UC10 Apostila Políticas Públicas Para o Agronegócio
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UC10 Apostila Políticas Públicas Para o Agronegócio


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e álcool. O Porto de Santos (foto) tem 
grande relevância nesse cenário até hoje.
Curso Técnico em Agronegócio
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Fonte: Shutterstock
Segundo Buainain (2014), vários fatores contribuíram para esse marcante dinamismo da 
agricultura brasileira, mas os principais foram as políticas agrícolas adotadas pelo governo. 
Essas políticas se transformam continuamente em resposta ao conjunto de pressões 
econômicas, políticas, sociais, internacionais e ambientais.
Mas esse cenário não foi sempre assim, e a produção agropecuária passou por altos e baixos. 
Até meados dos anos 1950, o desenvolvimento do setor agropecuário era garantido pela 
incorporação de novas terras (aumento das fronteiras agrícolas) e pelo uso de mão de obra 
barata, que compensavam a baixa produtividade e a distância dos mercados consumidores.
No início da década de 1960, a produção doméstica de alimentos não acompanhava a rápida 
urbanização e o aumento da renda da população, o que gerou seguidas crises de abastecimento 
alimentar nos principais mercados brasileiros.
Em 1968, foi então lançado o Plano Estratégico de Desenvolvimento \u2013 PED, que buscava a 
elevação da produção e da produtividade agropecuárias mediante o uso de tecnologias e 
insumos mais modernos.
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Comentário do Autor
Na avaliação de Buainain (1999), esse esforço estatal foi uma intervenção 
planejada: as ações foram organizadas para promover as mudanças estruturais 
(técnicas, econômicas e sociais), que se mostraram essenciais para deslanchar o 
crescimento do agronegócio brasileiro.
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Essa intervenção pública ancorava-se em quatro grandes sistemas que formavam um conjunto 
amplo de instrumentos de política agrícola:
\u2022 Sistema Nacional de Planejamento Agropecuário \u2013 SNPA, cuja função era conceber e 
articular a intervenção pública na agropecuária;
\u2022 Sistema Nacional de Crédito Rural \u2013 SNRC, cujo papel era operar a política de crédito rural, 
principal instrumento de indução da modernização tecnológica;
\u2022 Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (Embrapa \u2013 Empresa Brasileira de Pesquisa 
Agropecuária e empresas estaduais de pesquisa agropecuária), responsável pelo 
desenvolvimento de tecnologias adequadas para as condições naturais do país; 
\u2022 Sistema Nacional de Extensão Rural (Embrater e empresas estaduais de assistência técnica 
e extensão rural), dedicado a promover a difusão tecnológica entre os pequenos, médios 
e grandes produtores. 
A implantação e a operacionalização desses sistemas foram favorecidas e aceleradas pela 
disponibilidade de recursos para financiamento do crédito rural, investimentos e gastos 
operacionais do governo. O resultado foi um salto qualitativo e quantitativo da agropecuária 
nacional, cuja produção de grãos passou de aproximadamente 45 mil toneladas para 50 mil 
toneladas em 1980.
No entanto, esse desenvolvimento não durou muito: com a crise da década de 1980, o modelo 
de intervenção pública planejada também entrou em crise, e o desenvolvimento agropecuário 
foi freado pelos elevados índices de inflação e importação que pesavam na balança comercial. 
Foi nessa época que surgiu o modelo de intervenção conjuntural, que se caracterizou por 
respostas a problemas pontuais gerados pela crise. Essas intervenções, no entanto, tiveram 
planejamento e execução ineficientes, com elevado desperdício no uso dos recursos públicos.
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Informações Extras
Ainda hoje, esse modelo de intervenção não foi totalmente superado. Segundo 
Buainain (2014), várias das intervenções do governo são apenas reações a 
problemas de conjuntura que poderiam ser evitados ou solucionados de forma 
definitiva por intervenções de natureza mais estrutural.
Um exemplo é o chamado \u201ccaos logístico\u201d (problemas graves de transporte, 
armazenagem, portos, ferrovias etc.): além de não atacar o problema na raiz, com 
grandes investimentos em infraestrutura, não se adotam medidas preventivas 
eficientes que poderiam reduzir algumas das consequências mais danosas da 
deficiência logística.
Com o final da crise dos anos 1980, principalmente após a estabilidade econômica decorrente 
do Plano Real, ocorreram os primeiros movimentos de mudança na orientação da política 
agrícola em direção a um modelo de políticas públicas de natureza mais liberal, que 
pressupõem o livre funcionamento dos mercados e o respeito aos contratos, com menor 
intervenção governamental no agronegócio. 
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Essa nova política buscou reduzir a intervenção do governo nos mercados agrícolas e fortalecer 
o mercado privado como principal mecanismo de sinalização e provisão de recursos na 
agricultura, o que engloba o financiamento e a comercialização da produção.
No próximo tópico, você vai conhecer as leis que criaram e mantêm a política agrícola brasileira.
Tópico 2: Marco Legal da Política Agrícola Brasileira (Legislação)
A Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada em 5 de outubro de 1988 (foto), 
sendo a lei suprema e fundamental do Brasil, e servindo de parâmetro de validade para todas 
as demais normas. Ela é dividida em nove títulos, que tratam de temáticas diferentes. Neste 
estudo, é importante debruçar-se no Título VII, da \u201cOrdem Econômica e Financeira\u201d, que abrange 
as normas de políticas urbana, agrícola, fundiária e de reforma agrária (artigos 170 a 192). 
Fonte: Wikimedia Commons 
O art. 187 da Constituição Federal determina que a política agrícola seja planejada e executada 
na forma da lei, com a participação efetiva do setor de produção, envolvendo produtores e 
trabalhadores rurais, bem como dos setores de comercialização, de armazenamento e de 
transportes. O artigo destaca, em seu parágrafo primeiro, que as atividades agroindustriais, 
agropecuárias, pesqueiras e florestais estão incluídas no planejamento agrícola, e, no parágrafo 
segundo, que as ações de política agrícola e de reforma agrária devem ser compatibilizadas.
Em 1991, foi promulgada a Lei nº 8.171, que dispõe sobre a política agrícola.
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Leitura complementar
No AVA, você pode conferir o texto original da Lei nº 8.171, na íntegra, conforme 
publicado pela Casa Civil da Presidência da República.
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A Lei nº 8.171 fixa os fundamentos, define os objetivos e as competências institucionais, prevê 
os recursos e estabelece as ações e os instrumentos da política agrícola.
Essa lei é fundamentada em pressupostos importantes, como: 
\u2022 o setor agrícola é constituído pelos segmentos de produção, insumos, agroindústria, 
comércio e abastecimento; 
\u2022 a agricultura deve proporcionar rentabilidade compatível com a de outros setores da 
economia; 
\u2022 o adequado abastecimento alimentar é condição básica para garantir a tranquilidade 
social, a ordem pública e o processo de desenvolvimento econômico e social.
Como objetivos da política agrícola, a Lei nº 8.171 fixa no artigo terceiro, em quinze incisos, o 
que deve ser alcançado e quem será beneficiado pelas políticas agrícolas. 
 
A Lei nº 8.171 determina que o Estado exercerá função de planeja-
mento, destinado a promover, regular, fiscalizar, controlar, avaliar e 
suprir as necessidades, visando assegurar o incremento da produ-
ção e da produtividade agrícolas, proteger o meio ambiente, garan-
tir o seu uso racional e estimular a recuperação dos recursos natu-
rais, prestar apoio institucional ao produtor rural, com prioridade 
de atendimento ao pequeno produtor e à sua família, entre outros.
Para finalizar o Capítulo I da Lei nº 8.171, que trata dos Princípios Fundamentais, fica determinado 
que os instrumentos de política agrícola deverão orientar-se por planos plurianuais e que as 
ações e os instrumentos de política agrícola devem se referir a: 
\u2022 I - planejamento agrícola;
\u2022 II - pesquisa agrícola tecnológica;
\u2022 III - assistência técnica e extensão