Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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reconquistá-lo e 
garantir que pise em segurança onde antes escorregou. Só quando ele 
consegue isto ele ouvirá a gentil Voz a dizer-lhe que o passado está esgotado, 
a fraqueza se transformou em força, e que o portão está novamente aberto 
para ele passar. Aqui também o "perdão" é apenas a declaração, por uma 
autoridade capacitada, a respeito do real estado das coisas, a abertura da 
porta para o competente, e seu fechamento para o incompetente. Onde 
ocorreu um fracasso, com seu conseqüente sofrimento, esta declaração seria 
sentida como um "batismo para a remissão dos pecados", readmitindo o 
aspirante em um privilégio perdido por seus próprios atos; isto sem dúvida 
daria margem a sentimentos de alegria e paz, a um alívio do peso da tristeza, a 
um sentimento de que as cadeias do passado enfim se soltaram dos pés.
Uma verdade permanece, que jamais deveria ser esquecida: que estamos 
vivendo em meio a um oceano de luz, amor, felicidade, que nos rodeia todo o 
tempo, a Vida de Deus. Assim como o sol enche a Terra com sua radiância, 
igualmente aquela Luz ilumina tudo, só que aquele Sol jamais se põe em 
nenhuma parte dela. Nós bloqueamos aquela luz de nossa consciência por 
nosso egoísmo, nossa falta de sentimentos, nossa impureza, nossa 
intolerância, mas ela brilha sobre nós sempre imutável, banhando-nos de todos 
os lados, pressionando contra nossas paredes autoconstruídas com 
persistência gentil e poderosa. Quando a alma derruba estas paredes 
isolantes, a luz entra, e a alma encontra-se inundada de luz solar, respirando o 
bendito ar do Céu. "Pois o Filho do homem está no Céu", embora não o 
saibamos, e sua brisa refresca suas sobrancelhas se ele as descobrir ao seu 
sopro. Deus sempre respeita a individualidade humana, e não entrará em sua 
consciência antes que esta consciência se abra em boas-vindas; "Ouvi, eu 
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estou à porta e bato" (Apocalipse, III, 20) é a atitude de toda Inteligência 
espiritual com relação à alma humana em desenvolvimento; esta espera de a 
porta se abrir não está baseada em falta de simpatia, mas em uma profunda 
sabedoria.
O homem não deve ser compelido; ele deve ser livre. Ele não é um escravo, 
mas um Deus em formação, e o crescimento não pode ser forçado, mas deve 
ser desejado a partir de dentro. Somente quando a vontade concorda, como 
ensina Giordano Bruno, Deus irá influenciar o homem, embora Ele esteja 
"presente em toda parte, e pronto para vir em auxílio de quem quer que se 
volte para Ele através de um ato de inteligência, e que se ofereça sem reservas 
com o amor da vontade" (Giordano Bruno, The heroic enthusiasts, vol. I, p. 
133; trad. por L. Williamson). "A potência divina que existe em tudo não oferece 
nem recusa, exceto através da assimilação ou rejeição de alguém" (Ibid., vol II, 
pp. 27-28). "Mas entra rapidamente, como a luz solar, e se faz presente para 
quem quer que se volte para ela e se abra... as janelas são abertas, e o sol 
entra num instante, e neste caso ocorre de modo semelhante" (Ibid., pp. 102-
103).
A sensação do "perdão", assim, é o sentimento que enche o coração de alegria 
quando a vontade é sintonizada na harmonia com o Divino, quando, tendo a 
alma aberto suas janelas, o brilho solar do amor e luz e felicidade penetra, 
quando a parte sente sua unidade com o todo, e a Vida Única vibra em cada 
veia. Esta é a nobre verdade que dá vitalidade até mesmo à mais crua 
concepção do "perdão dos pecados", que a torna muitas vezes, a despeito de 
sua incompletude intelectual, uma inspiração para uma vida pura espiritual. E 
esta é a verdade, como apresentada nos Mistérios Menores.
CAPÍTULO XII
Os Sacramentos
Em todas as religiões existem certos cerimoniais, ou ritos, que são 
considerados de importância vital pelos crentes na religião, e que são 
acreditados como conferidores de certos benefícios àqueles que tomam parte 
neles. A palavra Sacramento, ou algum termo equivalente, tem sido aplicada a 
estes cerimoniais, e eles têm sempre o mesmo caráter. Tem sido feito pouca 
exposição de sua natureza e significado, mas este é outro dos assuntos 
explicados antigamente nos Mistérios Menores.
A característica peculiar de um Sacramento reside em duas de suas 
propriedades. Primeiro, há a cerimônia exotérica, que é uma alegoria figurada, 
uma representação de algo através de ações e materiais - não uma alegoria 
verbal, um ensinamento dado em palavras veiculando uma verdade, mas uma 
representação encenada, sendo determinadas coisas materiais usadas de um 
modo específico. O objetivo, na escolha destes materiais, e buscado nas 
cerimônias que são acompanhadas de sua manipulação, é representar, como 
numa pintura, alguma verdade que se deseja imprimir nas mentes das pessoas 
presentes. Esta é a primeira e mais óbvia propriedade de um Sacramento, 
diferenciando-o de outras formas de culto e meditação. Ele apela para aqueles 
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que, sem estas imagens, falhariam em captar uma verdade sutil, e lhes mostra 
de uma forma vívida e plástica a verdade que de outro modo lhes escaparia. 
Todo Sacramento, quando é estudado, deveria ser tomado sob o ponto de vista 
de que é uma alegoria figurada; depois, as coisas essenciais a ser estudadas 
serão: os objetos materiais que entram na alegoria, o método pelo qual são 
empregados, e o significado que o todo é planejado para veicular.
A segunda propriedade característica de um Sacramento pertence aos fatos 
dos mundos invisíveis, e é estudada pela ciência oculta. A pessoa que oficia no 
Sacramento deveria possuir este conhecimento, pois um pouco, embora não 
todo, do poder operativo do Sacramento depende do conhecimento do 
oficiante. Um Sacramento liga o mundo material com as regiões sutis e 
invisíveis às quais este mundo está relacionado; é um elo entre o visível e o 
invisível. E não só é um elo entre este mundo e outros mundos, mas também é 
um método pelo qual as energias do mundo invisível são transmutadas em 
ação no físico, e um método real de mudar energias de um tipo em energias de 
outro tipo, como literalmente na célula galvânica as energias químicas são 
transformadas em elétricas. A essência de todas as energias é uma e a 
mesma, seja nos mundos visível ou invisível; mas as energias diferem de 
acordo com os graus de matéria através dos quais se manifestam. Um 
Sacramento serve como um tipo de encruzilhada na qual tem lugar a alquimia 
espiritual. Uma energia colocada nesta encruzilhada e sujeita a certas 
manipulações segue adiante diferente em expressão. Assim uma energia de 
um tipo sutil, pertencendo a uma das regiões superiores do universo, pode ser 
trazida a uma relação direta com as pessoas vivendo no mundo físico, e pode 
ser posta a afetá-las no mundo físico, assim como em sua própria região; o 
Sacramento forma a última ponte do invisível ao visível, e possibilita às 
energias serem diretamente aplicadas naqueles que preenchem os requisitos 
necessários e tomam parte no Sacramento.
Os Sacramentos da Igreja Cristã perderam muito de sua dignidade e do 
reconhecimento de seu poder oculto entre aqueles que se separaram da Igreja 
Católica Romana na época da "Reforma". A separação prévia entre Ocidente e 
Oriente, deixando de um lado a Igreja Ortodoxa Grega e de outro a Igreja 
Romana, de modo algum afetou a fé nos Sacramentos. Eles permaneceram 
nas duas grandes comunidades como elos reconhecidos entre o visível e o 
invisível, e santificam a vida do fiel do berço até a tumba. Os Sete Sacramentos 
do Cristianismo cobrem toda a vida, desde as boas-vindas do Batismo até o 
adeus da Extrema-Unção. Eles foram estabelecidos por Ocultistas, por homens 
que