Fundamentos de História do Direito
376 pág.

Fundamentos de História do Direito


DisciplinaHistória do Direito8.262 materiais306.722 seguidores
Pré-visualização50 páginas
masculina; a mulher só participava do culto 
através do seu pai ou do seu marido. E desse fato resultaram algumas implicações muito 
graves no direito privado e na constituição da família, como se fará referência mais adiante. 
 
3. A FAMÍLIA ANTIGA 
 
A religião doméstica - baseada no culto aos mortos -, ao determinar a existência, 
em cada casa, de um altar com o fogo sagrado sempre aceso, e a reunião diária da família em 
tomo dele para a adoração aos seus deuses, demonstra que o que caracteriza a família é a 
possibilidade de cultuar e adorar os mesmos deuses, sob o princípio da autoridade paterna. 
O poder paterno é uma das peças fundamentais para se entender a antiga 
concepção da família, da autoridade, da herança, da propriedade. 
Em outras palavras, a relação de dependência e subordinação representa o critério 
informativo do parentesco civil entre os antigos. 
A origem da família não está na geração; a prova disso é que \u201cpode haver laços de 
sangue entre várias pessoas, sem que estas pertençam à mesma família, e, por sua vez, pessoas 
sem nenhum vínculo consangüíneo podem constituir uma só família, desde que sujeitas à 
autoridade de um mesmo chefe\u201d.9 Assim, um filho emancipado ou uma filha casada não são 
partes integrantes da mesma família. O que unia os membros da família antiga não era o 
nascimento ou o sentimento, mas a religião do fogo sagrado e dos antepassados; assim, só 
fazia parte da mesma família aquele que fosse iniciado no seu culto. Pode-se afirmar, nesse 
sentido, que a família era mais uma associação religiosa do que uma associação natural. 
Fustel de Coulanges sublinha com nitidez que não foi a religião que criou a família, mas foi 
ela que lhe concedeu as regras, daí resultando receber a família antiga uma constituição muito 
diferente do que teria tido se os sentimentos naturais dos homens tivessem sido os seus únicos 
causadores.
10
 
O critério predominante na determinação do parentesco não era, portanto, a 
consangüinidade, mas a sujeição ao mesmo culto, a adoração aos mesmos deuses-lares, a 
 
9
 ROCHA, José V.C. Branco. O pátrio poder. Rio de Janeiro: Tupã, 1960, p. 17. 
10
 Cf. COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. Rio de Janeiro: 
Ediouro, [s/d], p. 29 et seq. 
submissão ao mesmo pater familias. Dessa feita, a família ou gens era um grupo mais ou 
menos numeroso subordinado a um chefe único: o pater familias, cujo poder ilimitado era 
concedido pela religião. 
Feitas essas breves considerações a propósito da estrutura da família antiga, cabe 
descrever, agora, o seu funcionamento, as suas relações de dependência e subordinação. 
Afirma-se que a religião doméstica determinava a constituição da família antiga; 
isso equivale a dizer que era a religião que determinava o parentesco entre os homens. Assim, 
dois homens seriam parentes quando tivessem os mesmos deuses, o mesmo lar e o mesmo 
banquete fúnebre. Dessa forma, o princípio do parentesco não era o ato material do 
nascimento, porém o culto. A isto chamava-se agnação.
11
 
Como o direito de ofertar sacrifícios ao fogo sagrado só se transmitia de homem 
para homem, o direito do culto também só era transmitido em linha masculina, e da mesma 
forma dava-se a agnação. Assim, não eram agnados os parentes da mulher e, como tal, 
sofriam as conseqüências resultantes do fato, tais como a proibição do direito de herdar e 
tantos outros, como se verá mais adiante. 
O casamento foi a primeira instituição estabelecida pela religião doméstica e era 
considerado um ato dotado de extrema importância e seriedade para ambos os cônjuges, 
porque não se tratava, na Antigüidade, de mera troca de moradia, por parte da mulher, e sim 
de abandonar definitivamente o lar paterno, para invocar dali em diante os deuses do esposo. 
Tratava-se, pois, de trocar de religião, de passar a praticar outros ritos e adorar outros deuses. 
Assim, a partir do casamento, a mulher nada mais tinha em comum com a religião doméstica 
dos seus pais, passando a cultuar e adorar outros deuses até então desconhecidos. Isso 
decorria da impossibilidade de se cultuar deuses de famílias diferentes, já que não se poderia 
permanecer fiel a um deus, honrando outro, porque, de acordo com a religião, era princípio 
imutável a mesma pessoa não poder invocar dois fogos sagrados nem duas séries de 
ancestrais. O casamento era a cerimônia sagrada que devia produzir esses grandes e graves 
efeitos. Por esse motivo, na cidade antiga, a religião não admitia a poligamia e o divórcio só 
era permitido através de cerimônia religiosa e em poucas circunstâncias.
12
 
A família antiga foi constituída pelas crenças referentes aos mortos e pelo culto a 
eles devido. 
Os antigos julgavam que a felicidade do morto dependia não da sua conduta em 
 
11
 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. Rio de Janeiro: 
Ediouro, [s/d], p. 41-43. 
12
 Cf. COULANGES, Fuste1 de. Op. cit., p. 31-38. 
vida, mas da conduta que seus descendentes tinham a seu respeito, após sua morte. Dessa 
forma, os mortos tinham necessidade de que a sua descendência jamais se extinguisse, porque 
a extinção da família provocaria a ruína de sua religião e a infelicidade dos ancestrais. 
Assim, \u201ctodos tinham, pois, grande interesse em deixar um filho, convencidos de 
que com isso, tornavam feliz sua imortalidade\u201d.13 Por esse motivo o filho primogênito era 
aquele gerado para o cumprimento do dever, já que o grande interesse da vida humana 
consistia em continuar a descendência para, por ela, dar seqüência ao culto. Dessa forma, o 
celibato era considerado uma impiedade grave e uma desgraça para a família, unidade central 
da Antigüidade clássica. 
Essas crenças, por muito tempo, evitaram o celibato que, em algumas cidades 
gregas, era até mesmo punido como delito, porque o homem, segundo as crenças, não 
pertencia a si mesmo, mas à sua família, e tinha o dever de continuar o culto. 
Porém, não era bastante a geração de um filho; era necessário que Fosse fruto de 
casamento religioso, senão a família não se perpetuaria por seu intermédio. Se a mulher não 
estivesse associada ao culto do marido, seu filho também não estaria. Isso significou a 
sacralização do casamento, que era portanto obrigatório para a perpetuação do culto. Nesse 
sentido, torna-se fácil entender que um casamento poderia ser perfeitamente desfeito se a 
mulher fosse estéril. 
A religião determinava \u201cque a família não podia extinguir-se e todo o afeto e todo 
o direito natural cediam perante esta regra absoluta\u201d.14 Dessa forma, a entrada de um filho 
numa família dava-se através de um ato religioso, em que, primeiramente, havia o 
reconhecimento pelo pai, que decidia se o recém-nascido seria ou não da família. O 
nascimento constituía, assim, apenas o vínculo físico; essa declaração do pai é que criava o 
vínculo moral e religioso e admitia, portanto, a criança nesta espécie de associação sagrada 
que era a família. 
Uma criança poderia ainda fazer parte de uma família tendo nascido fora dela. 
Fustel de Coulanges esclarece com nitidez: 
 
A mesma religião que obrigava o homem a se casar, que concedia o divórcio em 
casos de esterilidade, que substituía o marido por algum parente nos casos de 
impotência ou de morte prematura, oferecia ainda à família um último recurso, como 
meio de fugir à desgraça tão temida da sua extinção; esse recurso encontramo-lo no 
direito de adoção.
15
 
 
 
13
 COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 35. 
14
 COULANGES, Fustel de. Op. cit.,