Edith Fiore   Já Vivemos Antes
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Edith Fiore Já Vivemos Antes


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azuis, dois números abaixo do seu. Uma T-shirt escura e triste e uns sapatos de ténis Adidas completavam 
a imagem desleixada. O cabelo escuro, muito curto e pintalgado de cinzento, e a falta de maquilhagem 
deram-me a impressão de que esta mulher não pensava muito em si própria. 
Pensei se ela teria receio de se sentar de costas para a porta, pois recusara a minha sugestão de se 
sentar na cadeira reclinável, normalmente usada pelos doentes. 
Apesar de termos passado pouco tempo juntas naquela primeira sessão, Elizabeth conseguiu 
comunicar-me a sua imperativa e desesperada necessidade de ajuda. Tal como disse: «Tem de dar 
resultado!» Especificou dizendo que o controlo do peso era a sua maior preocupação. «Toda a minha vida 
fui gorda. Já quando andava no terceiro ano parecia uma abóbora com uma bola em cima.» Desenhou a 
forma com as mãos. Ambas fomos obrigadas a rir. (Boa disposição \u2014 um bom sinal.) Com 112 kg a 
princípio, lutara com a sua gordura durante os últimos dois anos até conseguir perder 38 kg. Mas agora os 
quilos e os centímetros começavam a reaparecer lentamente. 
Chris, o seu marido, preferia que ela fosse magra, o que complicava o problema. Descreveu uma 
alimentação bastante comum e impulsiva \u2014 acordar de manhã decidida e depois ser incapaz de resistir a 
comer duas fatias de pão com manteiga de amendoim e compota com um enorme copo de leite, como 
almoço, seguido do remorso de estar «fraca». Nesses raros momentos em que pensava que se deveria 
sentir bem consigo mesma tinha de fazer qualquer coisa para contrariar os seus sentimentos positivos: «É 
inútil! Não tenho fome, para que vou comer aquilo? Mas outra parte de mim mesma diz: \u2018Cala-te e come!'» 
Assim, se perdia alguns quilos, era certo que fazia uma «comilança» ou cedia a um irresistível gelado, 
quente e frio. Fazer dieta tornava-se então para si numa forma de castigo e sentia-se melhor. Um ciclo 
vicioso e prejudicial! O mesmo padrão surgia em outras áreas da sua vida \u2014 gastar dinheiro, envolver-se 
em projectos, em acções. 
Cobrindo a boca com as mãos, como para esconder as palavras \u2014 e os pensamentos \u2014, aflorou 
com hesitação e mágoa os seus verdadeiros problemas. Aqueles com os quais tinha lutado toda a sua vida. 
Com um olhar desesperado contou que estava rodeada de receios das alturas, das cobras, de sardões, de 
aranhas, de «tudo!». Para além disto estivera imobilizada durante anos, por causa de profundas 
depressões. «Vivo à custa de antidepressivos. Sempre fui melancólica», murmurou. «Toda a minha vida tive 
um sentimento de culpa ... e não sei do que sou culpada. Por isso, procuro razões.» Apertou os punhos com 
força enquanto atirou cá para fora todas as coisas que costumava usar para se sacrificar. Até o facto de vir 
pedir ajuda era uma forma de autopunição. Ter de gastar tanto dinheiro consigo! Ao contar o seu passado 
delineou um esquema de depressões extremamente periódicas. Há vários anos atrás caíra numa depressão 
muito profunda que se arrastara por três anos. Durante esses anos deixava-se ficar sentada, horas sem fim 
\u2014 e o resto do tempo ocupava-o a ler, na cama. A mais pequena tarefa, era para ela um enorme 
empreendimento, que a deixava exausta. Agora sentia-se deslizar para o mesmo esquema e isso 
assustava-a. «É uma batalha constante», suspirou ela. Relatou que durante a depressão se lembrava de 
chorar muito. Nessa altura, o seu principal receio era suicidar-se durante o sono. O marido escondia 
periodicamente todas as facas e lâminas de barbear. Nunca fizera uma tentativa aberta para se autodestruir 
mas, de formas pouco subtis, tentara fazer com que a sua vida terminasse prematuramente. Uma úlcera 
sangrara durante meses. Quando recuperou, arranjou outra doença grave, um problema de tiróide, e depois 
outra e outra. 
Durante anos consultara psiquiatras que lhe receitaram antidepressivos e tranquilizantes. Havia 
terapeutas que «não falavam. Foi uma experiência longa e horrorosa! Um parou mesmo com toda a minha 
medicação, até os antidepressivos. E mesmo assim não falava comigo \u2014 só dizia `Hmmmm'». Mais de uma 
vez os seus médicos lhe recomendaram internamento imediato. Ela recusou. Com um ar desesperado 
admitiu: «Não sei porque tinha tanto medo de ir para o hospital. Obriguei o meu marido a assinar uma 
declaração em que dizia que nunca \u2014 nem que eu estivesse muito mal \u2014 permitiria que me internassem.» 
Antes de vir ter comigo para tratamento, o marido pediu-lhe para fazer um exame no serviço de psiquiatria 
do hospital local. Apenas por um dia! «A nossa companhia de seguros pagar-nos-ia oitenta por cento. Eu 
não conseguia pensar sequer em ficar ali vinte e quatro horas.» Acabada a sua «confissão» calou-se e 
olhou para mim com um ar suplicante. 
Perguntei-lhe porque se decidira a vir ter comigo. Respondeu imediatamente: «Li um artigo no jornal 
acerca do seu trabalho. Desconfio que estas ansiedades provêm de vidas passadas. Não há nada nesta 
vida que possa ter causado toda esta angústia.» 
No nosso encontro seguinte, Elizabeth explicou o que eram «aquelas ansiedades». Começou por 
confessar que na semana anterior sentira uma grande «onda de culpa» por se ter atrasado para a consulta. 
«Não permito a mim mesma nenhum erro.» Além da culpa, qualquer erro, mesmo que muito pequeno, 
provocava-lhe ansiedade. Encolhendo os ombros continuou, dizendo que não aguentava ver nada que 
fosse violento ou destrutivo. «Terror, abuso ou mau uso das pessoas, assusta-me.» Ficava revoltada com a 
visão da mais pequena gota de sangue. Se um dos seus três filhos se feria e sangrava, mesmo por causa 
de um pequeno arranhão, ela «descontrolava-se»; sentia as mesmas dores que ele. Não conseguiu ver o 
nascimento dos seus filhos, mesmo após ter optado por partos normais. Por causa do sangue, insistiu com 
a enfermeira para que tapasse o espelho com uma toalha. Escolhia cuidadosamente filmes não violentos. 
Percorria as revistas e os anúncios, para se certificar de que os podia suportar. Falava com os amigos, 
antes de se aventurar a ir a um espectáculo. Mesmo assim, nem sempre as coisas lhe corriam bem. Teve 
de sair muitas vezes à pressa, 
quase a vomitar. «Tenho de ler os livros de mistério aos poucos», explicou. «Vi uma operação na 
televisão e senti as dores do doente. Torno-me tão sentimental. Choro em espectáculos de mímica.» 
Mas, de longe, a mais traumatizante de todas as suas ansiedades era o terror de chegar a casa e 
encontrar os seus filhos magoados. Agora que todos eram adolescentes e já tinham passado a idade de 
precisarem de uma baby-sitter ainda se sentia mais ansiosa. Cada saída era uma ocasião dolorosa. Ao 
voltar a casa, das raras saídas que se permitia, insistia em que o marido fosse ver as crianças. Ela 
conservava-se no carro, «verdadeiramente tensa e assustada». Só depois de ele lhe assegurar que 
estavam bem é que ela conseguia entrar também. Quando lhe perguntei, directamente, que imaginava que 
pudesse ter acontecido, ela mordeu a mão e torceu a cara. «Alguém entrará em casa \u2014 matará as crianças 
durante a noite. Sempre com uma faca. Sempre horrível!» A sua preocupação exagerada com os filhos 
estendia-se a todos os aspectos das suas vidas. Preocupava-se se estavam perto de um corrimão. 
Preocupava-se se um deles se atrasava mais de dez minutos a chegar a casa. Tinha medo que eles se 
tivessem magoado, perdido, que não se sentissem bem ou que não tivessem amigos \u2014 e por aí adiante. 
«Tenho medo que os miúdos puxem por facas. Não quero que eles lutem. Mas não lhes consigo meter isso 
na cabeça.» Torceu as mãos. «E a eterna culpa! Não consigo dizer-lhes `não' a nada!» 
Antes de a sessão terminar, tentei ensinar a Elizabeth a autohipnose. Sugeri-lhe que fechasse os 
olhos e se concentrasse na sua respiração. Em vez disso sentou-se muito direita. Com os olhos bem 
abertos disse: «Estou mesmo preocupada com o que possa vir a descobrir. Talvez tenha razões para me 
sentir culpada \u2014 qualquer