Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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erguida sobre uma base factual, ou mesmo 
inteiramente à parte dos fatos. Um mito é muito mais verdadeiro do que uma 
história, pois uma história só conta um relato das sombras, enquanto que um 
mito conta um relato das substâncias que produzem as sombras. Assim no alto 
como embaixo; e primeiro no alto, e depois embaixo. Existem certos grandes 
princípios de acordo com os quais nosso grande sistema é construído; há 
certas leis através das quais estes princípios são desenvolvidos em detalhe; há 
certos seres que encarnam os princípios e cujas atividades são as leis; existem 
hostes de seres inferiores que atuam como veículos para estas atividades, 
como agentes, como instrumentos; existem os Egos dos homens misturados a 
tudo isto, cumprindo sua parte no grande drama cósmico. Estes trabalhadores 
multivariados nos mundos invisíveis lançam suas sombras na matéria física, e 
estas sombras são as \u201ccoisas\u201d \u2013 os corpos, os objetos, que constituem o 
universo físico. Estas sombras só dão uma idéia pobre dos objetos que as 
originam, assim como o que chamamos de sombras aqui embaixo só dão uma 
idéia pobre dos objetos que as lançam; elas são meros contornos, com uma 
negrura uniforme em vez de detalhes, e só possuem largura e altura, mas não 
profundidade.
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A história é um relato, muito imperfeito e freqüentemente distorcido, da dança 
da sombras no mundo-sombra da matéria física. Qualquer um que tenha 
assistido a um teatro de sombras chinesas, e comparou o que acontece detrás 
da tela de projeção com os movimentos das sombras na tela, pode ter uma 
vívida idéia da natureza ilusória das ações-sombras, e pode elaborar daí 
diversas analogias de modo nenhum enganosas (O estudante poderia ler o 
relato de Platão sobre a \u201cCaverna\u201d e seus habitantes, lembrando que Platão foi 
um Iniciado: Platão, República, livro VII).
O mito é um relato dos movimentos daqueles que lançam as sombras, e a 
linguagem na qual o relato é dado é o que se chama linguagem de símbolos. 
Assim como temos palavras para designar as coisas \u2013 assim como a palavra 
\u201cmesa\u201d é um símbolo para um artigo reconhecido de certo tipo \u2013 igualmente o 
símbolo designa objetos nos planos superiores. São um alfabeto pictórico, 
usado por todos os elaboradores de mitos, e cada símbolo tem seu significado 
determinado. Um símbolo é usado para significar um certo objeto assim como 
as palavras são usadas aqui embaixo para distinguir uma coisa da outra, de 
modo que é necessário um conhecimento dos símbolos para a leitura de um 
mito. Pois os contadores originais de todos os mitos são sempre Iniciados, que 
estão acostumados a usar a linguagem simbólica, e que, é claro, usam os 
símbolos em seus significados convencionados.
Um símbolo tem um significado principal, e depois vários outros significados 
subsidiários relacionados àquele significado principal. Por exemplo, o Sol é o 
símbolo do Logos; este é o significado principal ou primário. Mas também 
funciona aplicado para uma encarnação do Logos, ou para qualquer um dos 
grandes Mensageiros que O representam na época, como os embaixadores 
representam seu Rei. Grandes Iniciados que são enviados em missões 
especiais para encarnar entre os homens e viver com eles durante algum 
tempo como regentes ou Instrutores seriam designados pelo símbolo do Sol; 
pois embora este não seja seu símbolo em um sentido individual, é seu em 
virtude de seu ofício.
Todos aqueles que são designados por este símbolo têm certas características, 
passam por certas situações e desempenham certas atividades durante suas 
vidas na Terra. O Sol é a sombra física, ou corpo, como é chamado, do Logos, 
daí que seu curso anual na natureza reflete Sua atividade, no modo parcial 
através do qual uma sombra representa a atividade do objeto que a lança. O 
Logos, \u201co Filho de Deus\u201d, descendo à matéria, tem como sombra o curso anual 
do Sol, e o Mito Solar o relata. Daí, mais uma vez, uma encarnação do Logos, 
ou um de Seus altos embaixadores, também apresentará esta atividade, como 
sombra, em Seu corpo de homem. Assim é necessário que surjam identidades 
nas histórias de vida destes embaixadores. De fato, a ausência destas 
identidades de imediato indicaria que esta pessoa em questão não era um 
embaixador pleno, e que sua missão era de um caráter inferior.
O Mito Solar, então, é uma história que primariamente representa a atividade 
do Logos, ou Verbo, no cosmo; secundariamente, representa a vida de alguém 
que seja uma encarnação do Logos, ou seja um de Seus embaixadores. O 
Herói do mito é usualmente representado como um Deus, ou Semideus, e sua 
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vida, como será compreendido pelo que já se disse, deve ser ordenada de 
acordo com o curso do Sol, como sombra do Logos. A parte do curso vivida 
durante a vida humana é a que recai entre o solstício de inverno e o zênite do 
verão. O Herói nasce no solstício de inverno, morre no equinócio de primavera, 
e, vencendo a morte, ascendo aos céus.
As seguintes notas são interessantes neste sentido, por olharem o mito de um 
modo mais genérico, como uma alegoria, figurando verdades internas: \u201cAlfred 
de Vigny disse que a lenda é mais freqüentemente verdadeira do que a 
história, porque a lenda reconta não atos que são amiúde incompletos e 
abortivos, mas o gênio em si do grande homem e das grandes nações. É 
principalmente em relação ao Evangelho que este belo pensamento é 
aplicável, pois o Evangelho não é meramente a narração do que sucedeu; é a 
narração sublime do que é e sempre será. O Salvador do mundo será sempre 
adorado pelos reis da inteligência, representados pelos Magos; multiplicará 
sempre o pão eucarístico, para alimentar e confortar nossas almas; virá a nós 
caminhando sobre as águas, sempre estenderá Suas mãos e nos fará 
atravessar as cristas das ondas; sempre curará nossas intemperanças e dará 
luz para nossos olhos; sempre aparecerá aos Seus fiéis, luminoso e 
transfigurado sobre o Tabor, interpretando a lei de Moisés e moderando o zelo 
de Elias" (Eliphas Levi, The Mysteries of Magic, p. 48).
Veremos que os mitos são muito estreitamente associados aos Mistérios, pois 
parte dos Mistérios consistia em apresentar imagens vivas das ocorrências nos 
mundos superiores que se tornaram corporificadas nos mitos. De fato nos 
Pseudomistérios, fragmentos mutilados das imagens vivas dos Mistérios 
verdadeiros eram representados por atores que apresentavam um drama, e 
muitos mitos secundários são estes dramas colocados em palavras.
As linhas gerais da história do Deus Sol são muito nítidas, sendo a 
movimentada vida do Deus Sol estendida pelos seis primeiros meses do ano 
solar, sendo os outros seis empregados na proteção e preservação gerais. Ele 
sempre nasce no solstício de inverno, depois do dia mais curto do ano, na 
meia-noite do dia 24 de dezembro [isto no hemisfério norte \u2013 NT], quando o 
signo da Virgem está se elevando no horizonte; nascendo na elevação deste 
signo, nasce sempre de uma virgem, e ela permanece sempre virgem depois 
de ter dado à luz a seu Filho Solar, assim como a Virgem Celeste permanece 
intacta e imaculada quando o Sol emerge dela nos céus. Ele é fraco e frágil 
como uma criança, nascido quando os dias são mais curtos e as noites mais 
longas \u2013 estamos ao norte da linha equatorial \u2013 rodeado de perigos em sua 
infância, e o reino das trevas muito maior que o seu em seus primeiros dias. 
Mas ele sobrevive a todos os perigos que o ameaçam, e o dia aumenta sua 
duração à medida que se aproxima o equinócio da primavera, até que chega o 
tempo do traspasse, a crucificação, cuja data varia a cada ano. O Deus Sol 
algumas vezes é figurado dentro do círculo do horizonte, com a cabeça e pés 
tocando o círculo ao norte e ao sul, e as mãos