Fundamentos de História do Direito
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é relativamente recente na nossa história. Assim, alma 
e corpo não se separavam com a morte e os antigos pensavam estar enterrando no mesmo 
lugar, além do corpo inerte, alguma coisa com vida - a alma. 
Essas crenças chegaram ao nosso conhecimento através de alguns testemunhos 
autênticos, como o rito fúnebre, sobrevivente às crenças primitivas. 
Necessário se faz salientar que não bastava que o corpo fosse confiado à terra. Era 
preciso ainda obedecer a alguns ritos tradicionais e pronunciar determinadas fórmulas, porque 
do contrário as almas tomar-se-iam errantes, não repousariam nos túmulos, como inscrevia-se 
no epitáfio. 
 
Nas cidades antigas punia-se os grandes culpados com um castigo considerado 
terrível: a privação da sepultura. Punia-se-lhe assim a sua própria alma, infligindo-
lhe um suplício quase eterno.
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Os antigos acreditavam que os mortos, assim como os vivos, precisavam se 
alimentar, por isso, em determinados dias do ano, levava-se uma refeição a cada túmulo; era o 
banquete fúnebre, que não era apenas uma espécie de comemoração; o alimento que a família 
levava ao túmulo destinava-se efetivamente ao morto, exclusivamente a este. Assim, cavavam 
buracos nos túmulos para que o alimento chegasse até o morto e derramavam água e vinho 
para saciar sua sede. 
Desde os mais remotos tempos, deram essas crenças lugar a regras de conduta. 
Como, entre os antigos, o morto necessitava de alimento e de bebida, tornou-se um dever, 
uma obrigação dos vivos, satisfazer-lhe essa necessidade. Dessa forma, estabeleceu-se uma 
verdadeira religião da morte, cujos dogmas logo desapareceram, perdurando, no entanto, os 
seus rituais até o triunfo do cristianismo. 
Os mortos eram considerados criaturas sagradas; assim, cada morto era um deus e 
 
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 Cf. COULANGES, Fuste1 de. A cidade antiga. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. Rio de Janeiro: 
Ediouro, [s/d], p. 11-28. 
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 COULANGES, Fustel de. Op.cit., p. 13. 
seu túmulo um templo. Esta espécie de apoteose não era atributo dos grandes homens; entre 
os mortos, para os antigos, não havia distinção de pessoas; todos, ao morrerem, tomavam-se 
deuses de suas famílias. 
As sepulturas eram os templos dessas divindades, que gozavam de uma existência 
bem aventurada. \u201cContudo, era necessário preencher-se uma condição indispensável para sua 
felicidade; era imprescindível que em determinadas épocas os vivos lhes trouxessem suas 
oferendas.\u201d4 Quando isso deixava de acontecer, acreditavam os antigos que as almas 
deixavam a pacífica morada e tornavam-se almas errantes, atormentando os vivos. Assim, os 
manes, as almas dos mortos consideradas divindades, eram verdadeiros deuses, às quais 
dirigiam orações e súplicas, mas eram-no tão-somente enquanto os vivos os venerassem com 
o seu culto. 
Essa religião dos mortos parece ter sido a mais antiga que existiu entre estes 
povos, segundo preleciona Fustel de Coulanges. Dessa forma, pode-se crer ter o sentimento 
religioso do homem origem com este culto. Foi, talvez, à vista da morte que o homem teve 
pela primeira vez a idéia do sobrenatural e quis confiar em coisas que ultrapassavam a visão 
de seus olhos. 
Uma outra crença cultuada pelos antigos era o culto ao fogo.
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 Toda casa de grego 
ou de romano possuía um altar com um fogo aceso, que só deixava de brilhar quando a 
família inteira houvesse morrido. Fogo extinto significava família extinta. 
Esse fogo no altar doméstico não era um costume qualquer; possuía algo de 
divino: adoravam-no e prestavam-lhe verdadeiro culto. As regras e os ritos então observados 
fazem-nos crer que esse fogo era considerado puro, não lhes sendo permitido alimentá-Io com 
qualquer tipo de madeira. A religião distinguia, entre as árvores, aquelas espécies que podiam 
ser usadas para esse fim, e aquelas cujo uso era taxado de impiedade. 
O fogo do lar era, pois, a providência da família; extinguindo-se o fogo deixava de 
existir o seu deus tutelar, decorrendo daí a obrigação indelegável do dono da casa de mantê-lo 
sempre aceso. 
Pode-se fazer uma comparação entre esse culto ao fogo sagrado com o culto dos 
mortos, porque há entre eles uma estreita ligação. O fogo mantido no lar, no entendimento dos 
clássicos, não é o mesmo fogo de natureza material, possuindo uma natureza inteiramente 
diversa. É um fogo puro, uma espécie de ser moral. 
Os deuses \u201clares\u201d, os deuses cultuados pela família, eram simplesmente as almas 
 
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 COULANGES, Fustel de. Dp. cit., p. 17. 
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dos mortos, a que o homem atribuía um poder sobre-humano e divino, como foi referido 
anteriormente. E a lembrança de algum desses mortos sagrados achava-se sempre ligada ao 
fogo. 
Assim, o culto ao fogo e o culto aos mortos estavam associados no respeito dos 
homens e em suas orações. Os descendentes, quando falavam do fogo, recordavam 
imediatamente o nome dos seus antepassados, adorados como deuses. Essa religião nem 
sempre mostrou-se igualmente poderosa sobre a alma; foi-se enfraquecendo com o tempo, 
mas nunca a ponto de desaparecer por completo.
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A religião nas cidades antigas era estritamente doméstica, ao contrário do que 
passou a ocorrer com o advento do cristianismo. "Há muito tempo que o gênero humano não 
admite uma doutrina religiosa senão sob duas condições: uma, a de lhe anunciar um único 
deus; outra, desde que, de igual modo, se dirija a todos os homens e seja acessível a todos, 
sem afastar sistematicamente nenhuma classe ou raça."
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 Contudo, a religião primitiva não 
preenchia nenhum desses requisitos. Os deuses eram muito numerosos e só aceitavam a 
adoração dos seus descendentes. Na religião primitiva, cada um dos deuses só podia ser 
adorado por sua família. Ressalte-se que é a partir dessa religião doméstica que se pode 
entender a constituição da família grega e romana. 
Essa religião doméstica tinha como núcleo o culto aos mortos, que eram os deuses 
\u201clares\u201d protetores da família e só por ela poderiam ser adorados, sendo representados pelo 
fogo sagrado, que existia em todas as casas. O fogo sagrado era a providência da família, 
protegendo somente os seus. Esse culto não era público, todas as cerimônias eram celebradas 
apenas entre os familiares e possuía um caráter obrigatório além de secreto. Ninguém que não 
fosse da família podia presenciar tais ritos, nem tampouco avistar o fogo sagrado. O primeiro 
filho era encarregado de continuar o culto aos ancestrais; se deixasse de fazê-lo, traria, com 
sua conduta, infelicidade e morte para a família. Estabelecia-se, assim, um poderoso laço, 
unindo todas as gerações de uma mesma família. 
Para essa religião doméstica não existiam rituais comuns; cada família possuía o 
seu rito celebrado pelo pai, o pater familias, que era o sacerdote da religião doméstica.
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Essa religião só podia propagar-se pela geração. O pai, gerando a vida de seu 
filho, transmitia-lhe, ao mesmo tempo, com a vida, sua crença, seu culto, o direito de manter o 
fogo sagrado, de oferecer o banquete fúnebre e de pronunciar as fórmulas da oração. A 
 
6
 Cf. COULANGES, Fuste1 de. A cidade antiga. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. Rio de Janeiro: 
Ediouro, [s/d], p. 23. 
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 COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 25. 
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 COULANGES, Fuste1 de. Op. cit., p. 27. 
criança, logo ao nascer, tomava-se portadora da obrigação de adorar os deuses da sua família 
e, com o advento da sua morte, tomar-se-ia também um ancestral a ser adorado. 
No entanto, na propagação dessa religião, é preciso ressaltar uma particularidade \u2013 
esta religião doméstica só se transmitia na linha