Fundamentos de História do Direito
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 COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 39. 
Pode-se notar, assim, que o dever de perpetuar o culto doméstico foi a fonte do 
direito de adoção entre os antigos e exatamente por esse motivo só era permitida a adoção a 
quem não tinha filhos. 
A adoção também se realizava por uma cerimônia religiosa, que admitia o adotado 
em uma nova família, tomando-o estranho à sua natural. Saliente-se novamente que era a 
religião, na cidade antiga, que determinava a existência ou não do parentesco, pois o vínculo 
do culto o substituía. 
O instituto da emancipação também foi contemplado pelos antigos.
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 Através 
dele, um filho libertava-se da religião de sua família e jamais poderia ser considerado 
novamente seu membro, nem pela religião nem pelo direito. Assim, para que um filho 
pudesse entrar em nova família, era preciso estar apto a sair da antiga, e o fazia através da 
emancipação, da renúncia àquele culto. 
Da mesma forma que a religião determinava a constituição da família, do 
parentesco entre os homens, com o objetivo de perpetuação ad infinitum, ela regulava o 
direito de propriedade com o mesmo objetivo, o de perpetuar o culto e a religião. 
Nesse sentido, menciona-se um trecho bastante esclarecedor da obra A cidade 
antiga: 
 
Há três coisas que, desde as mais remotas eras, se encontram fundadas e 
estabelecidas solidamente pelas sociedades grega e italiana: a religião doméstica, a família e o 
direito de propriedade; três coisas que apresentaram entre si manifesta relação e que parece 
terem mesmo sido inseparáveis.
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Segundo a concepção dos antigos, a idéia da propriedade privada fazia parte da 
própria religião. Como a religião determinava que cada família deveria ter o seu lar e os seus 
antepassados, e estes só poderiam ser adorados pela sua família, e só a ela protegiam, eram 
tanto estes como aquele sua propriedade particular. Assim, cada família, tendo os seus deuses 
e o seu culto, devia também ter o seu lugar particular na terra, a sua propriedade, que não era 
individual, mas da família, um lugar onde os antepassados \u201crepousavam\u201d e a eles era 
oferecido o banquete fúnebre. O solo da família, onde eram enterrados os mortos que viravam 
deuses, transformava-se, dessa forma, em propriedade inalienável e imprescritível. 
Não foram as leis, porém a religião que, a princípio, garantiu o direito de 
 
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 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga, Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. Rio de Janeiro: 
Ediouro, [s/d], p. 39 et seq. 
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 COULANGES, Fustel de. Op, cit., p. 44. 
propriedade: a própria família não podia abandonar a terra onde se encontravam seus 
ancestrais e seu fogo sagrado, a qual tomava-se propriedade inalienável, pois não pertencia a 
um homem apenas, mas a toda uma família. Se o homem não podia, a não ser com muita 
dificuldade, desfazer-se da terra, com muito mais razão não podiam, contra a sua vontade, 
despoja-lo dela. Ignorou-se, assim, entre os antigos a expropriação por utilidade pública, e o 
confisco só se praticava como conseqüência da, sentença de exílio, ou seja, quando indivíduo 
fosse privado do título de cidadão, situação em que não poderia exercer nenhum direito na 
cidade, incluindo, portanto, o de propriedade.
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Cabe salientar que, na Antigüidade, o que responde pelas dívidas de um cidadão 
não é o seu patrimônio, como se dá entre nós (princípio moderno de direito obrigacional), mas 
o seu próprio corpo. Assim, seria muito mais fácil escravizar um indivíduo do que tirar-lhe a 
propriedade, porque esta mostrava-se inseparável da sua família. A propriedade não estava 
baseada no direito do trabalho; se estivesse, responderia pelas dívidas do seu proprietário, que 
poderia perfeitamente dela se desfazer, mas estava baseada na religião, que a tomara 
inviolável, inalienável, imprescritível e indivisível para que pudesse garantir a sua 
perpetuação. 
Na asserção de Fustel de Coulanges, \u201co direito de propriedade, lendo-se 
estabelecido para a perpetuação de um culto hereditário, não podia desaparecer ao longo da 
existência de um indivíduo\u201d.19 
Desse modo, com a continuação religiosa doméstica, o direito de propriedade 
deveria permanecer. 
Da mesma forma que a religião doméstica era hereditária, de varão para varão, a 
propriedade também o era. Assim como o primeiro filho homem era o natural e obrigatório 
continuador do culto, herdava também, de pleno direito, os bens, não lhe assistindo o direito 
de renúncia ou desistência, o que só mais tarde foi incorporado ao direito. 
Conforme as leis antigas, o direito de sucessão cabia somente ao filho, não 
podendo ser contemplado à filha. A razão de tal tratamento, nesse contexto, parece óbvia, se 
somente o filho podia manter o culto familiar, já que a filha casando-se renunciava ao culto do 
seu pai para adotar o do esposo, não lhe podendo caber nenhum direito à herança, porque se 
assim não fosse desvincular-se-ia o culto da terra, da propriedade, o que a religião 
rigorosamente proibia. Para Fustel de Coulanges, a filha \u201cnão casada, a lei não a privava 
formalmente de sua parte na herança; mas é necessário perguntarmo-nos se, na prática, 
 
18
 COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 44 et seq. 
19
 COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 52. 
poderia realmente ser herdeira\u201d.20 Essas leis existiam em decorrência das crenças e do poder 
religioso e não em decorrência da lógica ou do sentimento natural. Para o historiador francês, 
não se têm provas de que a filha estivesse excluída da herança, no direito romano, porém, se 
tem certeza de que, se casada, nada herdava de seu pai e, se solteira, jamais poderia dispor do 
que havia herdado; e cabe lembrar, que isso só poderia ser feito através de testamento, porque 
as filhas não herdavam de pleno direito.
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A legislação ateniense, citada por Coulanges, que proibia a filha de herdar, sob 
qualquer circunstância, encontrou uma maneira de conciliar esse preceito religioso com o 
sentimento natural de que ela pudesse usufruir da fortuna do pai, como, por exemplo, 
desposando um herdeiro seu. 
Cumpre salientar que, se um indivíduo morresse sem filhos, procurar-se-ia entre 
os herdeiros aquele que deveria ser o continuador do seu culto; este seria, pois, o seu herdeiro. 
Pelo exposto, pode-se notar que a família antiga não recebeu as suas leis da 
cidade; se a cidade tivesse estabelecido o direito privado, este seria bem diferente. À cidade 
não interessava a inalienabi1idade da terra ou a indivisibilidade do patrimônio, ou ainda a 
disponibilidade total do filho pelo pai. Quando a cidade foi aos poucos se formando e as leis 
sendo feitas, ela já encontrou esse direito formado e consolidado pela família e acima de tudo 
pela religião, que se impôs ao legislador. 
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Esse direito familiar e religioso era exercido pelo pater familias, que possuía os 
mais amplos e ilimitados poderes, como conseqüência de sua posição de chefe e de sacerdote 
do culto religioso. 
Segundo José A. C. Branco Rocha, 
 
A autoridade do pater familias não pode ser explicada em razão das exigências de 
caráter puramente doméstico. As sociedades antigas são mais ou menos 
homogêneas. Nelas a estratificação social é nula ou mínima. A família assume, em 
tal circunstância, funções que só mais tarde teriam de diferenciar-se. É a um só 
tempo unidade política, religiosa e econômica. Explica-se, assim, a soma enorme de 
poderes conferidos ao chefe de família, entre os antigos.
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A família, nessas sociedades antigas, assumia enormes proporções. A gens, ou 
melhor, a família unida pela religião, era formada não só pelos agnados, pelos