Fundamentos de História do Direito
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uso da 
plasticultura para proteção e diminuição do çiclo das culturas etc. (ABRAMOVAY, Ricardo. Paradigmas do 
capitalismo agrário em questão. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Anpocs; Campinas: Unicamp, 1992). 
25
 ABRAMOVAY, Ricardo. Op. cit., p. 64. 
Nesse sentido, 
 
a separação cidade e campo pode ser também tomada como a divisão de capital e 
propriedade fundiária, como o começo de uma existência e desenvolvimento do 
capital independente da propriedade fundiária, do capital, ou seja, uma propriedade 
que tem a sua base meramente no trabalho e na troca.
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A fuga de muitos servos para a cidade, na Idade Média, marca o Illrtalecimento 
desta com a criação das corporações de ofícios, espelhado no fato de que 
 
estas cidades eram verdadeiras associações, criadas pela necessidade imediata, pelo 
cuidado com a proteção da propriedade, e para multiplicar os meios de produção e 
os meios de defesa de cada um dos membros.
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A propriedade fundiária na Idade Média passa por profundas transrúrmações a 
partir das invasões bárbaras com o declínio do Império Romano do Ocidente. Podemos 
observar que 
 
entre os germanos, no tempo das invasões, ela apresenta ainda características 
arcaicas. Estes povos estão fortemente propensos ao nomadismo, passam de um 
território a outro, que exploram coletivamente, enquanto ele se mantém fértil, depois 
emigram. As tribos é que são titulares desta propriedade coletiva (Marka, Allmende, 
Volkland). As terras confiscadas aos proprietários romanos ou provinciais tornam-
se, por conseguinte, propriedade coletiva dos grupos gentílicos (sippen, fare) ou por 
vezes, de comunidades de soldados (arimannie). Mais tarde, em contato com o 
direito romano e por necessidade de salvaguardar o caráter intensivo das culturas, 
começa a desenvolver-se entre os germanos a propriedade privada das terras.
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Essa forma de propriedade privada das terras existente na Idade Média sofre 
algumas limitações. Não se trata da mesma forma que hoje se apresenta. Nessa época a 
propriedade privada da terra não é plena e absoluta como o foi no direito romano anterior, e 
sim tem-se a propriedade de uma mesma coisa dividida em vários domínios, isto é, um direito 
de propriedade que não exclui os outros da relação com a mesma amplitude e que permite a 
existência de possuidores de títulos de diversos sobre uma mesma coisa. 
Como na Idade Média, \u201cnão existindo uma autoridade central dotada de um poder 
efetivo, reina em todos os níveis aquela \u201econfusão da soberania e da Propriedade\u201f que é típica 
do Feudalismo: o proprietário de terras assume poderes políticos sobre os camponeses que 
trabalham nas suas terras, impondo uma série de limitações às suas liberdades pessoais. 
 
26
 ABRAMOVAY, Ricardo. Op. cit., p. 65. 
27
 ABRAMOVAY, Ricardo. Op. cit., p. 66. 
28
 BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Trad. Carmem E. 
Varriale. 4. ed. Brasília: UnB, 1992, p. 1032. 
Assim, o modo de produção escravista é substituído pelo feudal: ao escravo sucede o servo, 
que goza de uma liberdade pessoal parcial, da Propriedade parcial dos meios de produção 
(instrumentos de trabalho, animais) e de uma certa autonomia na gestão da sua pequena 
empresa agrícola\u201d.29 
Na formação da propriedade privada moderna é interessante notar que nas 
primeiras cidades da Idade Média a divisão do trabalho é pouco desenvolvida, tanto entre as 
corporações como no seio delas, e um passo decisivo no desenvolvimento da divisão do 
trabalho foi a separação entre a produção e o intercâmbio. Com o intercâmbio acontece uma 
ligação entre uma cidade e outra, e aí a classe dos comerciantes desempenhou importante 
papel até chegar a ter um intercâmbio mundial, já com base na grande indústria. 
Neste processo, Marx e Engels dão destaque especial à tecelagem como produto 
da divisão do trabalho entre as cidades, sendo que 
 
com a manufatura liberta das corporações mudaram também, imediatamente, as 
relações de propriedade. O primeiro progresso sobre o capital natural de ordem ou 
estado verificou-se com o ascenso dos comerciantes, cujo capital era, desde o 
princípio, móvel, capital no sentido moderno, tanto quanto as condições de então no-
lo permitem afirmar. O segundo progresso veio com a manufatura, a qual de novo 
mobilizou uma massa do capital natural e, no geral, aumentou a massa do capital 
móvel face ao natural.
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Com a manufatura estabelece-se uma concorrência entre as nações, bem como o 
comércio ganha importância política, sendo que ela também é responsável pelas mudanças no 
relacionamento entre o empregador e o operário que, com o dinheiro, como vínculo entre eles, 
sobrepõe o vínculo patriarcal que se estabelecia nas corporações. 
A Idade Moderna começa a esboçar-se com a expansão comercial, pelo início da 
grande produção manufature ira, pela formação de impérios financeiros, pelas sociedades por 
ações, e no século XVI, com a descoberta do Novo Mundo, a propriedade privada mobiliária 
toma-se mundial. À custa das novas colônias tem-se o período denominado de fase da 
acumulação primitiva do capital, o que possibilita o advento do modo de produção capitalista. 
A nova forma de propriedade que ganha destaque nessa fase, principalmente com 
a Revolução Industrial, responsável pelo câmbio do período manufatureiro ao período do 
maquinismo, é a propriedade Industrial, que vem se juntar à propriedade imobiliária. 
Representa também o fim da supremacia da propriedade fundiária, visto que esta forma de 
 
29
 BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Op. cit., p. 1033. 
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 Ainda quanto à manufatura, ela \u201ctornou-se, ao mesmo tempo, um refúgio dos camponeses contra as 
corporações que os excluíam ou lhes pagavam mal, do mesmo modo que anteriormente as cidades das 
corporações tinham servido aos camponeses de refúgio contra os grandes proprietários rurais\u201d (Idem, p. 70-71). 
propriedade, assentada em economias de base predominantemente agrícola, reinava quase que 
exclusiva em relação às outras lúrmas de propriedade até então. 
De importância indiscutível, no campo jurídico e político, ocorreu a Revolução 
Francesa de 1789, que pôs 
 
termo à concepção medieval, dentro da qual o domínio se encontrava repartido entre 
várias pessoas, sob o nome de domínio iminente do Estado, domínio direto do 
senhor e domínio útil do vassalo; e havia substituído pelo conceito unitário de 
propriedade, peculiar ao Direito Romano, e onde o proprietário é considerado senhor 
único e exclusivo de sua terra.
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Nos séculos XVII e XVIII, conforme Marx e Engels, estabelece-se um novo 
período da propriedade privada, em que a manufatura perde espaço para o comércio e a 
navegação, tanto que consideram o século XVIII como o século do comércio. Esta 
transformação é marcada pelas leis da navegação, promulgadas por Cromwell em 1651, e 
pelos monopólios coloniais. 
A grande procura por produtos manufaturados, que foi superior ús forças 
produtivas então existentes, deu origem à criação da grande indústria, que inaugura mais um 
período da propriedade privada, o terceiro desde a Idade Média. 
O surgimento da grande indústria, para os autores mencionados acima, 
 
 universalizou a concorrência, estabeleceu os meios de comunicação e o mercado 
mundial moderno, submeteu a si o comércio, transformou todo o capital em capital 
industrial e criou assim rápida circulação (o desenvolvimento da finança) e 
concentração dos capitais (...) completou a vitória da cidade comercial sobre o 
campo. A sua primeira premissa é o sistema