Fundamentos de História do Direito
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Si volet suo vivito: pois o devedor, 
quase escravizado, conserva ainda algo de seu; a sua propriedade, se a tem, não lhe é confiscada. Os contratos 
 
Na mesma linha evolutiva de um progresso intelectual da humanidade, no 
entender de Coulanges, dá-se a evolução no campo da crença. Primeiramente existiu uma 
religião doméstica do culto aos mortos (imutável na sua prática, sendo que, com o tempo, seus 
dogmas extinguiram-se) e a religião da natureza cujo desenvolvimento ocasionou a evolução 
da sociedade. O passo seguinte foi a criação de um culto da cidade que encaminhou a 
humanidade ao supra-sumo da crença: o cristianismo.
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Neste quadro tem-se uma estreita relação entre a instituição do direito de 
propriedade e a religião, que 
 
(...) chegou de uma única vez, em virtude de suas crenças, à concepção do direito de 
propriedade, desse direito que é a origem de toda a civilização, pois por sua causa o 
homem cultiva a terra e ele próprio se torna melhor.
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Na composição dessas famílias primitivas, o culto e a propriedade familiar estão 
interligadas necessariamente à figura do poder paterno. Ao pai de família cabia ser chefe 
religioso, senhor da propriedade e juiz. O pai, que tem a propriedade como direito, não a tem 
individualmente, mas sim como direito familiar. Os bens pertenciam, nessas sociedades 
primitivas, aos antepassados mortos e seus descendentes ainda vivos. 
Não havia um só ato da vida pública em que não se fizesse intervir os deuses. 
Como se tinha a concepção de que os deuses tanto eram excelentes protetores como inimigos 
cruéis, o homem não ousava proceder sem estar seguro de que eles lhe eram favoráveis.
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conhecidos em direito romano com os nomes de mancipação com fidúcia e de pignus eram, antes da ação 
serviana, meios indiretos de assegurar ao credor o pagamento da divida; e provam indiretamente não existir a 
expropriação por dívidas. Mais tarde, ao suprimir-se a servidão corporal, foi necessário encontrar um meio de 
apresar os bens do devedor. Isso não era fácil; mas a distinção que se fazia entre a propriedade e a posse 
forneceu então um recurso. O credor obteve do pretor o direito de vender, não a propriedade, dominium, mas os 
bens do devedor, bona. Só então, mercê de expropriação disfarçada, o devedor veio a perder o gozo da sua 
propriedade\u201d (COULANGES, Fustel de. A cidade antiga: estudos sobre o culto, o direito, as instituições da 
Grécia e de Roma. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. São Paulo: Hemus, 1975, p. 57). 
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 Assim, \u201ca vitória do cristianismo assinala o fim da sociedade antiga. A nova religião termina a transformação 
social que vimos iniciar-se seis ou sete séculos antes do seu advento (COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 304). 
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 COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 54. 
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 \u201c(...) a assembléia iniciava-se sempre com um ato religioso. (...) o orador (...) começasse o seu discurso com 
uma invocação dirigida aos deuses. (...) os juízes reuniam-se em recinto sagrado. (...). Na guerra a religião 
mostrou-se, pelo menos, mais poderosa do que na paz\u201d (COULANGES, Fuste1 de. A cidade antiga: estudos 
sobre o culto, o direito, as instituições da Grécia e de Roma. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. São 
Paulo: Hemus, 1975, p. 130-131). A crença, assim, está presente desde a busca por símbolos na França depois da 
Primeira Guerra Mundial, onde até o queijo camembert ganha destaque (no período de cinco anos, entre 1920 e 
1925, foram erigidos na França mais de 30 mil monumentos funerários, isto apenas é uma amostra do vigor de 
iniciativas em busca de símbolos nacionais), até o sagrado direito de propriedade confirmado pela nossa 
Constituição de 1988. Trata-se, como na cidade antiga, ou nas emergentes nações do século XVIII, de criar um 
alicerce ideológico com o auxílio de instrumentos que servem de referente, como os hinos nacionais, bandeiras 
etc., para fazer crer. 
No mesmo sentido, de que a propriedade foi moldada pelas crenças dos homens, a 
lei, para Coulanges, 
 
brotou como conseqüência direta e necessária da crença; era a própria religião, 
aplicada às relações dos homens entre si. (...). O autêntico legislador, entre os 
antigos, nunca foi o homem, mas a crença religiosa de que o homem era portador.
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3. A PROPRIEDADE ANTIGA, MEDIEVAL E MODERNA A PARTIR DO 
MATERIALISMO HISTÓRICO 
 
Friedrich Engels, em A origem da família, da propriedade privada do Estado, 
expõe os estudos que Lewis H. Morgan fez junto aos índios norte-americanos. Engels vê a 
importância desse trabalho para uma compreensão maior da pré-história, da história da 
primitiva família, da inversão do direito materno ao direito paterno, da propriedade privada, 
dos costumes, da produção, etc. 
Engels credita ser um bom trabalho o de Morgan, visto que ele parte, na divisão 
das épocas, da produção material dos meios de vida dos homens e adianta que outros 
estudiosos, como Bachofen, viram-se ofuscados, em seus estudos, pela idéia de que foram as 
representações religiosas as responsáveis pelas revoluções ocorridas e não as condições de 
vida real. No trabalho de Morgan tem-se uma nova base para o estudo da história primitiva, o 
que permite uma abordagem através da concepção materialista da história. 
Morgan divide a história humana em três épocas principais: (1) selvageria; (2) 
barbárie; e, (3) civilização, e cada uma delas com tres estágios: inferior, médio e superior. 
Nesta organização, o desenvolvimento ocorre pelas mudanças ocorridas na produção, pelo 
\u201calargamento das fontes de subsistência\u201d.20 
De forma esquemática tem-se: 1) na selvageria, o casamento de grupo, 2) na 
barbárie, a família acasalada; e 3) na civilização, a monogamia. Acontece uma redução 
progressiva da família, chegando à última unidade binária - homem e mulher -, num 
estreitamento cada vez maior, chegando à monogamia. 
No entender de Engels, a família monogâmica já não traz em seu seio condições 
 
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 \u201cEntre os antigos, a lei foi sempre santa; nos tempos da realeza, era a rainha dos reis, nos tempos da república 
foi a rainha dos povos. Desobedecer-lhe seria cometer sacrilégio\u201d (COULANGES, Fustel de. Op. cit., p. 152). 
Muitos séculos se passaram e a Constituição Federal de 1988 ainda proclama: \u201cNós representantes do povo (...) 
de uma sociedade fraterna, p1uralista e sem preconceitos (...), promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte 
Constituição\u201d (BRASIL. Constituição da República Federativa. São Paulo: Atlas, 1989, p. 9, Preâmbulo). 
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 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Trad. João Pedro Gomes. 
Lisboa: Avante; Moscovo: Progresso, 1985, p. 228, (Coleção obras escolhidas). 
naturais de sua formação, mas sim condições econômicas, exemplificada 
 
nomeadamente na vitória da propriedade privada sobre a originária propriedade 
Comum natural. Dominação do homem na família e procriação de filhos que só 
pudessem ser seus e que estavam destinados a tornar-se herdeiros da sua riqueza 
eram os únicos objetivos do casamento singular, conforme os gregos exprimiam sem 
rodeios. De resto, o casamento singular era para eles um fardo, uma obrigação para 
com os deuses, o Estado e os seus antepassados.
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A história para Marx e Engels não se prende à simples análise das idéias, das 
atitudes e mudanças que ocorrem com detenninados governos, regimes políticos e Estados. 
Ela é um processo complexo da luta de classes, do desenvolvimento das forças produtivas, 
das relações de produção e das forças políticas da dominação. O lugar onde