José Afonso da Silva   Direito Urbanístico Brasileiro (2010)
468 pág.

José Afonso da Silva Direito Urbanístico Brasileiro (2010)


DisciplinaDireito Urbanístico334 materiais1.075 seguidores
Pré-visualização50 páginas
no sentido da realização de atividades 
urbanísticas, preferentemente, em certas situações, à técnica das pres­
crições unilaterais, o que dá origem ao chamado \u201curbanismo concertado\u201d, 
que se observa nos sistemas francês25 e espanhol,26 e que agora o Estatuto 
da Cidade também alberga, como é o caso da outorga onerosa do direito 
de construir (arte. 28-31), das operações urbanas consorciadas (arts. 
32-34), da transferência do direito de construir (art. 35).
8. Relações do direito urbanístico com outras disciplinas jurídicas
28. O estudo das relações do direito urbanístico com outras discipli­
nas jurídicas reveste-se de muita importância no caso brasileiro porque, 
como dissemos, suas normas, na grande maioria, ainda devem ser 
identificadas em instituições jurídicas pertencentes a outros ramos do 
Direito.
29. No direito constitucional o direito urbanístico encontra seus 
fundamentos, como os demais ramos do Direito. Na Constituição se
25. Cf. André Laubadère, Traitè Êlémentaire de Droit Administratif, 6a ed., t. 2, 
p. 401.
26. Cf. Antonio Carceller Feroández, Imtituciones de Derecho Urbanístico, pp. 
277 e ss.
48 DIREITO URBANÍSTICO BRASILEIRO
acham, como já vimos, as normas sobre a política do desenvolvimento 
urbano, sobre planos diretores, ordenação urbana, parcelamento urbano, 
propriedade urbana e sua função social, imposições constitucionais ur­
banísticas (arts. 30, VIII, e 182). Aí se acha o mandamento de proteção 
paisagística, artística e histórica (arts. 30, IX, 215 e 216), impositiva de 
regime especial à propriedade privada. Aí estão as regras de competência 
que facultam à União, aos Estados e aos Municípios estabelecer normas 
sobre urbanismo (arts. 21, Di, XX e XXI; 24 ,1; e 30,1, II, VIII e IX).
30. No direito administrativo o direito urbanístico vai buscar os 
instrumentos fundamentais de sua atuação, como a desapropriação, a 
servidão, a organização de entidades executoras do urbanismo. Por outro 
lado, o poder de polícia, relevante instituição do direito administrativo, 
ainda é um meio fundamental para a atuação urbanística, embora passe 1 
ele por um processo de reestudo e de reelaboração científica, que tende 
a reduzi-lo a expressões bem menos amplas do que certa doutrina lhe 
confere. O certo é que no direito administrativo se encontram importantes 
normas utilizadas no campo urbanístico, a ponto de ainda se sustentar- 
embora sem razão, como vimos - que as normas de direito urbanístico 
integram aquele ramo do Direito.
31. Com o direito econômico o direito urbanístico correlaciona-se 
intimamente, porque até se pode dizer que ambos assentam no mesmo 
fundamento constitucional - qual seja, a autorização para a intervenção 
do Poder Público no domínio privado \u2014 e se servem de instrumentos se­
melhantes, às vezes até de técnicas idênticas, como é o planejamento.
32. No direito tributário o direito urbanístico encontra instrumentos 
de atuação muito relevantes, recorrendo-se à tributação como um dos 
meios de forçar ou estimular operações urbanísticas pelos particulares no 
interesse da coletividade. A Constituição de 1988 considerou a atividade 
urbanística intimamente ligada ao direito èconômico, tanto que incluiu 
no título da \u201cOrdem Econômica\u201d o capítulo sobre a política urbana Essa 
aproximação existe, a ponto de alguns doutrinadores, como lembramos 
antes, reputarem o direito urbanístico como parte do direito econômico
\u2014 concepção não aceitável.
33. No direito civil encontramos muitas normas de direito urbanísti­
co inseridas entre as de direito de vizinhança e as de direito de construir. 
Demais, cabe ao direito civil regular o direito de propriedade, que sofre 
profundas transformações por normas jurídicas urbanísticas, como ve­
remos mais adiante. Por essas razões é que ítalo di Lorenzo declara que 
a normatividade do urbanismo apresenta, em alguns aspectos, notável 
conexão com relações jurídicas de natureza civilística.27 Por isso, ele de­
dica o Capítulo II de sua obra aos aspectos civilísticos da urbanística.
27. Diritto Urbanístico, p. 26.
DO CONCEITO DE \u201cDIREITO URBANÍSTICO\u201d 49
34, O direito de construir tem diversas conexões com o direito 
urbanístico. Há até concepções, como vimos, que consideram aquele 
como parte deste. Mas, como nota Hely Lopes Meirelles, o. direito urba­
nístico \u201cnão se confunde com o direito de construir, nem com o direito 
de vizinhança, embora mantenham íntimas conexões, e seus preceitos 
muitas vezes se interpenetrem, sem qualquer colisão, visto que protegem 
interesses diversos e se embasam em fundamentos diferentes. Realmente, 
o direito de construir e o direito de vizinhança são de ordem privada e 
disciplinam a construção e seus efeitos nas relações com terceiros, espe­
cialmente com os confinantes, enquanto o direito urbanístico ordena o 
espaço urbano e as áreas rurais que nele interferem, através de imposições 
de ordem pública.> expressas em normas de uso e ocupação do solo urbano 
ou urbanizável, ou de proteção ambiental, ou enuncia regras estruturais 
e funcionais da edificação urbana coletivamente considerada\u201d.28
9, Definição do direito urbanístico
35, Podemos, agora, tentar uma definição do direito urbanístico nos 
dois aspectos antes considerados.
36, O direito urbanístico objetivo consiste no conjunto de normas 
que têm por objeto organizar os espaços habitáveis, de modo a propiciar 
melhores condições de vida ao homem na comunidade.29
37, O direito urbanístico como ciência é o ramo do direito público 
que tem por objeto expor, interpretar e sistematizar as normas e princí­
pios disciplinadores dos espaços habitáveis'
28. Direito Municipal Brasileiro^ 16- ed., p. 526. No mesmo sentido, quanto ao 
direito de construir, Laubadère (Traité Êlémentaire de Droit Administratif 6a ed., 1 2, p. 
399): \u201cSan doute, le droit de la construction, que Fort a étudié au titre précédent, ne se 
confond pas avec celui de Furbanisme, dont on va traiter ici. Le droit de la construction vise 
Fimmeuble pris isolément et impose des règles destinées à empêcher que Faménagement 
de cet immeuble ne presente en lui-même des inconvénients susceptibles de répercussions 
sociales. Le droit de Furbanisme cherche à atteindre Fimmeuble qu\u2019en tant qu\u2019élément 
de Faménagement d\u2019ensemble de la cité\u201d. Nesse mesmo sentido: Robert Savy, Droit de 
VUrbanisme, p. 55.
29. As definições apresentadas nos manuais da disciplina concernem ao direito 
urbanístico objetivo. Cf. Hely Lopes Meirelles (Direito Municipal Brasileiro, 16a ed., 
p. 522): \u201co direito urbanístico, ramo do direito publico destinado ao estudo e formula­
ção dos princípios e normas que devem reger os espaços habitáveis, no seu conjunto 
cidade-cam poRobert Savy (Droit de VUrbanisme, p. 54): \u201cOn entend ici par droit 
de Furbanisme Fensemble des règles, institutions et procédures juridiques permettant 
de contrôler Futilization et Foccupation de Fespace conformément aux exigences de 
Fintérêt généraí, tel que les autorités competentes Font defini\u201d; Henri Jacquot (Droit de 
VUrbanisme, 23 ed., pp. 9-10): \u201cLe droit de Furbanisme peut être défini comme Fensemble 
des règles et institutions établies en vue d\u2019obtenir une affectation de Fespace conforme 
aux objectifs d\u2019aménagement des collectivités publiques\u201d.
Capítulo III
Do Direito Urbanístico no Brasil
1. Generalidades, 2, Evolução da legislação urbanística no Brasil, 3. 
Fundamentos constitucionais do direito urbanístico brasileiro. 4. O Es­
tatuto da Cidade e a política de desenvolvimento urbano.
1. Generalidades
1. As normas urbanísticas no Brasil ainda não atingiram \u2014 como na 
Itália, na França, na Espanha, na Alemanha e na Bélgica \u2014 aquela fase 
de unidade substancial de que nos fala Spantigatti,1 pois ainda se acham 
espalhadas em vários diplomas legais federais, estaduais e municipais. 
A Constituição de 1988, no entanto, abriu espaço para a realização dessa