José Afonso da Silva   Direito Urbanístico Brasileiro (2010)
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José Afonso da Silva Direito Urbanístico Brasileiro (2010)


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fosse limitada a altura dos 
edifícios e que se estabelecessem praças amplas e se guardasse distância, 
em relação ao prédio existente, de até 100 pés.38 As cidades do Império 
tinham traçados quadrados ou retangulares entre si e orientados segun­
do os quatro pontos cardeais.39 Essas características mantiveram-se na 
Idade Média, apesar do espírito antiurbano dessa época, que importou 
em reduzir consideravelmente a população urbana. Mas foi na Idade 
Média que começaram a surgir algumas normas jurídicas urbanísticas. 
Na Renascença houve preocupação com o embelezamento dos palácios 
e construções urbanas. Arruamento, estabelecimento de praças, alinha­
mento dos edifícios, são exigências urbanísticas que existiram na An­
36. Cf. Jorge Wilheim, Urbanismo no Subdesenvolvimento, pp. 28 e ss.
37. L'Urbanisme, p. 5, nota 2.
38. Cf. Enciclopédia Universal Ilustrada Europea-Americana, t. 65, p. 1.336.
39. Chamava-se Decumamis a via Este-Oeste; e Cardo a via Norte-Sul.
28 DIREITO URBANÍSTICO BRASILEIRO
tigüidade Clássica, como na Idade Média e mesmo no Brasil Colonial, 
quando também se iniciou o calçamento de vias públicas. Tratava-se, no 
entanto, de um urbanismo primitivo e empírico.
14, Como técnica e ciência interdisciplinar que é, o urbanismo 
correlaciona-se com a cidade industrial, como instrumento de correção 
dos desequilíbrios urbanos, nascidos da urbanização e agravados com a 
chamada \u201cexplosão urbana\u201d do nosso tempo. As tentativas para corrigir 
os males da cidade industrial cristalizaram-se em tomo de duas posições 
extremas: uma que se opunha à cidade existente, propugnando por formas 
novas de convivência social, e postulava refazer tudo desde o começo; 
outra que se propunha a resolver separadamente os problemas, remedian­
do isoladamente os inconvenientes, sem lévar em conta as conexões e 
sem uma visão global do novo organismo urbano.40
15. A primeira corrente é a dos utopistas: Owen, Saint-Simon, 
Fourier, Cabet, Godin, que não se limitaram a descrever a cidade ideal 
à maneira de um Thomas More, de um Campanella e de um Bacon, mas 
tentaram pô-la em prática.
Robert Owen (1771 -1858), com seu socialismo utópico, tentou cons­
truir cidades para implantação experimental do seu sistema. O plano das 
cidades compreendia um grupo de vilas num quadrilátero com cerca de
1.000 a 1.500 acres com construções para comportar por volta de 1.200 
pessoas. No interior do quadrilátero encontram-se os edifícios públicos, 
que se dividem em paralelogramos, havendo construções para cozinha 
e refeitórios comuns etc. Esse projeto constituiu o primeiro plano de 
urbanismo moderno, estudado em todos os seus componentes, desde os 
aspectos político-econômicos até o programa de construção e o orçamento 
financeiro.43 Owen procurou aplicar suas idéias na Colônia que ftmdou na 
América do Norte com o nome de Nova Harmonia (New Harmony).
Charles Fourier (1772-1837), com sua teoria da harmonia universal 
a realizar-se em sete períodos históricos, indicou que ela já começaria 
a verificar-se no sexto período. Neste a associação humana viveria em 
cidades construídas sob o regime que ele chamou de \u201cgarantia sensi­
tiva\u201d, sob a beleza e a salubridade. Traçou ele o plano de uma cidade 
desse período, que compreenderia três recintos: (a) o primeiro conteria 
a cidade central; (b) o segundo, os arrabaldes e as grandes fábricas; 
(c) o terceiro, as avenidas e os subúrbios. Em cada um as construções 
adotariam dimensões diferentes, e só poderiam levantar-se mediante 
aprovação de uma comissão de edis. Os três recintos seriam separados
40. Cf. Leonardo Benevolo, Aux Sources de 1 'Urbanisme Modeme, p. 6.
41. Cf. Leonardo Benevolo, Aux Sources de 1 'Urbanisme Modeme, p. 72. Porme­
nores in Françoise Chaoy, El Urbanismo: Utopia y Realidades,, pp. 111 e ss.
DO REGIME JURÍDICO DA ATIVIDADE URBANÍSTICA 29
por valas, relvas e plantações. Cada casa deveria dispor, entre pátio e 
jardins, de tanto terreno vazio quanto o que ocupasse em superfície 
edificada. O espaço vazio seria duplo no segundo recinto {arrabaldes) 
e triplo no terceiro {subúrbios).42 Nesse plano percebem-se idéias que 
voltaram a aflorar no urbanismo contemporâneo: zoneamento, áreas ver­
des, espaços livres, taxa de ocupação e coeficiente dê aproveitamento 
do terreno. E não era só. As noções de recuos, afastamentos e gabaritos 
foram também lançadas por Fourier nesse plano, segundo o qual seria de 
no mínimo seis toesas (cada uma mede l,98m) o espaço de isolamento 
entre dois edifícios, três para cada lado\u2014ou seja, três no mínimo de recuo 
da divisa dos terrenos. Os edifícios não poderiam exceder, em altura, a 
largura da rua, que, por seu lado, não poderia ter menos de nove toesas 
(17,82m) de largura e teria que ser arborizada pela metade.43 Com isso, 
à comunidade até então indiferenciada sucederia um grupo funcional 
constituído racionalmente \u2014 a Falange; e à cidade indiferenciada, um 
dispositivo urbano unitário \u2014 o Falanstério.44
Jean-Baptiste Godin (1817-1889) tentou realizar o Falanstério de 
Fourier, não sem modificá-lo segundo sua própria experiência; e teve 
algum sucesso, sob o nome de Familistério.45
Étienne Cabet (1788-1856) escreveu um romance utópico, Viagem 
a Icária, publicado em 1840, em que descreve um país imaginário, 
Icária, e sua capital, ícara, grande metrópole, e a ordenação das outras 
cidades.46 O plano de ícara é minuciosamente apresentado: é uma me­
trópole quase circular, dividida em duas partes pelo rio Tair, canalizado 
entre dois muros em linha quase reta; no meio da cidade o rio se divide 
em dois braços, que se distanciam, se aproximam depois, e finalmente 
se reúnem de novo, seguindo a direção primitiva, de maneira que forma 
uma ilha circular bastante grande; esta ilha é uma praça central, com 
árvores plantadas, em meio da qual se ergue um palácio, que encerra 
um vasto e soberbo jardim elevado, em forma de terraço, de cujo centro 
surge uma imensa coluna coroada com uma estátua colossal que domina 
todos os edifícios. Há 70 bairros, mais ou menos iguais; o plano de cada 
bairro atende ao seguinte: o que aparece colorido são edifícios públicos, 
escolas, hospícios, templos; os vermelhos, oficinas; os amarelos, grandes
42. Cf. Leonardo Benevolo, Aux Sources de 1 'Urbanisme Modeme, p. 82; Françoise 
Chaoy, El Urbanismo: Utopia y Realidades, pp. 121 e ss.
43. Cf. Benevolo, Aux Sources de VUrbanisme Modeme, p. 83; F. Chaoy, El Ur­
banismo: Utopia y Realidades, p. 123.
44. Benevolo, Aux Sources de VUrbanisme Modeme, p. 84.
45. Idem ibidem, pp. 91 e ss.
46. Cf. Benevolo, Aux Sources de VUrbanisme Modeme, p. 106; F. Chaoy, El 
Urbanismo: Utopia y Realidades, p. 152.
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armazéns; os azuis, lugares de reuniões; os violetas, os monumentos. As 
ruas também são planejadas: 16 casas de cada lado com 1 edifício público 
no meio e outros 2 nos extremos; as casas são exteriormente parecidas, 
dando idéia de um só edifício.47
Tentou-se implantar o plano de Cabet algumas vezes, em Nova Or- 
leans, em Illinois e na Califórnia, por Icarianos, chegando a Nova Icária 
a concretizar-se até 1895.48
16. A segunda corrente ligam-se especialistas e funcionários que 
introduzem regulamentos sanitários e serviços administrativos, median­
te a utilização de instrumentos urbanísticos técnicos e jurídicos, que 
permitiram realizar transformações no meio urbano, dando origem à 
legislação urbanística moderna49 A essaépoca,grande parte das infra- 
estruturas urbanas do solo (mas, estradas, pontes, canais, portos) devia-se 
à iniciativa privada, mas a evolução impôs ao Estado a prestação desses 
serviços urbanísticos, especialmente no referente aos serviços sanitá­
rios, até a renovação de Paris por obras de Haussmanri, que embelezou 
a cidade.50
17. Concebeu-se o \u201curbanismo\u201d, inicialmente, como arte de em­
belezar a cidade. Esse conceito, porém,