Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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recebido da Igreja 
\u201cque as escrituras foram escritas pelo Espírito de Deus, e tendo um significado, 
não apenas aquele aparente á primeira vista, mas também um outro, que 
escapa da percepção da maioria. Pois aquelas (palavras) que são escritas são 
as formas de certos Mistérios, e as imagens das coisas divinas. A este respeito 
existe uma única opinião em toda a Igreja, de que toda a lei é em verdade 
espiritual; mas que o significado espiritual que a lei veicula não é conhecido de 
todos, mas só àqueles em quem a graça do espírito Santo é outorgada na 
palavra da sabedoria e do conhecimento\u201d (De Principiis, prefácio, p. 8 \u2013 A.-
N.C.Libr., vol. X). Aqueles que lembram o que já foi citado verão na \u201cPalavra de 
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sabedoria\u201d e na \u201cpalavra do conhecimento\u201d as duas instruções místicas típicas, 
a espiritual e a intelectual.
NO Livro IV de De Principiis, Orígenes explica longamente suas concepções 
sobre a interpretação da Escritura. Ela tem um \u201ccorpo\u201d, que é \u201co senso histórico 
e comum\u201d; uma \u201calma\u201d, um significado figurado a ser descoberto pelo exercício 
do intelecto; e um \u201cespírito\u201d, um sentido interno e espiritual, a ser conhecido 
somente por aqueles que têm \u201ca mente de Cristo\u201d. Ele considera que coisas 
incongruentes e impossíveis são inseridas na história para estimular um leitor 
inteligente, e compeli-lo a buscar uma explicação mais profunda, enquanto que 
as pessoas simples a lerão sem perceber as dificuldades (Ibid., cap. I).
O Cardeal Newman, em seu Arians of the Fourth Century, faz certas 
declarações interessantes sobre a Disciplina Arcani, mas, com o ceticismo 
profunda e indelevelmente enraizado do século XIX, ele não pode acreditar de 
todo nas \u201criquezas da glória do Mistério\u201d, ou provavelmente nem por um 
momento concebeu a possibilidade da existência de tais esplêndidas 
realidades. Mesmo sendo ele um crente em Jesus, e as palavras da promessa 
de Jesus sendo claras e definidas: \u201cEu não vos deixarei sem conforto; Eu virei 
a vós. Ainda um pouco mais, e o mundo já não Me verá; mas vós me vereis: 
porque Eu vivo, e viverei. Naquele dia devereis saber que Eu estou no meu 
Pai, e vós em Mim, e Eu em vós\u201d (João, XIV, 18-20). A promessa foi 
amplamente cumprida, pois Ele veio a eles e os ensinou em Seus Mistérios; lá 
eles O viram, embora o mundo já não O visse, e reconheceram o Cristo neles, 
e sua vida como a do Cristo.
O cardeal Newman reconhece uma tradição secreta, transmitida desde os 
Apóstolos, mas ele considera que consistia das doutrinas Cristãs, mais tarde 
divulgadas, esquecendo que aqueles que eram informados de que ainda não 
estavam prontos para recebê-la (a doutrina secreta) não eram pagãos, nem 
mesmo catecúmenos, mas membros plenos e comungantes da Igreja Cristã. 
Assim ele diz que esta tradição secreta foi mais tarde (divulgada com 
autoridade e perpetuada sob a forma de símbolos\u201d, e foi corporificada \u201cnos 
credos dos primeiros Concílios\u201d (Loc. cit., cap. I, seç. III, p. 55). Mas como as 
doutrinas nos credos são encontráveis nos Evangelhos e nas Epístolas, esta 
posição é completamente insustentável, tudo isto já tendo sido divulgado ao 
mundo amplamente; e os membros da Igreja certamente estavam instruídos de 
tudo a respeito de todas elas. As repetidas declarações a respeito do sigilo se 
tornam sem sentido se explicadas desta forma. O Cardeal, entretanto, diz que 
o que quer que \u201cnão tenha sido autenticado desta forma, seja informação 
profética ou comentário sobre as antigas dispensações, é, pelas circunstâncias 
do caso, perdido para a Igreja\u201d (Loc. cit., cap. I, seç., III, pp. 55-56). Isto é muito 
provável, de fato é certamente verdadeiro, até onde interessa à Igreja, mas não 
obstante é recuperável.
Comentando sobre Irineu, que em sua obra Contra as Heresias dá muita 
ênfase sobre a existência de uma Tradição Apostólica na Igreja, o Cardeal 
escreve: \u201cEle então passa a falar da clareza e poder de persuasão das 
tradições preservadas na Igreja, como contendo a verdadeira sabedoria dos 
perfeitos, da qual fala São Paulo, e à qual pretendem os Gnósticos. E, na 
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verdade, (mesmo) sem provas formais da existência e da autoridade nos 
primeiros tempos de uma Tradição Apostólica, é claro que deve ter havido uma 
tal tradição, supondo que os Apóstolos conversassem, e seus amigos tivessem 
lembranças, como outros homens. É de todo inconcebível que eles não 
tivessem sido levados a arranjar as séries de doutrinas reveladas mais 
sistematicamente do que as registram nas Escrituras, assim que seus 
seguidores foram expostos aos ataques e más interpretações dos heréticos; a 
menos que tenham sido proibidos disto, uma suposição que não se sustenta. 
Suas declarações surgidas nestas circunstâncias obviamente seriam 
preservadas, juntamente com os outros segredos, mas que eram verdades de 
menor importância, aos quais São Paulo parece aludir, e que os primeiros 
escritores mais ou menos reconhecem, seja a respeito dos modelos da Igreja 
Judaica, ou dos destinos futuros da Cristã. E tais recordações dos 
ensinamentos apostólicos evidentemente seriam imperativas sobre a fé 
daqueles que eram instruídos nelas; a menos que se possa supor que, embora 
provindo de instrutores inspirados, não fossem de origem divina\u201d (Ibid., pp. 
54,55). Em uma parte da seção que trata do método alegórico, ele escreve em 
referência ao sacrifício de Isaac, etc, como sendo \u201ctípico da revelação do Novo 
Testamento\u201d: \u201cEm reforço a esta declaração, seja observado que parece ter 
havido (\u2018parece ter havido\u2019 é uma expressão algo fraca, depois do que é dito 
sobre Clemente e Orígenes, dos quais algumas citações são dadas no texto) 
na Igreja uma explicação tradicional destes modelos históricos, derivada dos 
Apóstolos, mas mantidas entre as doutrinas secretas, por serem perigosas à 
maioria dos ouvintes; e certamente São Paulo, na Epístola aos Hebreus, nos 
dá um exemplo desta tradição, tanto como existente quanto como secreta 
(mesmo sendo mostrado ser de origem Judaica), quando, primeiro provando-se 
e questionando a fé de seus irmãos, comunica, não sem hesitação, a visão 
evangélica da passagem sobre Melquisedec, do modo como foi introduzida no 
livro do Gênesis\u201d (Ibid., p. 62).
As convulsões sociais e políticas que acompanharam a morte do Império 
Romano agora começavam a torturar sua vasta moldura, e mesmo os Cristãos 
foram colhidos no torvelinho dos interesses egoístas em combate. Ainda 
encontraremos referências esparsas ao conhecimento especial concedido aos 
líderes e instrutores da Igreja, conhecimento das hierarquias celeste, instruções 
dadas por anjos, e assim por diante. Mas a ausência de discípulos aceitáveis 
fez com que os Mistérios se extinguissem como uma instituição cuja existência 
era reconhecida publicamente, e o ensinamento passou a ser dado mais e 
mais secretamente àquelas almas mais e mais raras, que pela cultura, pureza 
e devoção se mostravam capazes de recebê-lo. Já não havia escolas onde os 
ensinamentos preliminares fossem dados, e com seu desaparecimento \u201ca porta 
foi fechada\u201d.
Não obstante pode-se detectar duas correntes na Cristandade, as quais 
tiveram suas fontes nos Mistérios desaparecidos. Uma era a corrente do 
aprendizado místico, fluindo da Sabedoria, da Gnose transmitida nos Mistérios; 
outra era a corrente da contemplação mística, igualmente parte da Gnose, 
conduzindo ao êxtase, à visão espiritual. Esta última, contudo, divorciada do 
conhecimento, raramente atingiu o verdadeiro êxtase, e tendeu ou a correr 
desenfreada para as regiões mais baixas dos mundos invisíveis, ou perder-se 
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entre uma variegada multidão de formas sutis superfísicas, visíveis