rei de Atenas, profere suas famosas palavras a 
Creonte, rei de Tebas: "Entra num território submisso à justiça, e decide cada coisa de acordo 
com a lei.\u201d69 
 
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
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68
 Além de seu mérito, o direito romano foi beneficiado por dois incidentes históricos. O primeiro foi o trabalho 
de compilação realizado pelo Imperador Justiniano, conhecido como Corpus Iuris Civilis, que permitiu a 
sobrevivência dos trabalhos dos juristas romanos. Fora da compilação de Justiniano, somente as Institutas, do 
jurista Gaio, sobreviveu. O segundo, apesar de quase cair no esquecimento após a queda do Império, o direito 
romano foi redescoberto (a partir de 1070 a.C.) e teve novo apogeu na Idade Média com os glosadores e a escola 
de Bolonha (Ver JONES, Peter; SIDWELL, Keith. The world of Rome. Cambridge: Cambridge University Press, 
1998, p. 257 e 322). 
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Capítulo 4