Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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que a levem ao seu rebanho; \u201cEis-
me aqui; envia-me\u201d.
CAPITULO V
O Cristo Mítico
Já vimos que o uso que se faz da Religião Comparada contra a Religião, e 
alguns de seus ataques mais destrutivos têm sido levantados contra o Cristo. 
Seu nascimento de uma Virgem no \u201cNatal\u201d, a matança dos Inocentes, Seus 
milagres e Seus ensinamentos, Sua crucificação, ressurreição e ascensão \u2013 
todos estes eventos na história de Sua vida são assinalados na história de 
outras vidas, e Sua existência histórica é questionada com base nestas 
identidades. Até onde se relaciona aos milagres e ensinamentos, podemos 
brevemente descartar os primeiros reconhecendo que os maiores Instrutores 
operaram obras que, no plano físico, aparecem como milagres à visão de seus 
contemporâneos, mas são sabidos pelos ocultistas serem realizados pelo 
exercício de poderes possuídos por todos os Iniciados acima de certo nível. Os 
ensinamentos que Ele deu também podem ser considerados não-originais; mas 
onde o estudante de Mitologia Comparada imagina ter provado que ninguém é 
inspirado divinamente ao demonstrar que saíram dos lábios de Manu, dos 
lábios de Buda, dos lábios de Jesus, ensinamentos morais similares, o ocultista 
diz que certamente Jesus deve ter repetido os ensinamentos de Seus 
predecessores, uma vez que foi um mensageiro da mesma Loja. As verdades 
profundas a respeito do Espírito divino e humano eram tão verdadeiras 
milhares de anos antes que Jesus tivesse nascido na Palestina quanto depois 
de Ele ter nascido, e dizer que o mundo foi deixado sem este ensinamento, e 
que o homem foi deixado na escuridão moral desde sua origem até vinte 
séculos atrás é dizer que houve uma humanidade sem um Instrutor, filhos sem 
um Pai, almas humanas gritando por luz no meio da treva que não lhes dá 
resposta alguma \u2013 uma concepção tão blasfema sobre Deus quanto é 
desesperante para o homem, uma concepção contradita pela aparição de cada 
Sábio, pela grandiosa literatura, pelas nobres vidas nas milhares de eras antes 
que Cristo aparecesse.
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Reconhecendo então em Jesus o grande mestre do Ocidente, o principal 
Mensageiro da Loja para o mundo ocidental, devemos enfrentar a dificuldade 
que arruinou a crença n\u2019Ele nas mentes de tantos: Por que os festivais que 
comemoram os eventos na vida de Jesus são encontrados nas religiões pré-
Cristãs, e nelas comemoram eventos idênticos das vidas de outros Instrutores?
A Mitologia Comparada, que atraiu a atenção pública para esta questão nos 
tempos modernos, pode ser dita ter um século de idade, datando do 
aparecimento da Histoire Abrégée de différents Cults, de Dulaure, da Origens 
de touts les Cultes, de Dupuis, do Hindu Pantheon, de Moor, e do Anacalypsis, 
de Godfrey Higgins. Estas obras foram seguidas por uma enxurrada de outras, 
ficando mais científicas e rigorosas em suas compilações e comparações dos 
fatos, até que se tornou impossível para qualquer pessoa educada sequer 
duvidar das identidades e similaridades que existem em todas as direções. Não 
se encontrará nestes dias qualquer Cristão que esteja preparado para 
argumentar que os símbolos, ritos e cerimônias Cristãos são únicos \u2013 exceto, 
talvez, entre os ignorantes. 
Aqui ainda temos simplicidade de crença aliada à ignorância dos fatos; mas 
fora desta última classe não encontramos nem mesmo o mais devoto Cristão 
alegando que o Cristianismo não tem muito em comum com credos mais 
antigos que ele mesmo. Mas é bem sabido que nos primeiros séculos \u201cdepois 
de Cristo\u201d estas semelhanças eram admitidas por todos, e que a Mitologia 
Comparada moderna só está repetindo com grande precisão o que era 
reconhecido universalmente na Igreja Primitiva. Justino Mártir, por exemplo, 
povoa suas páginas com referências às religiões de seu tempo, e se um 
atacante moderno do Cristianismo citasse alguns casos onde os ensinamentos 
Cristãos são idênticos aos de religiões mais antigas, ele não poderia encontrar 
guias melhores do que os apologistas do segundo século. Eles citam 
ensinamentos, histórias e símbolos Pagãos, advogando que a própria 
identidade dos ensinamentos, histórias e símbolos Cristãos com aqueles 
deveria prevenir a rejeição apriorística destes por serem considerados em si 
incríveis. É dada na verdade uma razão curiosa para esta identidade, que 
dificilmente encontrará seguidores nos dias de hoje. Diz Justino Mártir: \u201cOs que 
transmitem os mitos que os poetas criaram não aduzem nenhumas provas para 
os jovens que os aprendem; e passamos a demonstrar que eles foram 
elaborados sob a influência de demônios maus, para enganar e perder a raça 
humana. Pois tendo ouvido ser proclamado pelos profetas que Cristo havia de 
vir, e que os homens maus haviam de ser punidos pelo fogo, enviaram muitos 
que seriam chamados filhos de Júpiter, com a impressão de que eles seriam 
capazes de produzir nos homens a idéia de que as coisas ditas a respeito de 
Cristo eram meras fábulas maravilhosas, como as coisas que foram ditas pelos 
poetas\u201d. \u201cE os demônios, em verdade, tendo ouvido sobre esta purificação 
publicada pelo profeta, instigaram aqueles que entram em seus templos, e 
estão prestes a se aproximarem dali com libações e holocaustos, a espargirem 
a si mesmos [com água, referência à prática dos Cristãos de usar a água benta 
para a purificação prévia quando da entrada na igreja, prática empregada 
também por religiões Pagãs em seus templos \u2013 NT]; e eles os fazem ainda se 
lavarem inteiramente quando partem\u201d (Justin Martyr, First Apology, §§ LIV, LXII 
e LXVI; A.-N.C.Libr., vol. II). \u201cPois eu mesmo, quando descobri os malignos 
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artifícios que os maus espíritos lançaram em volta das doutrinas divinas dos 
Cristãos, para impedir que outros se lhe juntassem, ri\u201d (Justin Martyr, Second 
Apology, § XIII; A.-N.C.Libr., vol. II).
Estas identidades foram consideradas então como a obra de demônios, cópias 
dos originais Cristãos, e circularam largamente no mundo pré-Cristão com o 
intuito de prejudicar a recepção da verdade quando ela viesse. Há uma certa 
dificuldade em aceitarmos as declarações mais antigas como cópias e as mais 
tardias como originais, mas sem disputar com Justino Mártir se as cópias 
precederam os originais ou os originais às cópias, podemos nos contentar em 
aceitar seu testemunho sobre a existência destas identidades entre a fé que 
florescia no império Romano de seu tempo e a nova religião a qual ele estava 
engajado em defender.
Tertuliano fala de modo igualmente explícito, levantando a objeção feita em 
seus dias também ao Cristianismo, de que \u201cas nações que são alheias ao 
entendimento dos poderes espirituais, atribuem aos seus ídolos a dotação da 
mesma eficácia às águas\u201d. \u201cE de fato eles o fazem\u201d, ele responde muito 
francamente, \u201cmas estes se iludem com águas inócuas. Pois a ablução é o 
canal através do qual eles são iniciados em certos ritos sacros de alguns Ísis 
ou Mitras notórios; e eles honram os próprios Deuses com abluções... Eles são 
batizados nos jogos Apolíneos ou Eleusinos, e presumem que o efeito de seus 
atos é a regeneração e remissão de seus pecados devidos aos seus perjúrios. 
De fato, reconhecemos aqui também o zelo dos diabos ao rivalizarem com as 
coisas de Deus, quando os encontramos praticando também o batismo em 
seus súditos\u201d (Tertulian, On Baptism, cap. V; A.-N.C.Libr., vol VII). Pare 
resolvermos estas dificuldades devemos estudar o Cristo Mítico, o Cristo dos 
mitos ou lendas solares, sendo estes mitos as formas figuradas nas quais 
certas verdades profundas foram dadas ao mundo.
Mas um \u201cmito\u201d de modo algum é o que a maioria das pessoas imagina que seja 
\u2013 uma mera história fantástica