Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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a ira, para a ira de um 
Deus infinito sem mescla, para os próprios tormentos do inferno, Cristo foi 
enviado, e pela mão de seu próprio Pai\u2019. A homilia Anglicana prega que \u2018o 
pecado fez Deus sair dos céus para fazer a Si mesmo sentir os horrores e 
dores da morte\u2019, e que o homem, sendo um agitador do inferno e um sócio do 
demônio, \u2018foi salvo pela morte de seu filho bem-amado\u2019; a \u2018fúria de sua ira\u2019, \u2018sua 
ira furiosa\u2019, somente poderia ser \u2018pacificada\u2019 por Jesus, \u2018tão agradável que lhe 
foi o sacrifício e a oblação da morte de seu filho\u2019. Edwards, sendo lógico, viu 
que havia uma grosseira injustiça no pecado ser punido duas vezes, e as 
penas do inferno, o preço do pecado, sendo infligido duas vezes, primeiro em 
Jesus, o substituto da humanidade, e depois nos perdidos, uma porção da 
humanidade; assim ele, em comum com a maioria dos Calvinistas, sente-se 
compelido a restringir a expiação aos eleitos, e declarou que Cristo levou os 
pecados, não do mundo, mas dos eleitos; ele \u2018sofre não pelo mundo, mas por 
aqueles que tu me deste\u2019. Mas Edwards adere firmemente à crença na 
substituição, e rejeita a expiação universal pelas mesmas razões pelas quais 
\u2018acreditar que Cristo morreu por todos é a maneira mais segura de provar que 
ele não morreu por ninguém, do modo como os Cristãos têm entendido isto\u2019. 
Ele declara que \u2018Deus impôs sua cólera devida, e Cristo padeceu as dores dos 
tormentos do inferno\u2019 pelo pecado. Owens considera os sofrimentos de Cristo 
como \u2018uma compensação plena e valiosa, junto à justiça de Deus, por todos os 
pecados\u2019 dos eleitos, e diz que ele suportou \u2018as mesmas punições que... eles 
mesmos deveriam suportar\u2019 \u201d (A. Besant, Essay on The Atonement).
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Para mostra que estas concepções eram ainda ensinadas autorizadamente nas 
igrejas, escrevi ainda: \u201cStroud faz Cristo beber \u2018a taça da ira de Deus\u2019. Jenkins 
diz que \u2018Ele sofreu como um excluído, réprobo e esquecido de Deus\u2019. Dwight 
considera que ele suportou \u2018o ódio e o desprezo\u2019 de Deus. O Bispo Jeune nos 
diz que \u2018depois que o homem fez o pior, o pior ficou para que Cristo 
suportasse. Ele caiu nas mãos de seu pai\u2019. O Arcebispo Thomas prega que \u2018as 
nuvens da ira de Deus se ajuntaram sobre toda a raça humana: mas 
descarregaram-se apenas sobre Jesus\u2019. Ele \u2018se tornou uma maldição para nós 
e um vaso da ira\u2019. Liddon ecoa o mesmo sentimento: \u2018Os apóstolos ensinam 
que a humanidade é escrava, e que Cristo na cruz está pagando por sua 
salvação. Cristo crucificado é voluntariamente entregue e amaldiçoado\u2019; ele fala 
mesmo da \u2018quantidade precisa de ignomínia e dor necessária para a redenção\u2019, 
e diz que a \u2018divina vítima\u2019 pagou mais do que era absolutamente necessário\u2019 \u201d 
(Ibid.).
Estas são as concepções contra as quais o erudito e profundamente religioso 
Dr. MacLeod Campbell escreveu seu bem conhecido livro On the Atonement, 
um volume contendo muitos pensamentos verdadeiros e belos; F.D.Maurice e 
muitos outros homens Cristãos também têm tentado tirar de sobre o 
Cristianismo o peso de uma doutrina tão destrutiva para todas as idéias sobre 
as relações entre Deus e o homem.
Não obstante, quando olhamos para trás para os efeitos produzidos por esta 
doutrina, vemos que a fé nela, mesmo em sua forma legal \u2013 e para nós 
cruamente exotérica \u2013 está ligada a alguns dos mais altos desenvolvimentos da 
conduta Cristã, e que alguns dos mais nobres exemplos da maturidade Cristã 
tiraram dela sua força, sua inspiração e seu conforto. Seria injusto não 
reconhecer este fato. E sempre que analisamos um fato que nos parece 
espantoso e incongruente, fazemos bem em meditar sobre este fato, e tentar 
entendê-lo. Pois se esta doutrina não contivesse nada além do que é visto 
pelos seus oponentes dentro e fora das igrejas, se em seu verdadeiro sentido 
fosse tão repelente à consciência e ao intelecto como o imaginam muitos 
pensadores Cristãos, então possivelmente não teria exercido um fascínio tão 
poderoso sobre as mentes e corações dos homens, nem poderia ter sido a 
base de muitas auto-entregas heróicas, ou de tocantes e patéticos exemplos 
de auto-sacrifício no serviço do homem. Deve haver algo mais nela do que jaz 
na sua superfície, algum cerne de vida oculto que tem alimentado aqueles que 
dela retiraram sua inspiração. Ao estudarmos esta doutrina como um dos 
Mistérios Menores, devemos ver a vida oculta que estes nobres seres 
absorveram inconscientemente, estas almas que estavam tão sintonizadas 
com aquela vida que a forma sob a qual ela se velou não as repeliu.
Quando passamos a estudá-la como um dos Mistérios Menores, devemos 
sentir que para seu entendimento é necessário algum desenvolvimento 
espiritual, alguma abertura da visão interior. Compreendê-la requer que seu 
espírito deva estar parcialmente desenvolvido na vida, e somente aqueles que 
conhecem de modo prático algo do significado da auto-entrega serão capazes 
de captar um lampejo do que está implicado no ensinamento esotérico desta 
doutrina, como uma manifestação típica da Lei do Sacrifício. Só podemos 
entendê-la aplicada ao Cristo quando a vemos como uma manifestação 
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especial da Lei universal, um reflexo aqui embaixo do Modelo no alto, 
mostrando-nos em uma vida humana concreta o que significa sacrifício.
A Lei do Sacrifício estrutura nosso sistema e todos os sistemas, e sobre ela 
são construídos todos os universos. Ela está na raiz da evolução, e isto por si a 
torna inteligível. Na doutrina da Expiação ele toma uma forma concreta em 
associação com homens que atingiram certo estágio no desenvolvimento 
espiritual, o estágio que os capacita perceberem sua unidade com a 
humanidade, e se tornar, no sentido mais profundamente verdadeiro, 
Salvadores dos homens.
Todas as grandes religiões do mundo declararam que o universo começa por 
um ato de sacrifício e incorporaram a idéia do sacrifício em seus ritos mais 
solenes. No Hinduísmo é dito que o alvorecer da manifestação deu-se por um 
sacrifício (Brhadâaranyakopanishat, I, I, 1), a humanidade emana [da Deidade] 
com sacrifício (Bhagavad-Gita, III, 10) e é a Deidade que sacrifica-Se a Si 
mesma (Brhadâaranyakopanishat, I, II, 7); o objetivo do sacrifício é a 
manifestação; Ele não pode tornar-Se manifesto a menos que um ato de 
sacrifício seja executado, e desde que nada pode se manifestar antes que Ele 
se manifeste (Mundakopanishat, II, II, 10), o ato de sacrifício é chamado de \u201ca 
aurora\u201d da criação.
Na religião de Zoroastro foi ensinado que na Existência ilimitável, 
incognoscível, inominável, o sacrifício foi executado e apareceu assim a 
Deidade manifesta; Ahura-Mazda nasceu de um ato de sacrifício (Hang, 
Essays on the Parsis, pp. 12-14).
Na religião Cristã a mesma idéia é indicada na frase: \u201co Cordeiro morto desde a 
fundação do mundo\u201d (Apocalipse, XIII, 8), morto na origem das coisas. Estas 
palavras só podem se referir à importante verdade de que não pode haver 
nenhuma fundação de um mundo antes que a Deidade tenha feito um ato de 
sacrifício. Este ato é explicado como Ela limitando-Se a fim de tornar-Se 
manifesta. \u201cA Lei do Sacrifício poderia talvez ser chamada com mais verdade 
de A Lei do Amor e da Vida, pois em todo o universo, desde o mais alto até o 
mais baixo, ela é a causa da manifestação e da vida\u201d (W. Williamson, The 
Great Law, p. 406).
\u201cMas se estudarmos este mundo físico, como sendo o material mais à mão, 
vemos que toda a vida nele, todo o crescimento, todo o progresso, seja das 
unidades ou dos agregados, depende de um contínuo sacrifício e da 
resistência à dor. O Mineral á sacrificado ao vegetal, o vegetal ao animal, 
ambos ao homem,