Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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formaram a base dos \u201cMistérios de 
Jesus\u201d, que vimos na primitiva História da Igreja, e deram a vida interna que foi 
o núcleo em torno do qual se juntaram os materiais heterogêneos que 
formaram o Cristianismo eclesiástico.
No admirável fragmento chamado Pistis Sophia, temos um documento do 
maior interesse a respeito dos ensinamentos ocultos, escrito pelo famoso 
Valentino. Nele é dito que durante os onze anos imediatamente depois de Sua 
morte Jesus instruiu Seus discípulos até \u201ca região dos primeiros estatutos 
somente, e até as regiões do primeiro mistério, o mistério dentro do véu\u201d 
(Valentinus, Pistis Sophia, livro I, 1; trad., de G.R.S.Mead,). Eles não haviam 
aprendido até a distribuição das ordens angélicas, das quais fala Inácio. Então 
Jesus, estando \u201cno Monte\u201d com Seus discípulos, e tendo recebido Sua 
Vestimenta mística, o conhecimento de todas as regiões e das Palavras de 
Poder que as franqueiam, ensinou mais Seus discípulos, prometendo: \u201cEu vos 
aperfeiçoarei em toda perfeição, dos mistérios do interior até os mistérios do 
exterior: Eu vos encherei do Espírito, para que sejais chamados de espirituais, 
perfeitos em todas as perfeições\u201d (Ibid., 60). E Ele os ensinou sobre Sophia, a 
Sabedoria, e sua queda na matéria em sua tentativa de se elevar até o 
Altíssimo, e de seus gritos para a Luz na qual ela havia confiado, e sobre o 
envio de Jesus para redimi-la do caos, e sobre sua coroação com Sua luz, e 
sua libertação da escravidão. E Ele lhes falou mais sobre o Mistério mais 
excelso, o inefável, o mais simples e claro de todos, a ser conhecido somente 
pelos que renunciaram completamente ao mundo (Ibid., livro II, 218), através 
de cujo conhecimento os homens se tornam Cristos, pois \u201ctais homens são eu 
mesmo, e eu sou estes homens\u201d, pois Cristo é aquele Mistério mais excelso 
(Ibid., 230). Sabendo isto, os homens são \u201ctransformados em pura luz e são 
trazidos para dentro da luz\u201d (Ibid., 357). E ele executou para eles a grande 
cerimônia da Iniciação, o batismo \u201cque conduz à região da verdade e à região 
da luz\u201d, e ordenou-lhes celebrá-la para outros que fossem dignos: \u201cMas ocultai 
este mistério, não o deis a todos os homens, mas só àqueles que farão todas 
as coisas que vos disse em meus mandamentos\u201d (Ibid., 377).
Desde então, estando plenamente instruídos, os apóstolos saíram a pregar, 
sempre auxiliados por seu Mestre.
Além disso, estes mesmos discípulos e seus primeiros colegas escreveram de 
memória todos os ditos públicos e parábolas do Mestre que haviam ouvido, e 
reuniram com grande zelo quaisquer relatos que puderam encontrar, 
registrando também estes, e divulgando-os todos entre aqueles que 
gradualmente se associavam á sua pequena comunidade. Foram feitas várias 
coleções, qualquer membro escrevendo o que ele mesmo lembrava, e 
adicionando seleções de relatos alheios. Os ensinamentos internos, dados por 
Cristo aos Seus eleitos, não forma registrados, mas eram ensinados oralmente 
àqueles julgados dignos de os receber, para estudantes que formavam 
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pequenas comunidades para levar uma vida retirada, e que ficavam em contato 
com o corpo central.
O Cristo histórico é, pois, um Ser glorioso pertencente à grande hierarquia 
espiritual que guia a evolução espiritual da humanidade, e que usou por cerca 
de três anos o corpo humano do discípulo Jesus; que passou o último destes 
três anos ensinando publicamente através da Judéia e da Samaria; que foi um 
curador de doenças e operou outras obras ocultas admiráveis; que reuniu em 
torno de Si um pequeno grupo de discípulos a quem instruiu nas verdades mais 
profundas da vida espiritual; que atraiu homens para Si pelo amor singular, 
pela ternura e pela rica sabedoria que transpiravam de Sua Pessoa; e que 
finalmente foi votado à morte por blasfêmia, por ensinar a Divindade inerente 
de Si mesmo e de todos os homens Ele veio para dar um novo impulso à vida 
espiritual do mundo; para restabelecer os ensinamentos internos referentes á 
vida espiritual; para indicar novamente a antiga senda estreita; para proclamar 
a existência do \u201cReino dos Céus\u201d, da Iniciação que admite àquele 
conhecimento de Deus que é a vida eterna; e para admitir uns poucos a este 
Reino que seriam capazes de ensiná-lo a outros. Em torno desta Figura 
gloriosa se reuniram os mitos que O ligaram à longa linhagem de Seus 
predecessores, os mitos que em alegorias contam a história de todas as vidas 
que à d\u2019Ele se assemelham, pois elas simbolizam a obra do Logos no Cosmos 
e a mais elevada evolução da alma humana individual.
Mas não devemos supor que a obra do Cristo em prol de Seus seguidores 
encerrou depois que Ele estabeleceu os Mistérios, ou ficou confinada a raras 
aparições ali. Aquele poderoso Ser que utilizou o corpo de Jesus como veículo, 
e cujo cuidado vigilante se estende sobre toda a evolução espiritual da quinta 
raça da humanidade, depositou nas fortes mãos do santo discípulo que lhe 
rendera o corpo o cuidado pela Igreja nascente. Aperfeiçoando sua evolução 
humana, Jesus se tornou um dos Mestres de Sabedoria, e tomou a 
Cristandade sob Sua especial responsabilidade, sempre procurando guiá-la 
nas linhas certas, protegê-la, guardá-la e nutri-la. Ele era o Hierofante nos 
Mistérios Cristãos, o Instrutor direto dos Iniciados. Sua foi a inspiração que 
manteve acesa a Gnose na Igreja, até que a crescente massa de ignorância se 
tornou tão grande que mesmo Seu alento não poderia alimentar a chama 
suficientemente para que evitar sua extinção. Seu é o paciente labor com que 
alma após alma fortalecida persevera através das trevas, e acalenta dentro de 
si mesma a centelha do anelo místico, a sede de encontra o deus Oculto. Seu 
é o constante derramar de verdade em cada cérebro pronto a recebê-la, para 
que mão após mão estendida através dos séculos passe a tocha do 
conhecimento, que assim jamais se extinguiu. Sua era a Forma que ficava ao 
lado de cada patíbulo e em meio às chamas da fogueira, consolando Seus 
confessores e Seus mártires, amenizando as dores de suas penas, e enchendo 
seus corações com Sua paz. Seu foi o impulso que falou através do trovão de 
Savonarola, que guiou a calma sabedoria de Erasmo, que inspirou a profunda 
ética de intoxicado por deus Spinoza. Sua foi a energia que impeliu Roger 
Bacon, Galileu e Paracelso em suas pesquisas da natureza. Sua foi a beleza 
que deslumbrou Fra Angelico e Raphael e Leonardo da Vinci, que inspirou o 
gênio de Michelangelo, que brilhou diante dos olhos de Murillo, e que deu o 
poder que erigiu as maravilhas do mundo, o Duomo de Milão, San Marco em 
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Veneza, a Catedral de Florença. Sua foi a melodia que se ouve nas missas de 
Mozart, nas sonatas de Beethoven, nos oratórios de Haendel, nas fugas de 
Bach, no austero esplendor de Brahms. Sua é a presença que confortou os 
místicos solitários, os ocultistas perseguidos, os pacientes buscadores da 
verdade. Pela persuasão e pela ameaça, pela eloqüência de um São Francisco 
e nos chistes de um Voltaire, pela doce submissão de um Thomas a Kempis, e 
na robusta virilidade de um Lutero, Ele procurou instruir e despertar, ganhar 
para a santidade ou atiçar para longe do mal. Através dos longos séculos Ele 
tem se esforçado e trabalhado, e, mesmo com todo o enorme peso do 
Cristianismo para levar, jamais deixou descuidado ou desconsolado um só 
coração humano que tenha lhe clamado por ajuda. E agora Ele está tentando 
devolver em benefício da Cristandade uma parte da copiosa torrente de 
Sabedoria derramada para a renovação do mundo, e está buscando pelas 
Igrejas alguns que tenham ouvidos para ouvir a Sabedoria, e os que 
respondam ao Seu apelo por mensageiros