Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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para 
as almas ainda imersas na separatividade. Ele pode alcançar a todas, embora 
elas não possam alcançar umas às outras. A água pode correr de cima para 
muitas pipas, estando elas abertas para o reservatório enquanto permanecem 
fechadas umas para as outras, e assim Ele pode enviar Sua vida para cada 
alma. Só é preciso uma condição para que um Cristo possa compartilhar Sua 
força com um irmão mais jovem: que na vida individual a consciência humana 
se abra para o divino, se mostre receptiva para com a vida ofertada, e tome o 
dom livremente derramado. Pois Deus é tão reverente para com aquele 
Espírito que é Ele mesmo no homem que Ele não derramará um fluxo de força 
e vida a menos que aquela alma o deseje receber. Deve haver a abertura 
embaixo, assim como um eflúvio de cima, a receptividade da natureza inferior, 
assim como a prontidão do superior para dar. Este é o elo entre Cristo e o 
homem, isto é o que as igrejas chamam de o \u201cderramamento da graça divina\u201d, 
isto é o que se quer dizer com a \u201cfé\u201d necessária para tornar a graça eficaz. 
Como Giordano Bruno uma vez colocou \u2013 a alma humana tem janelas, e pode 
deixar estas janelas fechadas. O sol lá fora está brilhando, a luz é imutável; 
deixe as janelas serem abertas e a luz do sol há de entrar. A luz de Deus está 
batendo nas janelas de cada alma humana, e quando as janelas são 
descerradas, a alma se torna iluminada. Não há mudança em Deus, mas há 
uma mudança no homem, e a vontade humana não pode ser forçada, senão a 
Vida divina nele teria sua devida evolução bloqueada.
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Assim, em cada Cristo que surge a humanidade é elevada a um passo mais 
alto, e por Sua sabedoria a ignorância do mundo é diminuída. Cada homem se 
torna menos fraco por causa da Sua força, que se derrama sobre a 
humanidade e penetra na alma individual. Desta doutrina, vista estreitamente, e 
assim mal interpretada, nasceu a idéia da Expiação vicária como uma 
transação legal entre Deus e o homem, na qual Jesus assumiu o lugar do 
pecador. Não foi entendido que Aquele que atingira tal altitude se tornara 
verdadeiramente uno com todos os Seus irmãos; a identidade de natureza foi 
mal tomada como uma substituição pessoal, e assim a verdade espiritual foi 
perdida na rudimentaridade de uma troca judicial.
\u201cEntão ele passa a conhecer o seu lugar no mundo, a sua função na natureza \u2013 
e ser um Salvador e fazer expiação pelos pecados do povo. Ele está no 
Coração mais interno do mundo, no Santo dos Santos, como Sumo Sacerdote 
da Humanidade. Ele é uno com todos os seus irmãos, não através de uma 
substituição vicária, mas através da unidade de uma vida comum. Alguém é 
pecador? Ele é pecador nele, para que sua pureza possa purgá-lo. Há alguém 
triste? Nele ele é o homem das tristezas; todo coração partido parte o seu, em 
cada coração lancinado o seu também é lancinado. Alguém rejubila? Nele ele 
também rejubila. Alguém deseja? Nele ele sente a carência, para que possa 
saciá-la com sua total satisfação. Ele tem tudo, e porque é dele, é de todos. Ele 
é perfeito, então todos são perfeitos com ele. Ele é forte; quem então pode ser 
fraco, já que ele está em todos? Ele subiu até seu alto lugar para que pudesse 
dar a todos abaixo de si, e ele vive a fim de que todos possam partilhar de sua 
vida. Ele ergue todo o mundo consigo quando se ergue, o caminho fica mais 
fácil para todos os homens porque ele o trilhou.
\u201cTodo filho do homem pode se tornar um Filho de Deus assim, um Salvador do 
mundo. Em cada Filho destes \u201cDeus está manifesto na carne\u201d (I Timóteo, III, 
16), a expiação que auxilia toda a humanidade, o poder vivo que renova todas 
as coisas. Só uma coisa é necessária para trazer este poder à atividade em 
qualquer alma individual: a alma deve abrir a porta e deixá-Lo entrar. Mesmo 
Ele, em tudo presente, não pode forçar Seu caminho contra a vontade de Seu 
irmão, a vontade humana deverá poder manter-se tanto contra Deus como 
contra o homem, e pela lei da evolução ela deve associar-se voluntariamente 
com a ação divina, e não ser quebrada numa submissão compulsória. Que a 
vontade abra a porta e a vida inundará a alma. Enquanto a porta estiver 
fechada a vida só gentilmente emitirá através dela sua indescritível fragrância, 
para que a doçura de tal fragrância possa conquistar, pois a barreira não pode 
ser vencida pela força.
\u201cIsto é, em parte, ser um Cristo; mas como a pena mortal poderá espelhar o 
imortal, ou as palavras mortais falar do que está além do poder de dizer? A 
língua não pode falar, a mente não iluminada não pode entender aquele 
mistério do Filho que se tornou uno com o Pai, carregando em Seu seio os 
filhos dos homens\u201d (Annie Besant, Theosophical Review, dezembro de 1898, 
pp. 344-346).
Aqueles que vão se preparar para se elevar a uma tal vida no futuro devem 
começar mesmo já a trilhar na vida inferior a senda da Sombra da Cruz. Nem 
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deveriam duvidar de seu poder de subir, pois duvidar disto seria duvidar do 
Deus em seu interior. \u201cTende fé em vós mesmos\u201d, é uma das lições que vem 
da visão superior do homem, pois aquela fé é na realidade fé no Deus interior. 
Existe um modo pelo qual a sombra da vida Crística possa recair sobre a vida 
comum dos homens, e é fazendo todo ato como sacrifício, não pelo que irá 
resultar para o que o executa, mas pelo que trará para os outros, e, na vida 
diária comum de pequenos deveres, ações pequenas, interesses estreitos, 
através da mudança dos motivos, e assim mudando tudo. Nada na vida externa 
precisa necessariamente ser alterado, em qualquer vida pode ser ofertado um 
sacrifício, Deus pode ser servido em qualquer ambiente. Desenvolver a 
espiritualidade é assinalado não pelo que o homem faz, mas pelo modo que o 
faz; a oportunidade de crescimento reside não nas circunstâncias, mas na 
atitude do homem para com elas. \u201cE em verdade este símbolo da cruz pode ser 
para nós uma pedra de toque para distinguir o bem do mal em muitas das 
dificuldades da vida. \u2018Só aquelas ações através das quais brilhe a luz da cruz 
são dignas da vida do discípulo\u2019, diz um verso em um livro de preceitos ocultos, 
e isto é interpretado como que tudo o que o aspirante faz deveria ser 
dinamizado pelo fervor do amor auto-sacrificante. O mesmo pensamento 
aparece em um verso mais adiante: \u2018Quando alguém entra na senda, coloca 
seu coração sobre a cruz; quando a cruz e o coração se tornarem um só, então 
ele atingiu a meta\u2019. Assim, talvez, possamos medir nosso progresso 
observando se o que domina em nossas vidas é o egoísmo ou o auto-
sacrifício\u201d (C.W.Leadbeater, The Christian Creed, pp. 61-62).
Toda vida que começa a se modelar deste modo está preparando a gruta onde 
o Cristo Infante deverá nascer, e a vida se tornará uma constante unificação 
[at-one-ment, no original; novamente se reproduz o jogo de palavras citado 
antes entre atonement e at-one-ment \u2013 NT], trazendo o divino mais e mais para 
dentro do humano. Toda vida semelhante de desenvolverá na vida de um 
\u201cFilho bem-amado\u201d e terá em si a glória do Cristo. Todos os homens podem 
trabalhar nesta direção fazendo de cada ato e de cada poder um sacrifício, até 
que o ouro seja separado da escória, e só reste o minério puro. 
CAPÍTULO VIII
Ressurreição e Ascensão
As doutrinas da Ressurreição e da Ascensão de Cristo também formam parte 
dos Mistérios Menores, sendo partes integrais do \u201cMito Solar\u201d e da história de 
vida do Cristo no homem.
A respeito do próprio Cristo elas têm sua base histórica nos fatos de Ele ter 
continuado a ensinar Seus apóstolos depois de Sua morte física, em Suas 
aparições nos Grandes Mistérios como Hierofante depois que Sua instrução 
direta cessou, até que Jesus assumiu Seu lugar. Nas lendas míticas a 
ressurreição do herói