Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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etéreo; aperfeiçoa uma esperança e fé positivas a respeito da recepção da luz 
divina e, em uma palavra, torna aqueles por quem é empregada os familiares 
da casa dos Deuses" (On the Mysteries, seç., V, cap. 26).
Deste estudo e prática surge um resultado inevitável, à medida em que um 
homem comece a entender e à medida que um panorama maior da vida se 
desdobre diante dele. Ele vê que pelo conhecimento sua força é muito 
aumentada, que há forças ao seu redor que ele pode entender e controlar, e 
que o seu poder está na proporção de seu conhecimento. Então ele aprende 
que a Divindade está escondida em si mesmo, e que nada que é passageiro 
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pode satisfazer o Deus interior; que somente a união com o Uno, o Perfeito, 
pode aplacar seus desejos, e então gradualmente nasce dentro dele a vontade 
de alinhar-se com o Divino; ele cessa de procurar com veemência as 
circunstâncias passageiras, e de lançar causas novas na corrente de efeitos. 
Ele se reconhece como um agente antes do que como um ator, um canal antes 
do que uma fonte, um servo antes do que um mestre, e procura descobrir o 
propósito divino e trabalhar em harmonia com ele.
Quando um homem atingiu este ponto, ele se elevou acima de toda prece, 
exceto daquela que é meditação e adoração; ele já não tem nada pelo que 
pedir, neste ou em qualquer outro mundo; ele permanece em uma serenidade 
constante, procurando apenas servir a Deus. Este é o estado da Filiação, onde 
a vontade do Filho é una à vontade do Pai, onde é feita uma calma entrega, 
"Eis, eu venho para cumprir Tua vontade. Agrada-me fazê-lo; sim, Tua lei está 
em meu coração" (Salmo XI, 7-8). Então toda prece é vista como sendo 
desnecessária; todo o pedido é sentido como impertinência; nada pode ser 
desejado pois ainda não estará nos propósitos daquela Vontade, e tudo será 
trazido à manifestação ativa à medida em que os agentes daquela Vontade se 
aperfeiçoarem no trabalho.
CAPÍTULO XI
O Perdão dos Pecados
"Eu creio... no perdão dos pecados". "Eu reconheço um batismo para a 
remissão dos pecados". As palavras saem facilmente da boca dos adorantes 
em toda igreja Cristã em todo o mundo, quando repetem os familiares credos 
dos Apóstolos e o Niceno. Entre os ditos de Jesus recortem amiúde as 
palavras: "Teus pecados te são perdoados", e é digno de nota que esta frase 
constantemente acompanhe o exercício de Seus poderes curadores, e a 
libertação de moléstias físicas e morais é assinalada como simultânea. de fato, 
em uma ocasião Ele indicou a cura de um paralítico como sinal de que Ele 
tinha direito de declarar a um homem que seus pecados haviam sido 
perdoados (Lucas, V, 18-26). Assim também foi dito a respeito de uma mulher: 
"Seus pecados, que são muitos, são perdoados, pois ela amou muito" (Lucas, 
VII, 47). No famoso tratado Gnóstico Pistis Sophia, o próprio propósito dos 
Mistérios é dito ser a remissão dos pecados. "Eles deve ter sido pecadores, 
devem ter caído em todos os pecados e iniqüidades do mundo, dos quais 
tenho vos falado, não obstante, se se converterem e se arrependerem, e 
tiverem feito a renúncia que eu acabei de descrever, dai-os aos mistérios do 
reino da luz; não mais os oculteis deles. Foi por causa do pecado que eu trouxe 
estes mistérios ao mundo, para a remissão de todos os pecados que eles 
tiverem cometido desde o início. Por isso eu vos disse antes: 'Eu não vim para 
chamar os justos'. Mas por isso eu trouxe os mistérios, para que os pecados de 
todos os homens sejam remidos, e eles sejam levados para o reino da luz. Pois 
estes mistérios são a dádiva do primeiro mistério da destruição dos pecados e 
iniqüidades de todos os pecadores' " (G.R.S.Mead, loc. cit., livro II, §§ 260-
261).
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Nestes Mistérios a remissão dos pecados se dá pelo batismo, como no 
reconhecimento do Credo Niceno. Jesus diz: "Ouvi novamente, para que eu 
possa falar-vos a palavra da verdade, de que tipo é o mistério do batismo que 
resgata dos pecados... Quando um homem recebeu os mistérios do batismo, 
aqueles mistérios se tornam um fogo poderoso, excessivamente impetuoso, 
sábio, que queima todos os pecados; eles entram na alma ocultamente e 
devoram todos os pecados que a falsificação espiritual implantou nela". E 
depois de descrever mais o processo de purificação, Jesus acrescenta: "Este é 
o modo pelo qual os mistérios do batismo resgatam do pecado e de toda a 
iniqüidade" (G.R.S.Mead, loc. cit., livro II, §§ 299-300).
De uma forma ou outra o "perdão dos pecados" aparece na maioria, senão em 
todas as religiões; e onde quer que haja este consenso de opiniões, podemos 
seguramente concluir, de acordo com os princípios já apresentados, que por 
trás existe algum fato da natureza. Acima de tudo, há uma resposta na 
natureza humana a esta idéia de que os pecados são perdoados; percebemos 
que uma pessoa sofre com a consciência de um mal cometido, e quando se 
limpam de seu passado e se livram das agitações do remorso, prosseguem 
com o coração alegre e os olhos resplandecentes, embora antes estivessem 
anuviados pelas trevas. Eles sentem como se um peso tivesse sido tirado de 
cima deles, um casaca removido. A sensação do pecado "desapareceu, e com 
ela o tormento da dor". Eles conhecem a primavera da alma, a palavra do 
poder que renova todas as coisas. Uma canção de agradecimento ressoa 
como efusão natural do coração, chega o tempo do canto dos pássaros, 
sentem "a alegria entre os Anjos". Esta experiência comum confunde uma 
pessoa quando passa por ela, ou a observa em outrem, e ela começa a se 
perguntar o que de fato ocorreu, o que produziu a mudança na consciência, 
cujos efeitos são tão manifestos.
Os pensadores modernos, que assimilaram integralmente a idéia das leis 
imutáveis por trás de todos os fenômenos, e que estudaram a atuação destas 
leis, são imediatamente inclinados a rejeitar toda e qualquer teoria de perdão 
dos pecados como sendo inconsistente com esta verdade fundamental, assim 
como o cientista, imbuído da idéia da inviolabilidade da lei, repele todo 
pensamento que é inconsistente com ela. E ambos estão certos em se basear 
na infalível ação da lei, pois a lei é apenas uma expressão da Natureza divina, 
na qual não existe variabilidade, nem sombra de desvio. Qualquer concepção 
sobre o perdão dos pecados que possamos adotar não deve contrapor-se com 
esta idéia fundamental, tão necessária para a ética como para a ciência física. 
"A base ficaria fora do todo" se não pudéssemos nos fiar seguramente nos 
eternos braços da Boa Lei.
Prosseguindo em nossas investigações, somos confrontados com o fato de que 
os próprios Instrutores que são os que mais insistem na invariável ação da lei 
são também os que proclamam enfaticamente o perdão dos pecados. Certa 
vez Jesus disse: "De toda palavra vã que o homem pronunciar, deverá prestar 
contas no dia do juízo" (Mateus, XII, 36), e em outra: "Filho, ânimo, teus 
pecados te são perdoados" (Ibid., IX, 2). Também no Bhagavad-Gita lemos 
constantemente das obrigações da ação, que "o mundo é obrigado pela ação" 
(loc. cit., III, 9) e que um homem "recuperou as características de seu corpo 
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antigo" (Ibid., VI, 43) e ainda é dito que "mesmo se o maior pecador me adorar, 
com coração indiviso, também ele deve ser contado entre os justos" (Ibid., IX, 
30). Pareceria então que o que quer que se tencione significar nas Escrituras 
do mundo com a frase "o perdão dos pecados", isto não foi imaginado, por 
Aqueles que conhecem melhor a lei, para contradizer a seqüência inviolável de 
causa e efeito.
Se examinarmos mesmo a idéia mais crua do perdão dos pecados existente 
em nossos dias, descobrimos que o seu crente não quer dizer com ela que vá