Edith Fiore   Já Vivemos Antes
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Edith Fiore Já Vivemos Antes


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importância. «Nunca senti que 
alguém me levasse a sério. As pessoas não me ouvem, porque tenho a voz de uma menina.» Sorrindo 
ligeiramente, relatou vários incidentes que ilustravam esta afirmação. Uma vez, quando mandava um 
telegrama, a telefonista deu-lhe os parabéns «por uma menina tão pequenina se ter desembaraçado tão 
bem». Várias vezes a telefonista tinha pedido para falar com alguém mais velho, que pudesse autorizar uma 
chamada a pagar. Apesar de rir, ao recordar estes acontecimentos, o seu riso tinha uma nota de pesar \u2014 
uma sensação de mediocridade e frustração. 
Outro problema que surgiu durante o nosso trabalho em conjunto foi a revolta de Maria. Tornou-se 
cada vez mais visível, à medida que ela lutava para se manter no programa de dieta e meditação que 
estabelecêramos durante a nossa primeira sessão. A revolta parecia também incompatível com o seu 
carácter. Não se coadunava com a responsabilidade com que desempenhava o seu trabalho com as 
pessoas \u2014 com a sua inteligência e maturidade superiores. Tal como ela disse: «Tudo anda em conflito; o 
peso que quero atingir, o problema que quero resolver; o relaxamento que quero aprender, pela medi­
tação.» Pensei nestas duas discrepâncias: a voz infantil e a sua revolta. Tomei-as como coisas que 
poderíamos entender através do nosso trabalho hipnótico. 
Durante uma das nossas sessões, sob hipnose, o subconsciente de Maria indicou que os seus 
problemas em relação ao sexo se tinham originado num acontecimento de uma vida passada. O local 
parecia a Arábia. Fi-la recuar até esse acontecimento. 
Dr.ª F. \u2014 Que lhe está a suceder? 
M. \u2014 [Silêncio. Abana a cabeça em sinal de negação.] 
Dr.ª F. \u2014 Está a dizer «não» com a cabeça? 
M. \u2014 Não gosto do que vejo. [A sua voz torna-se ainda mais infantil.] 
Dr.ª F. \u2014 Diga o que lhe vier à cabeça. 
M. \u2014 Pertenço a alguém. 
Dr.ª F. \u2014 Sim? 
M. \u2014 Trouxeram-me para um sala. Havia lá muitos homens. Oh! Não quero fazer isto! [Lágrimas 
começavam a formar-se.] 
Dr.ª F. \u2014 Sabe quem é?
M. [Chorando.] \u2014É quase como se não fosse ninguém. 
Dr.ª F. \u2014 Aproximadamente, que idade tem? 
M. \u2014 Nove anos. 
Dr.ª F. \u2014 Qual é o seu nome? 
M. \u2014 Phillepa. 
Dr.ª F. \u2014 Qual é o seu país, Phillepa? 
M. \u2014 Não percebo o que quer dizer «país». 
Dr.ª F. \u2014Não faz mal. Diga-me o que se está a passar, Phillepa. Quem a levou para a sala? 
M. \u2014 Mandaram-me para ali. 
Dr.ª F. \u2014 Foi sozinha? 
M. [Acena em sinal afirmativo.] 
Dr.ª F. \u2014 Que a mandou? 
M. \u2014 Aquele que é meu dono. 
Dr.ª F. \u2014 Quem é? 
M. \u2014 Um homem feio. 
Dr.ª F \u2014 F os outros homens. são amigos dele? 
M. \u2014 Não ... não! Não são amigos. São apenas homens. Acho que são comerciantes ... ele é um 
comerciante qualquer. Não sei o que faz. 
Dr.ª F. \u2014 Quantos são? 
M. [Olhando em volta.] \u2014 Onze. 
Dr.ª F. \u2014 Sabe o que vai acontecer? 
M. \u2014 Já não é a primeira vez. [Ficando preocupada.] 
Dr.ª F. \u2014 Que se passa? 
M. [Silêncio.] 
Dr.ª F. \u2014 Conte-me o que se passa. 
M. [Murmurando.] \u2014Não quero saber. 
Dr.ª F. \u2014 Fique calma e relaxada. Vou contar até cinco. Depois de cada número, sentir-se-á mais 
relaxada. Um ... dois ... três ... quatro ... cinco. 
M. [Pausa longa.] \u2014 Tenho pressentimentos ... e penso coisas ... mas toda a gente age como se eu 
não o fizesse, como se eu não ... apenas pertenço a alguém ... e eles podem mandar-me aqui, podem 
mandar-me ali, «Faça isto, faça aquilo» ... Eles não acreditam que eu tenho direitos. Mas eu acredito. 
Dr.ª F. \u2014 Você sabe que tem direitos, mas eles não. 
M. \u2014 Eles dizem que não.
Dr.ª F. \u2014 Quem são eles?
M. \u2014 Todas estas pessoas. Aquele a quem eu pertenço e as pessoas que vieram ... até agem como 
se eu não existisse \u2014 sou uma coisa. 
Dr.ª F. \u2014 Que tipo de tarefas tem de fazer? Faz trabalhos de casa e coisas desse género? 
M. \u2014 Não é isso. Não é isso que é mau. É a parte sexual, que é má ... eu podia morrer que eles não 
se importavam. 
Dr.ª F. \u2014 Não representa nada para eles? 
M. \u2014 Nasci ... eles não se importam. 
Dr.ª F. \u2014 Como é que este homem conseguiu ser seu dono? Onde estão os seus pais? 
M. \u2014 Não me lembro. Estou ali. 
Dr.ª F. \u2014 É na realidade a parte sexual que a preocupa e não o trabalho da casa, não é?
M. \u2014 Não faço muito trabalho de casa. 
Dr.ª F. \u2014 Que faz, normalmente? 
M. \u2014 Levanto-me de manhã e desço para ir buscar qualquer coisa para comer ... não há 
aquecimento, a casa está sempre fria, chão de pedra ... não esperam que eu faça nada, só me dizem para 
sair da sua frente. 
Dr.ª F. \u2014 Quem lhe diz isso? 
M. \u2014 As mulheres que estão a cozinhar. 
Dr.ª F. \u2014 Elas sabem que se servem de si no aspecto sexual? 
M. \u2014 Hum-humm. É para isso que ali estou. 
Dr.ª F. \u2014 É costume, na sua aldeia? 
M. \u2014 Não sei o que quer dizer «costume». 
Dr.ª F. \u2014 Há quanto tempo se servem de si, deste modo? 
M. \u2014 Há muito tempo. 
Dr.ª F. \u2014 Há muitos anos?
M. \u2014 Não sei o que são «anos», mas há muito tempo. 
Dr.ª F. \u2014 Já ali estava quando era pequena? 
M. \u2014 Não me lembro de outro lugar. 
Dr.ª F. \u2014 Agora está pronta para ir para aquela sala e para me contar o que se passa? 
M. [Longo silêncio.] 
Dr.ª F. \u2014É muitíssimo importante que torne a viver este acontecimento, apesar de não ser agradável. 
Saber libertá-la-á. E agora quero que entre na sala e que me conte o que se passa. 
M. [Longo silêncio.] 
Dr.ª F. \u2014 Que se passa? 
M. \u2014 Sei o que hei-de fazer. 
Dr.ª F. \u2014 E o que é? 
M. \u2014 Há muitos sentimentos. 
Dr.ª F. \u2014 Que sentimentos são? 
M. \u2014 É ... é excitante ... [o seu rosto anima-se] ... e é doloroso ... [franzindo a testa] ... mas sinto 
qualquer coisa, mas que ao mesmo tempo faz com que me sinta mal ... é que eu não sou real, para eles. 
Dr.ª F. \u2014 Conte-me mais. 
M. \u2014 Não compreendo bem ... devo dizer-lhe? [Chorando.] 
Dr.ª F. \u2014 Acho que a ajudaria muito. 
M. \u2014 É terrível! 
Dr.ª F. \u2014 Tenho a certeza que sim. 
M. [Soluçando.] \u2014 Acho que você não quer saber. 
Dr.ª F. \u2014 Quero ajudá-la. Acho que o facto de saber isso a ajudará muitíssimo. 
M. \u2014 Então vou contar. [Tentando limpar as lágrimas.] Vou junto a cada um dos homens, foi o que 
eles me ensinaram a fazer. [Começava a soluçar de novo.] 
Dr.ª F. \u2014 Ensinaram-na a ir junto a cada um dos homens ... 
M. \u2014 É como se fosse uma saudação; e eu saúdo-os. 
Dr.ª F. \u2014 De que modo? 
M. \u2014 Eles acham tão divertido. [Com desprezo estampado na cara.]
Dr.ª F. \u2014 Eles estão vestidos? 
M. \u2014Sim. 
Dr.ª F. \u2014 Você também está vestida?
M. \u2014 Tenho uma túnica branca, que visto especialmente para isto. Não uso nada por baixo. Vou junto 
a cada um dos homens e dispo-os, não totalmente e ... então ... [baixando a voz] ... eles chamam a isso 
beijar! Acham que é tão divertido! 
Dr.ª F. \u2014 Quais são os seus sentimentos, a respeito do que tem de fazer? 
M. \u2014 Tenho nisso um certo prazer, mas não do modo a que me obrigam a fazê-lo. 
Dr.ª F. \u2014 Que pretende dizer com isso? 
M. \u2014 Não me importo de fazer aquilo, mas eles não vêem que eu sou uma pessoa ... não se 
importam com o que eu sinto. Por isso, enquanto estou ... estou assustada ... estou furiosa com eles, mas 
sinto-me mal. O que sinto é também raiva ... [alegrando-se] ... sabe, acho que sei que não sou obrigada a 
fazer isto. Eles dizem-me para o fazer, mas não sou obrigada a fazer isto e, por isso, faço-o porque quero. 
[Voz cheia de espanto.] 
Dr.ª F. \u2014 Foi educada assim e foi treinada para fazer isto, não é verdade? Esta é também uma 
maneira de lhe prestarem atenção. Já alguma vez tinha pensado nisto? 
M. \u2014 Não. 
Dr.ª F. \u2014 Prestam-lhe atenção, noutras circunstâncias? 
M. \u2014 Só me dizem para não atrapalhar ... até me mandarem chamar. 
Dr.ª F. \u2014 O seu dono também aqui está, com os outros homens? 
M. \u2014 Hum-humm. E, durante todo o tempo que faço isto, penso neles ... e penso que gosto disto, 
eles não sabem que eu gosto, e por isso ... é quase como se eu os andasse a enganar