Annie Besant   O Cristianismo Esotérico
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Annie Besant O Cristianismo Esotérico


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porque os ensinamentos que recebiam lá ultrajavam sua inteligência e 
chocavam seu senso moral. É inútil pretender que o agnosticismo disseminado 
deste período tenha suas raízes seja na falta de moralidade ou na deliberada 
perversidade de mente. Qualquer um que estudar com cuidado o fenômeno 
logo admitirá que homens de poderoso intelecto foram levados para fora do 
Cristianismo pela crueza das idéias religiosas apresentadas, as contradições 
nos ensinamentos das autoridades, nas concepções sobre Deus, o homem e o 
universo, que nenhuma inteligência treinada poderia chegar a admitir. Nem 
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pode ser dito que qualquer tipo de degradação moral esteja na raiz da revolta 
contra os dogmas da Igreja. Os rebeldes não eram ruins demais para a sua 
religião. Ao contrário, foi a religião que ficou ruim demais para eles. A rebelião 
contra o Cristianismo popular foi devida ao despertar e crescimento da 
consciência; foi a consciência que se revoltou, assim como a inteligência, 
contra ensinamentos desonrosos tanto para Deus quanto para o homem, que 
representavam Deus como um tirano, e o homem como sendo essencialmente 
mau, obtendo a salvação por submissão escrava.
A razão para esta revolta jaz no gradual rebaixamento do ensinamento Cristão 
para uma alegada simplicidade, para que o mais ignorante pudesse ser capaz 
de compreendê-lo. Os religiosos Protestantes assertaram sonoramente que 
nada deveria ser pregado exceto aquilo que pudesse ser compreendido, que a 
glória do Evangelho está em sua simplicidade, e que a criança e o inculto 
deveriam ser capazes de entendê-lo e aplicá-lo à vida. Bastante verdadeiro, se 
com isto se quisesse dizer que existem algumas verdades religiosas que todos 
podem entender, e que a religião falha se deixa o mais inferior, o mais 
ignorante, o mais estúpido, de fora de sua influência elevadora. Mas falso, 
completamente falso, se com isso se quiser dizer que a religião não tem 
verdades que o ignorante não possa compreender, que é uma coisa tão pobre 
e limitada a ponto de não ter nada para ensinar que esteja acima do 
pensamento do não inteligente ou acima do nível moral do degradado. Falso, 
fatalmente falso, se este for seu sentido; pois à medida que esta visão se 
espalha, ocupando os púlpitos e sendo proclamada nas igrejas, muitos homens 
e mulheres nobres, cujos corações quase se partem quando rompem sua 
ligação que os une à sua antiga fé, saem das igrejas, e deixam seus lugares 
ser preenchidos pelos hipócrita e pelo ignorante. Eles ou passam para um 
estado de agnosticismo passivo, ou \u2013 se são jovens e entusiastas \u2013 para uma 
condição de agressão ativa, não acreditando que aquilo que poderia ser a 
coisa mais elevada ultraje tanto o intelecto como a consciência, e preferem a 
honestidade de uma descrença aberta ao embotamento do intelecto e da 
consciência sob imposição de uma autoridade em quem não reconhecem nada 
que seja divino.
Neste estudo do pensamento de nosso tempo vemos que a questão de um 
ensinamento oculto em conexão com o Cristianismo se torna de importância 
vital. O Cristianismo há de sobreviver como a religião do Ocidente? Viverá 
através dos séculos futuros, e continuará a ter uma parte na formação do 
pensamento das raças ocidentais em evolução? Se há de viver, deve recuperar 
o conhecimento que perdeu, e ter de novo seus místicos e seus ensinamentos 
ocultos; deve mais uma vez colocar-se como uma autoridade ensinando as 
verdades espirituais, revestido da única autoridade que vale alguma coisa, a 
autoridade do conhecimento. Se estes ensinamentos forem recuperados, sua 
influência logo será vista nas novas e mais amplas concepções da verdade; 
dogmas, que agora parecem apenas meras cascas e plumas, deverão 
novamente ser apresentações de partes das realidades fundamentais. Em 
primeiro lugar, o Cristianismo reaparecerá no \u201cLugar Santo\u201d, no Templo, de 
modo que todos que sejam capazes de receber suas linhas de pensamento 
divulgado em público; e em segundo lugar, o Cristianismo Oculto descerá outra 
vez ao Ádito, residindo detrás do véu que guarda o \u201cSanto dos Santos\u201d, para 
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dentro do qual só os Iniciados podem passar. Então novamente o ensinamento 
oculto estará ao alcance daqueles que se qualificarem para recebê-lo, de 
acordo com as antigas regras, aqueles que desejam nos dias de hoje enfrentar 
as antigas exigências, feitas a todos os que hão de alegrar-se em conhecer a 
realidade e a verdade das coisas espirituais.
Mais uma vez voltemos nossos olhos para a história, para vermos se o 
Cristianismo foi único entre as religiões em não possuir nenhum conhecimento 
interno, ou se assemelhou-se a todas as outras possuindo este tesouro oculto. 
Este problema é uma questão de evidência, não de teoria, e deve ser decidido 
pela autoridade dos documentos existentes e não pelo mero \u201cassim se diz\u201d dos 
Cristãos modernos.
É fato que tanto o Novo Testamento e os escritos da Igreja Primitiva fazem as 
mesmas declarações sobre a posse de tais ensinamentos pela Igreja, e 
sabemos a partir deles do fato da existência dos Mistérios \u2013 chamados 
Mistérios de Jesus, ou Mistério do Reino \u2013, das condições impostas aos 
candidatos, algo da natureza geral dos ensinamentos dados, e outros detalhes. 
Certas passagens no Novo Testamento ficariam inteiramente obscuras, não 
fosse pela luz lançada neles pelas declarações definidas dos Padres e Bispos 
da Igreja, mas debaixo daquela luz elas se tornam claras e inteligíveis.
Teria na verdade sido estranho se fosse diferente, quando consideramos as 
linhas do pensamento religioso que influenciaram o Cristianismo primitivo. 
Aliado aos hebreus, os persas, os gregos, tinto pelos antigos credos da Índia, 
profundamente colorido pelo pensamento sírio e egípcio, este último ramo do 
grande tronco religioso não poderia fazer outra coisa senão reafirmar as 
antigas tradições, colocando ao alcance das raças ocidentais todo o tesouro 
das tradições antigas. \u201cA fé antigamente confiada aos Santos\u201d teria na verdade 
sido esvaziada deste valor principal se, quando transmitida para o Ocidente, a 
pérola do ensinamento esotérico tivesse sido escamoteada.
A primeira evidência a ser examinada é a do Novo Testamento. Para nossos 
propósitos podemos colocar de lado todas as enfadonhas questões das 
diferentes redações e dos diferentes autores, que só podem ser julgadas por 
eruditos. A erudição crítica tem muito a dizer sobre a idade dos manuscritos, 
sobre a autenticidade dos documentos, e assim por diante. Podemos aceitar as 
Escrituras canônicas como demonstração do que era acreditado na Igreja 
Primitiva a respeito do ensino de Cristo e de Seus seguidores imediatos, e ver 
o que elas dizem sobre a existência de um ensinamento secreto transmitido 
somente a uns poucos. Tendo visto as palavras postas na boca do próprio 
Jesus, e consideradas pela Igreja como de suprema autoridade, olharemos 
para os escritos do grande apóstolo São Paulo; então consideraremos as 
declarações feitas por aqueles que herdaram a tradição apostólica e guiaram a 
Igreja durante os primeiros séculos. Ao longo desta ininterrupta linha de 
tradição e testemunho escrito pode ser estabelecida a proposição de que o 
Cristianismo tinha um lado oculto. Veremos ainda que os Mistérios Menores de 
interpretação mística podem ser acompanhados através dos séculos até o 
início do século XIX, e que embora já não houvesse Escolas de Misticismo 
reconhecidas como preparatórias para a iniciação depois do desaparecimento 
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dos Mistérios, ainda assim grandes Místicos, de tempos em tempos, 
alcançaram os degraus inferiores do êxtase por seus próprios esforços