Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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O 
CRISTIANISMO 
ESOTÉRICO
ou
OS MISTÉRIOS MENORES
ANNIE BESANT
The Theosophical Publishing House Adyar, Chennai (Madras), Índia
1902
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 Prefácio
CAPÍTULO I O Lado Oculto das Religiões
CAPÍTULO II O Lado Oculto do Cristianismo
CAPÍTULO III O Lado Oculto do Cristianismo \u2013 Conclusão
CAPÍTULO IV O Cristo Histórico
CAPÍTULO V O Cristo Mítico
CAPÍTULO VI O Cristo Místico
CAPÍTULO 
VII 
A Expiação dos Pecados
CAPÍTULO 
VIII Ressurreição e Ascensão
CAPÍTULO 
IX A Trindade
CAPÍTULO X A Oração
CAPÍTULO XI O Perdão dos Pecados
CAPÍTULO 
XII Os Sacramentos
CAPÍTULO 
XIII Os Sacramentos - Continuação 
CAPÍTULO 
XIV Revelação
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\u201cAo procedermos à contemplação dos mistérios do conhecimento, havemos de 
aderir à celebrada e venerável regra da tradição, começando pela origem do 
universo, apresentando aqueles pontos da contemplação física que é 
necessário termos como base, e removendo quaisquer obstáculos que possam 
haver no caminho; de modo que o ouvido possa ser preparado para a recepção 
da tradição da Gnose, sendo limpo de ervas daninhas o solo e preparado para 
o plantio do vinhedo; pois há um conflito antes do conflito, e mistérios antes dos 
mistérios\u201d. São Clemente de Alexandria
\u201cQue a amostra baste para os que tem ouvidos. Pois não se requer desvelar o 
mistério, mas apenas indicar o que é suficiente\u201d. São Clemente de Alexandria
\u201cQuem tiver ouvidos, que ouça\u201d. São Mateus
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PREFÁCIO
O objetivo deste livro é sugerir certas linhas de pensamento sobre as profundas 
verdades subjacentes ao Cristianismo, verdades geralmente consideradas de 
modo superficial, e mui freqüentemente negadas. O generoso desejo de dividir 
com todos o que é precioso, de disseminar amplamente verdades inestimáveis, 
de não excluir ninguém da iluminação do conhecimento, resultou em um zelo 
indiscriminado que vulgarizou o Cristianismo, e tem apresentado seus 
ensinamentos sob uma forma que freqüentemente repele o coração e aliena o 
intelecto. O mandamento de \u201cpregar o Evangelho a todas as criaturas\u201d (Marcos, 
XVI, 15) \u2013 embora reconhecidamente de autenticidade duvidosa \u2013 tem sido 
interpretado como proibindo o ensino da Gnose só a poucos, e aparentemente 
ignorou o dito menos popular do mesmo Grande Instrutor: \u201cNão deis o que é 
santo aos cães, nem lanceis vossas pérolas aos porcos\u201d (Mateus, VII, 6).
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Este sentimentalismo espúrio \u2013 que se recusa a reconhecer as desigualdades 
óbvias de inteligência e moralidade, e por isso rebaixa o ensino do altamente 
evoluído para o nível alcançável pelo menos evoluído, sacrificando o mais 
elevado ao menos elevado de um modo que prejudica a ambos \u2013 não tinha 
lugar no viril bom senso dos Cristãos primitivos. São Clemente de Alexandria 
diz incisivamente, após aludir aos Mistérios: \u201cMesmo agora eu receio, como é 
dito, \u2018lançar as pérolas aos porcos, para que não as pisoteiem, e se voltem 
contra nós e nos despedacem\u2019. Pois é difícil exibir as palavras realmente puras 
e transparentes a respeito da verdadeira Luz aos ouvintes suínos e 
despreparados\u201d (Clemente de Alexandria, Stromata, livro I, XII \u2013 Clarke\u2019s Ante-
Nicene Christian Library).
Se o verdadeiro conhecimento, a Gnose, há de formar parte novamente dos 
ensinos Cristãos, só poderá sê-lo com as antigas restrições, e a idéia de o 
rebaixarmos às capacidades dos menos evoluídos deve definitivamente ser 
abandonada.. Somente pelo ensino acima do nível de compreensão do pouco 
evoluído pode ser aberto o caminho para uma restauração do conhecimento 
arcano, e o estudo dos Mistérios Menores deve preceder o dos Maiores. Os 
Maiores jamais serão publicados através de livros; eles só podem ser 
transmitidos de Mestre a discípulo, \u201cda boca para o ouvido\u201d. Mas os Mistérios 
Menores, que são o desvelar parcial de verdades profundas, podem ser 
restaurados agora mesmo, e um volume como este tenciona delineá-los, e 
apresentar a natureza dos ensinamentos que devem ser dominados. \u201cOnde só 
são dadas sugestões, a tranqüila meditação sobre as verdades sugeridas com 
discrição faz que seus contornos se tornem visíveis, e a luz mais clara obtida 
com a meditação continuada aos poucos as apresentará mais completamente. 
Pois a meditação aquieta a mente inferior, sempre engajada no pensamento 
sobre objetos externos, e só quando a mente inferior fica tranqüila ela pode 
então ser iluminada pelo Espírito. O conhecimento das verdades espirituais 
deve ser obtido assim, a partir de dentro, e não de fora, do Espírito divino cujo 
templo nós somos\u201d (I Coríntios, III, 16), e não de um Instrutor externo. Estas 
coisas são \u201cdiscernidas espiritualmente\u201d por aquele divino Espírito interior, 
aquela \u201cmente de Cristo\u201d da qual fala o Apóstolo (ibid., II, 14-16), e esta luz 
interna é lançada sobre a mente inferior.
Este é o caminho da Sabedoria Divina, da verdadeira TEOSOFIA. Ela não é, 
como alguns pensam, uma versão diluída do Hinduísmo, ou do Budismo, ou do 
Taoísmo, ou de qualquer religião particular. Ela é tão verdadeiramente 
Cristianismo Esotérico como é Budismo Esotérico, e pertence igualmente a 
todas as religiões, e a nenhuma com exclusividade. Esta é a fonte das 
sugestões feitas neste pequeno volume, para o auxílio daqueles que buscam a 
Luz \u2013 aquela \u201cverdadeira Luz que ilumina todos os homens que vêm ao mundo\u201d 
(João, I, 9), embora a maioria ainda não tenha aberto seus olhos para ela. Ela 
não traz a Luz. Apenas diz: \u201cVêde a Luz!\u201d. Assim ouvimos. Ela apela somente 
aos poucos que anseiam por mais do que os ensinamentos exotéricos lhes 
dão. Pois ela não é dirigida para aqueles que estão satisfeitos com os 
ensinamentos exotéricos, pois por que o pão deveria ser forçado aos que não 
têm fome? Para aqueles que têm fome, possa ela provar-se pão, e não pedra.
CAPÍTULO I
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O Lado Oculto das Religiões
Muitos, talvez a maioria, que virem o título deste livro, de imediato objetarão, e 
negarão que haja qualquer coisa valiosa que possa ser descrita corretamente 
como \u201cCristianismo Esotérico\u201d. Existe uma idéia amplamente disseminada, e 
além disso muito popular, de que não existe essa coisa de um ensino oculto 
em conexão com o Cristianismo, e que \u201cOs Mistérios\u201d, sejam Menores ou 
Maiores, foram uma instituição puramente Pagã. O próprio nome dos \u201cMistérios 
de Jesus\u201d, tão familiar aos ouvidos dos Cristãos dos primeiros séculos, soaria 
com um choque de surpresa nos de seus sucessores modernos, e, se 
mencionado como denotando uma instituição especial e definida na Igreja 
Primitiva, provocaria um sorriso de incredulidade. Na verdade tem se tornado 
um motivo de gracejos que o Cristianismo não possua segredos, que o que 
quer que tenha a dizer o diz para todos, e o que quer que tenha a ensinar, 
ensina para todos. Suas verdades são supostas ser tão simples que \u201cum 
caminhante, embora tolo, não possa enganar-se com elas\u201d, e o \u201cEvangelho 
simples\u201d se tornou uma frase feita.
É necessário, portanto, provar claramente que pelo menos na Igreja Primitiva o 
Cristianismo não ficava nem uma vírgula atrás das outras grandes religiões no 
fato de possuir um lado oculto, e que ele guardava, como tesouro inestimável, 
os segredos revelados em seus Mistérios somente a uns poucos escolhidos. 
Mas antes de fazermos isto será bom considerarmos toda a questão do lado 
oculto das religiões, e averiguarmos por que um tal lado deve existir se uma 
religião há de ser forte e estável; pois assim sua existência no Cristianismo 
parecerá uma conclusão natural, e as referências a ele nos escritos dos Padres 
Cristãos parecerão simples e naturais em vez de surpreendentes e 
ininteligíveis. Como um fato histórico, a existência deste esoterismo é 
demonstrável; mas pode ser demonstrado