Fundamentos de História do Direito
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aquela população romana e as suas diferenças em relação às formas existentes hoje: 
 
Na Itália romana, um século antes ou depois de nossa era, cinco ou seis milhões de 
homens e mulheres são livres e cidadãos; vivem em centenas de territórios rurais 
(civitas) que têm como centro uma cidade (urbs) com seus monumentos e casas ou 
domus. Contam-se ainda um ou dois milhões de escravos, que são ou domésticos ou 
trabalhadores agrícolas. Sobre seus costumes, sabemos apenas que a instituição 
privada do casamento lhes era proibida e como tal permanecerá até o século III. 
Consta que essa gente vivia em estado de promiscuidade sexual, com a exceção de 
um punhado de escravos de confiança que administravam a casa do senhor ou que, 
servindo ao próprio imperador, eram os funcionários da época. Esses privilegiados 
tomavam por longo tempo uma concubina exclusiva ou a recebiam das mãos do 
senhor.
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O casamento romano não possuía urna configuração que permitisse a intervenção 
de um poder público e estava essencialmente disciplinado pelo direito privado, que não era 
escrito, pelo contrário, era informal e oral, ocorrendo apenas a presença precária de 
testemunhas e em última instância da prova verbal dos nubentes restabelecedores da 
celebração através de suas memórias: 
 
(...) o casamento romano é um ato privado, um fato que nenhum poder público deve 
sancionar: ninguém passa diante do equivalente de um juiz ou de um padre; é um ato 
não escrito (não existe contrato de casamento, mas apenas um contrato de dote) e até 
informal: nenhum gesto simbólico, por mais que se diga, era obrigatório. Então, 
 
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 ARIES, Philippe; DUBY, Georges. (Dir.). História da vida privada. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, v. 1, p. 166. 
39
 ARIES, Philippe; DUBY, Georges. Op. cit., p. 45. 
como um juiz, em caso de litígio por uma herança, podia decidir se um homem e 
uma mulher eram legitimamente casados? Na falta de gesto ou escrito formais, 
decidia pelos indícios, como um tribunal para estabelecer um fato. Que indícios? Por 
exemplo: atos inequívocos, tais como uma constituição de dote, ou gestos que 
provavam a intenção de ser esposo: o suposto marido sempre havia qualificado de 
esposa a mulher com quem vivia; ou ainda testemunhas podiam atestar que haviam 
assistido a uma pequena cerimônia de evidente caráter nupcial. Em última instância, 
somente os cônjuges podiam saber se, em seu pensamento, estavam casados.
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Após a análise preliminar sobre a inserção da Civilização Romana, no antigo 
modo de produção escravagista típico da Grécia e peculiarmente de Roma e de alguns 
apontamentos sobre a sua mentalidade característica, procura-se a partir daqui ingressar na 
história propriamente de Roma e de suas instituições jurídicas e políticas, analisando as várias 
etapas que marcaram o desenvolvimento do Império Romano. 
 
2. A IMPORTÂNCIA DO DIREITO ROMANO E A SUA PRESENÇA NOS 
ORDENAMENTOS JURÍDICOS MODERNOS 
 
José Cretella Júnior aponta alguns significados da expressão \u201cdireito romano\u201d, 
interpretando-o como: a) aquele direito que vigorou por 12 séculos; b) \u201cdireito privado 
romano\u201d; c) o direito contido no \u201cCorpo do Direito Civil\u201d, para separá-la do \u201cCorpo de 
Direito Canônico\u201d, ou \u201cCorpus Juris Civilis\u201d e \u201cCorpus Juris Canonici\u201d, abrangendo mais 
delimitadamente aquele direito condensado no Império Romano do Oriente por Justiniano: 
 
A expressão direito romano é empregada ainda para designar as regras jurídicas 
consubstanciadas no Corpus Juris Civilis, conjunto ordenado de leis e princípios 
jurídicos reduzidos a um corpo único, sistemático, harmônico, mas formado de 
várias partes, planejado e levado a efeito no VI século de nossa era por ordem do 
imperador Justiniano, de Constantinopla, monumento jurídico da maior importância, 
que atravessou séculos e chegou até nossos dias.
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O conjunto de normas jurídicas regeram o povo romano nas várias épocas de sua 
História, desde as origens de Roma até a morte de Justiniano, Imperador do Oriente, 
ocorrida em 565 da era cristã.
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A importância do estudo do direito romano, para os juristas, é traduzi da nesta 
passagem de José Carlos Moreira Alves, citando o autor francês Huvelin: 
 
Ora, nenhum direito do passado reúne, para esse fim, as condições que o direito 
 
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 ARIES, Philippe; DUBY, Georges. Op. cit., p. 45. 
41
 CRETELLA JR., José. Curso de direito romano: o direito romano e o direito civil brasileiro. 21. ed. Rio de 
Janeiro: Forense, 1998, p. 9. 
42
 GRASSI, Fiorindo David. Direito romano hoje: síntese da história e da filosofia do direito romanista. 
Frederico Westphalen-RS: URI, 1996, p. 53. 
romano apresenta. Abarcando mais de 12 séculos de evolução - documentada com 
certa abundância de fontes -, nele desfilam, diante do estudioso, os problemas de 
construção, expansão, decadência e extinção do mais poderoso império que o mundo 
antigo conheceu. É assim o direito romano notável campo de observação do 
fenômeno jurídico em todos os seus aspectos.
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O direito romano continua vivo em várias instituições liberais individualistas 
contemporâneas, principalmente naquelas instituições jurídicas concernentes ao direito de 
propriedade no seu prisma civilista e ao direito das obrigações, norteando o caráter 
privatístico do nosso Código Civil, priorizador da defesa da propriedade como direito real, 
erga omnes, absoluto, portanto, como um direito ilimitado, calcado no privilégio de usar Uus 
utendi), gozar Uus fruendi) e abusar da coisa Uus abutendi), justificando inclusive o desforço 
in continenti (art. 502 do Código Civil brasileiro), ou seja, a legítima defesa da posse. Desta 
fonna, a reapropriação formal dos conceitos jurídicos romanos adaptou-se historicamente à 
organização do cálculo racional, à previsibilidade das expectativas exigi das pelo mercado e à 
certeza jurídica, como fatores obliteradores em muitas circunstâncias de uma idéia mais ampla 
de justiça social, nas sociedades capitalistas modernas e no colonialismo e neocolonialismo 
típicos das economias pré-capitalistas coloniais e dos países constituintes da periferia do 
sistema capitalista atual. 
José Cretella Júnior define tal reapropriação a partir da sobrevivência, em nosso 
ordenamento legal, de vários institutos reassimilados, da estrutura do antigo direito romano: 
 
Em segundo lugar, numerosos institutos do direito romano não morreram: estão 
vivos, ou exatamente como foram, ou com alterações tão pequenas que se 
reconhecem, ainda, nos modernos institutos de nossos dias que lhes correspondem. 
Para dar exemplos, apenas no campo das obrigações, podemos citar diversos tipos 
de contratos (a compra e venda, o mútuo, o comodato, o depósito, o penhor, a 
hipoteca) ainda existentes nos sistemas jurídicos de hoje.
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A expressão Corpus Juris Civilis não foi lançada por Justiniano, mas pode ser 
creditada ao estudioso do direito romano Denis Godefroy, a que atribuiu à compilação de 
quatro livros, Institutas, Pandectas, Digesta e Codex, feita por uma comissão de juristas 
dirigidos por Triboniano, jurista de Beirute, a serviço do Império Romano do Oriente. Essa 
comissão foi designada para compilar o direito do período clássico romano feito pelos 
jurisconsultos antigos do período clássico (Digesta e Pandectas). Queriam também compilar 
as constituições imperiais (Codex) e criar o material didático acessível ao direito romano para 
o estudante de direito (Institutas). Esse trabalho de sistematização do direito romano foi feito 
 
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 HUVELIN. Apud AL VES,