Roberto Kant de Lima   Antropologia do Direito
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Roberto Kant de Lima Antropologia do Direito


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antropologia jurídica
 
elaborar um texto de antropologia para um livro que, 
explicitamente, destina-se a ser lido por profissionais do direito des-
de logo me pareceu, e ainda me parece, um empreendimento de alto 
risco. Isso porque a nossa tradição jurídica tem características muito 
específicas no que tange ao sistema de produção e reprodução do 
saber jurídico. De modo mais claro, a nossa tradição jurídica utiliza 
práticas pedagógicas e processos de socialização no campo profis-
sional do direito e no seu campo de saber acadêmico e universitário 
que são análogas àquelas do embate judiciário e ainda subordinadas 
à chamada lógica do contraditório. Trata-se de uma técnica escolás-
tica medieval, cuja característica mais importante, em nosso caso, é 
a criação de uma infinita oposição entre teses, necessariamente con-
traditórias, que só se resolve pela intervenção de uma terceira parte, 
dotada de autoridade externa à disputa e às partes, e que se respon-
sabiliza pela escolha de uma das posições que se opõem, para inter-
romper o processo que, sem essa intervenção, tenderia ao infinito. 
É necessário notar, certamente, que essa técnica não se identifica, 
nem se confunde com o princípio do contraditório,1 o qual se define 
1 O princípio do contraditório é garantido na Constituição da República 
de 1988, em seu art. 5º: \u201cTodos são iguais perante a lei, sem distinção de 
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros 
36 § antropologia e direito antropologia jurídica § 37
pela necessidade de garantir-se às partes litigantes a oportunidade 
de manifestarem-se sobre cada ato do processo, a ser exercitado pela 
argumentação jurídica característica da tradição judiciária em que 
está inserido. 
Ora, a lógica do contraditório, processo de construção da ver-
dade próprio a algumas tradições judiciárias e acadêmicas, como a 
disputatio, se choca com as formas contemporâneas de produção da 
verdade jurídica e da verdade científica, fundamentadas num proces-
so de construção consensual de fatos, sobre os quais se fazem inter-
pretações adversárias, de acordo com certas regras preestabelecidas 
Na tradição judiciária escolástica, isso não ocorre, pois nada pode ser 
consensual. Nessa tradição, até os chamados fatos são objeto de con-
trovérsia, como aponta um antigo dito popular e brocardo jurídico 
português que define a atividade de produção da verdade como uma 
\u201capuração da verdade dos fatos\u201d.
No caso do conhecimento científico, procede-se por uma pro-
gressiva construção de consensos sucessivos que define fatos, até que 
ela, por meio de uma revolução que produza uma nova e distinta 
legitimidade, possa ser contrariada. Entretanto, mesmo assim, esse 
processo de desafio a sua interpretação vem não de uma autorida-
de \u2013 que, no caso do contraditório, é quem decide a extinção da 
oposição de contrários \u2013, mas dos próprios contendores, que têm 
de demonstrar que seus argumentos são mais convincentes: é a auto-
ridade do argumento, e não o argumento de autoridade, que define 
o destino da disputa. Em face dessa precariedade intrínseca à ciên-
cia, os textos científicos evitam a sua \u201cmanualização\u201d, para não afir-
mar como deve ser o conhecimento do campo. No nosso direito, ao 
inverso, proliferam manuais, tratados e dicionários, que são fontes 
perenes de controversas opiniões doutrinárias, a serem instrumen-
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, 
à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: lv \u2013 aos litigantes, em 
processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados 
o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes\u201d.
talizadas de acordo com as necessidades específicas dos atores do 
campo num dado momento. Essa \u201cmanualização\u201d como que congela 
o conhecimento no tempo e no espaço, e impede o raciocínio crítico 
e reflexivo, ocultando, no mais das vezes, a autoria, a história e as 
razões das dissidências e das escolhas efetuadas, todas editadas para 
a comodidade do leitor (Kuhn, 1962).
Em tal contexto, relevante é o papel que a pesquisa empírica as-
sume na produção do conhecimento nas ciências naturais e sociais, 
por oposição àquele que tem na produção do conhecimento jurídi-
co. Na antropologia, em especial, o conhecimento é construído pela 
interlocução com os atores que participam do campo estudado, eles 
mesmos coprodutores desse conhecimento científico. Já no campo 
jurídico, em que as verdades são reveladas e, até mesmo, reificadas, 
como é o caso da \u201cverdade real\u201d, a empiria não tem papel relevante, a 
não ser para confirmar o que já se sabe. Promover a pesquisa empí-
rica no campo das práticas judiciárias, por exemplo, pode explicitar 
paradoxos cuidadosamente ocultos, como aqueles que estão presen-
tes no sistema de Justiça criminal, no qual a prática dos atores do 
sistema está submetida a uma teoria distinta daquela explicitamente 
proposta pelos livros e ensinada nos cursos jurídicos (Lima, 1986, 
1995, 2008).
Essa breve introdução seria desnecessária, se esses não fossem, na 
minha experiência já avançada, os maiores obstáculos epistemológi-
cos que se interpõem entre os acadêmicos de direito e os acadêmicos 
das ciências sociais. Essa distonia cognitiva de ambas as partes, por 
assim dizer, tem impedido, de maneira sistemática, uma interlocu-
ção produtiva entre os dois campos, uma vez que os argumentos das 
ciências sociais, quando apropriados pela lógica do contraditório, 
deixam de ser argumentos de credibilidade científica \u2013 verbetes, por 
exemplo \u2013 e se tornam parte de uma disputatio, a ser resolvida por 
uma autoridade situada externamente, acima dos contendores e su-
postamente dotada de livre convencimento motivado (Mendes, 2010). 
Acrescem-se a essas dificuldades as representações e os preconceitos 
recíprocos entre as duas áreas no Brasil: durante muito tempo, as 
38 § antropologia e direito antropologia jurídica § 39
ciências sociais viram o direito como uma decorrência do aparelho 
de Estado, e não como um aspecto normativo da sociedade. Por ou-
tro lado, o direito enxergou as ciências sociais como um campo de 
crítica ideológica sistemática ao status quo, como se fosse possível à 
sociedade viver sem normas. De qualquer forma, ambas as postu-
ras eram representações do outro como \u201cexterno\u201d às relações sociais 
empíricas, como se o mundo das normas e o da ciência não fossem 
apenas modos de vida possíveis, entre muitos outros, em nossa socie-
dade (Lima & Varella, 2001; Lima, 2008). 
Nota-se então que, no direito brasileiro, a legitimidade da auto-
ridade pela qual se resolve o que é certo e é errado, o que é ou não a 
verdade dos fatos, o que ficou e não ficou provado, reside num mo-
mento anterior, não sujeito à disputa e definido pela posição de po-
der ocupada pela terceira parte na hierarquia do campo jurídico-ins-
titucional, não acadêmico. Alguém poderia encontrar semelhanças 
entre esse sistema judiciário e, por exemplo, o sistema acadêmico da 
cátedra, em que o catedrático, do alto de sua autoridade, dispunha 
o que se podia ou não transmitir por meio de seus professores repe­
tidores. O catedrático, porém, também estava submetido, salvo raras 
exceções, ao sistema hierárquico acadêmico do qual fazia parte e ao 
qual devia prestar contas. Quer dizer, além de ser um emprego vita-
lício, a cátedra era uma posição num campo de disputas, razão pela 
qual havia estratificação dos catedráticos entre os bons e os ruins 
nos seus respectivos campos, e a dinâmica de cada campo ditava as 
classificações dos profissionais, de acordo com a consistência com 
que acompanhavam, ou não, o ritmo de produção e produtividade 
do campo.
Ora, no campo jurídico brasileiro, além dessa prevalência da 
lógica do contraditório medieval, operou-se outra grande transfor-
mação. A tradição