Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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do Espírito Santo e do Fogo. Após o Nascimento, o ataque de 
Herodes; depois do Batismo, a tentação no deserto; depois da Transfiguração, 
a preparação da última etapa do Caminho da Cruz. Assim, o triunfo é sempre 
seguido pelo ordálio, até que a meta seja atingida.
A vida do amor ainda cresce, sempre mais plena e mais perfeita, 
resplandecendo o Filho do Homem cada vez mais claramente como Filho de 
Deus, até que se aproxima o tempo da batalha final, e a quarta grande 
Iniciação o conduz em triunfo para dentro de Jerusalém, à vista do Getsêmani 
e do Calvário. Agora ele é o Cristo pronto para ser imolado, pronto para o 
sacrifício na cruz. Agora ele deve enfrentar a mais dura agonia no Jardim, onde 
até mesmo os seus escolhidos dormem enquanto ele se debate em sua 
angústia mortal, e por um momento ele ora para que a taça possa se afastar de 
seus lábios; mas a vontade poderosa triunfa e ele estende sua mão para tomar 
e beber, e em sua solidão chega-lhe um anjo e o conforta, como costumam 
fazer os anjos quando vêem um Filho do Homem curvando debaixo do peso da 
agonia. A bebida da amarga taça da traição, da deserção, da negação, o 
encontra à medida que ele avança, e sozinho entre seus inimigos 
escarnecendo ele se adianta para sua última e terrível provação. Abatido pela 
dor física, perfurado pelos cruéis espinhos da suspeita, despojado de seus 
belos trajes de pureza diante dos olhos do mundo, entregue nas mãos dos 
inimigos, aparentemente abandonado por deus e pelos homens, ele suporta 
pacientemente tudo o que lhe sucede, ansiando por ajuda em seu último 
transe. Deixado sozinho para sofrer, crucificado, para morrer para a vida da 
forma, para desistir de toda a vida que pertence ao mundo inferior, rodeado de 
inimigos triunfantes que lhe zombam, o derradeiro horror da grande escuridão o 
envolve, e na escuridão ele enfrenta todas as forças do mal; sua visão interna é 
fechada, ele sente-se sozinho, completamente sozinho, até que o grande 
coração, mergulhando no desespero, grita para o Pai que parece tê-lo 
abandonado, e a alma humana enfrenta, na mais absoluta solidão, a 
arrasadora agonia da derrota aparente. Porém, reunindo toda a força do 
\u201cespírito invencível\u201d, a vida inferior é entregue, sua morte é abraçada 
voluntariamente, o corpo de desejos é abandonado, e o Iniciado \u201cdesce ao 
Inferno\u201d, para que nenhuma região do universo que ele deve ajudar permaneça 
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desconhecida por ele, para que ninguém seja considerado abjeto demais para 
receber seu amor todo-abrangente. E então, emergindo das trevas, ele vê a luz 
mais uma vez, sente-se de novo o Filho, inseparável do Pai que é ele próprio, e 
passa para a vida que não conhece término, radiante na consciência da morte 
enfrentada e vencida, forte para ajudar ao máximo cada filho do homem, capaz 
de derramar sua vida em cada alma em luta. Entre seus discípulos ele 
permanece por perto para ensinar, desvelando-lhes os Mistérios dos mundos 
espirituais, preparando-os para trilhar a vereda que ele trilhou, até que, 
terminada a vida terrena, ele ascenda ao Pai, e, na quinta grande Iniciação, se 
torne Mestre triunfante, um elo entre Deus e o homem.
Esta era a história vivida nos verdadeiros Mistérios de antigamente e de agora, 
e dramaticamente retratada em símbolos nos Mistérios do plano físico, metade 
velados, metade descobertos. Este é o Cristo dos Mistérios em Seu aspecto 
dual, Logos e homem, cósmico e individual. Haverá qualquer surpresa que esta 
história, vagamente pressentida mesmo quando desconhecida pelo místico, 
aninhe-se no coração e sirva como inspiração para todo nobre viver? O Cristo 
do coração humano, em sua maior parte, é Jesus, visto como o místico Cristo 
humano, lutando, sofrendo, morrendo, finalmente triunfando, o Homem em 
quem a humanidade é vista crucificada e ressurrecta, cuja vitória é a vitória 
prometida a cada um que, como Ele, é fiel através da morte e além dela \u2013 o 
Cristo que jamais pode ser esquecido enquanto nascer de novo e de novo na 
humanidade, enquanto o mundo precisar de Salvadores, e os Salvadores 
derem a Si mesmos pelos homens.
CAPÍTULO VII
A Expiação dos Pecados
Agora passaremos a estudar certos aspectos da Vida Crística que aparecem 
entre as doutrinas do Cristianismo. Nos ensinamentos exotéricos eles 
aparecem associados apenas à Pessoa do Cristo; nos esotéricos eles são 
vistos como de fato pertencendo a Ele, uma vez que em sua forma primária e 
em seu significado mais pleno e mais profundo, formam parte das atividades do 
Logos, mas apenas secundariamente refletidos no Cristo, e portanto em cada 
Alma-Cristo que trilha o caminho da Cruz. Estudados desta forma serão vistos 
sendo profundamente verdadeiros, enquanto que em sua forma exotérica eles 
muitas vezes confundem a inteligência e tumultuam as emoções.
Entre eles salienta-se a doutrina da Expiação dos Pecados; não apenas ela 
tem sido um ponto de intenso ataque daqueles de fora do círculo do 
Cristianismo, mas tem atormentado muitas consciências sensíveis dentro 
daquele círculo. Alguns dos pensadores mais profundamente Cristãos da 
última metade do século XIX foram torturados com dúvidas a respeito dos 
ensinamentos das igrejas sobre este assunto, e tentaram vê-lo e apresentá-lo 
de um modo que o suavizasse ou o explicasse diferentemente das noções 
mais cruas baseadas numa leitura não inteligente de alguns poucos textos 
profundamente místicos. Em parte alguma, talvez, mais do que em conexão 
com estes deveria ser mantida em mente a advertência de São Pedro: \u201cNosso 
amado irmão Paulo também, de acordo com a sabedoria que lhe foi dada, vos 
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escreveu \u2013 bem como em todas as suas epístolas \u2013 falando nelas sobre estas 
coisas, nas quais existem algumas coisas difíceis de entender, e que são 
desvirtuadas por aqueles que não têm cultura ou equilíbrio, assim como o 
fazem às outras escrituras, para sua própria perdição\u201d (II Pedro, III, 15-16). 
Pois os textos que falam da identidade do Cristo com Seus irmãos homens têm 
sido desvirtuados numa substituição legalizada d\u2019Ele mesmo no lugar dos 
outros, e assim têm sido usados como uma saída para se escapar dos 
resultados do pecado, em vez de como uma inspiração à justiça.
O ensinamento geral na Igreja Primitiva sobre a doutrina da Expiação foi que 
Cristo, como Representante da Humanidade, enfrentou e venceu Satanás, o 
representante dos Poderes Tenebrosos que têm a humanidade sob seu jugo, 
resgatou deles o escravo, e o libertou. Lentamente, á medida em que os 
escritores Cristãos perderam contato com as verdades espirituais, e projetaram 
sua própria intolerância e acrimônia no Pai puro e amante dos ensinamentos 
de Cristo, eles O representaram como estando encolerizado contra o homem, e 
Cristo foi feito para salvar o homem da ira de Deus, em vez de salvá-lo da 
escravidão ao mal. Então se imiscuíram expressões legalizadas, 
materializando ainda mais a idéia espiritual, e o \u201cesquema da redenção\u201d foi 
delineado de modo forense. O selo foi aposto sobre o \u201cesquema da redenção\u201d 
por Anselmo, em seu grande livro Cur Deus Homo, e a doutrina que havia 
crescido lentamente na teologia da Cristandade daí por diante passou a levar o 
sinete da Igreja. Tanto Católicos Romanos como Protestantes, na época da 
Reforma, acreditaram no caráter vicarial e substitutivo da expiação 
empreendida por Cristo. Entre eles não há querela sobre este ponto. Prefiro 
deixar os vates Cristãos falar por si mesmos sobre o caráter da expiação. 
\u201cLutero ensina que \u2018Cristo, real e efetivamente, sofre por toda a humanidade a 
ira de Deus, a maldição e a morte\u2019. Flavel diz que \u2018para