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DisciplinaBotânica Geral329 materiais12.947 seguidores
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de extinção, ao aumento 
das ameaças e à limitação de recursos, é preciso também 
priorizar a avaliação de grupos de espécies possivelmen-
te mais ameaçadas. As listas vermelhas destacam espécies 
que necessitam de atenção especial em função da sua 
raridade e/ou do rápido declínio de suas populações 
(Fivaz & Gonseth, 2014). Nesse sentido, as espécies ra-
ras devem ser frequentemente tratadas como alvos de 
conservação em vista de sua distribuição restrita, escas-
sez e especificidade de hábitat (Rabinowitz et al., 1986; 
Magurran & Henderson, 2011). Esses atributos comuns 
entre espécies raras as tornam altamente vulneráveis à 
estocasticidade demográfica (Hercos et al., 2012) e a 
ameaças antrópicas como sobreexploração, perda de há-
bitat, invasão de espécies exóticas e mudanças climáticas 
(Mouillot et al., 2013).
Antes de assumir o desafio de conservar espécies ra-
ras, é preciso considerar que o termo raridade, apesar 
de amplamente usado, pode ter significados diferentes 
dependendo do contexto e se basear em atributos dis-
tintos (Magurran & Henderson, 2011). Muito usado, 
o conceito de raridade de Kruckeberg e Rabinowitz 
(1985) define raridade segundo três parâmetros: distri-
buição geográfica, afinidade e especificidade de hábitat 
e densidade local, de forma que uma espécie só pode 
ser comum se os três parâmetros forem altos (ampla dis-
tribuição, afinidade por diversos hábitats e localmente 
densa). Ainda assim, determinar raridade não é uma ta-
refa simples, o que se deve principalmente à deficiência 
26 | Livro vermelho da flora do Brasil \u2013 Plantas raras do Cerrado
de dados relacionados às espécies (Rapini et al., 2009). 
Estima-se que cerca de 20% das espécies de plantas no 
mundo apresentem deficiência de dados populacionais, 
ecológicos e de distribuição (Callamander et al., 2005). 
No Brasil, um dos trabalhos mais abrangentes sobre 
espécies raras foi publicado por Giulietti et al. (2009), 
considerando raridade unicamente segundo o parâme-
tro de distribuição geográfica¹ com base na extensão de 
ocorrência da espécie, cujos autores defendem como o 
critério mais objetivo diante da atual lacuna no conhe-
cimento da flora brasileira (Giulietti et al., 2009). 
Especialmente quando associada a impactos am-
bientais, a raridade de uma espécie implica um ris-
co de extinção concreto. Embora espécies raras sejam 
particularmente vulneráveis à extinção, quando ocor-
rem em locais não impactados e/ou são abundantes 
mesmo que pontualmente, podem não estar sob risco 
de extinção. Ademais, espécies localmente abundantes 
quando em ambientes severamente impactados ten-
dem à extinção iminente (Magurran & Henderson, 
2011; Fattorini, 2013). Como consequência do histó-
rico de exploração de recursos naturais e uso do solo 
no Brasil, o país apresenta ecossistemas considerados 
prioritários para a conservação como a Mata Atlânti-
ca e o Cerrado, devido ao seu alto grau de endemis-
mos e de ameaças (Myers et al., 2000). Nesse caso, o 
Cerrado, com uma área aproximada de 2 milhões km² 
(ca. 21% do território nacional), é o segundo maior 
Domínio Fitogeográfico do Brasil depois da Amazônia 
(Ratter et al., 1997), abrigando mais de 12.000 espé-
cies de plantas (Lista de espécies da flora do Brasil, 2014), 
das quais 44% ocorrem exclusivamente no Cerrado 
(endêmicas), sendo assim a mais diversificada savana 
tropical do mundo (Klink & Machado, 2005). Ape-
sar de relativamente recente, a destruição do Cerrado 
aconteceu em um ritmo acelerado, com a destruição 
da maior parte de sua área entre o início da década de 
1960 e o final do século (Biota, 2008). Em 2002, cerca 
de 880.000 km² de Cerrado haviam sido desmatados 
ou transformados pela ação humana (Machado et al., 
2004), o que equivale a quase três vezes a área desma-
tada da Amazônia no Brasil, no mesmo período (Klink 
& Machado, 2005). As taxas de desmatamento no Cer-
rado, que variam de 22.000 km2 a 30.000 km² por ano 
(Machado et al., 2004), permanecem superiores àque-
las da Amazônia, apesar de maior foco e publicidade 
serem dados para a conservação da floresta (Klink & 
Machado, 2005). Portanto, devido à alta riqueza de es-
pécies, à elevada taxa de endemismo e à alta incidência 
de ameaças, o Cerrado é considerado um hotspot mun-
dial de biodiversidade (Myers et al., 2000), devendo 
ser tratado como prioritário em ações de conservação.
Frente aos desafios de conservar espécies ameaçadas 
em função da destruição paulatina dos seus hábitats, o 
objetivo desta obra foi avaliar o risco de extinção de es-
pécies citadas em Giulietti et al. (2009), e de ocorrência 
no bioma Cerrado. Assim, a partir da avaliação do risco 
de extinção das plantas raras do Cerrado pretende-se 
subsidiar estratégias para o direcionamento, dos limita-
dos recursos disponíveis, de estratégias conservacionistas 
voltadas as espécies mais suscetíveis à extinção iminente, 
tendo em vista a alta biodiversidade presente no Cerra-
do, face as intensas ameaças de origem antrópica e em 
diferentes contextos socioeconômicos.
Metodologia
o CNCFlora estabeleceu como prioridade du-rante o ano de 2014, as avaliações do risco de extinção das espécies consideradas raras e 
de ocorrência no Cerrado. Dois fatores discutidos an-
teriormente, raridade e Cerrado, foram vistos como 
prioridades a fim de expandir o conhecimento sobre as 
espécies raras do Brasil (Giulietti et al., 2009) e o atual 
estado de conservação das espécies do Cerrado.
o sistema de informações (SISFlora) e as ferramen-
tas utilizadas estão presentes no portal do CNCFlora 
(http://cncflora.jbrj.gov.br/portal/), e dão apoio aos 
especialistas botânicos, avaliadores do risco de extinção 
e tomadores de decisão durante a produção de listas 
vermelhas. o sistema atende ao fluxo de trabalho do 
CNCFlora (Figura 1) possibilitando a integração de es-
forços e a contribuição de especialistas botânicos em 
nível nacional e internacional. Dessa forma, dados le-
vantados pela equipe do CNCFlora são discutidos com 
os especialistas de maneira dinâmica, sendo a contri-
buição destes o que garante maior confiabilidade aos 
dados utilizados e a evolução constante das ferramentas 
elaboradas.
Ao definir as espécies a serem avaliadas no recorte 
\u201cplantas raras do Cerrado\u201d, foi realizada uma consoli-
dação taxonômica, ou seja, uma verificação da validade 
do nome científico de cada espécie e de seus respectivos 
sinônimos, baseada na Lista de espécies da flora do Brasil 
(2013).
Em seguida, foi realizada a etapa de Análise de Sis-
tema de Informações Geográficas \u2013 SIG. Nessa etapa 
foram compilados os registros de coleta das espécies por 
meio de upload das principais bases de dados de co-
leções botânicas disponíveis em formato digital, como 
as bases do Global Biodiversity Information Facility \u2013 
GBIF, Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janei-
1. Giulietti et al. (2009) consideram raras apenas espécies 
com distribuição pontual, ou seja, com registros até 150 km 
distantes entre si, o equivalente a cerca de 1º de latitude e 1º de 
longitude de diferença entre eles, o que corresponde a uma área 
de ocorrência de até 10.000 km². Esse limite foi estabelecido 
de maneira arbitrária, visando uma detecção prática e objetiva 
das espécies raras.
Livro vermelho da flora do Brasil \u2013 Plantas raras do Cerrado | 27 
ro \u2013 Jabot, e as bases de dados disponíveis no portal 
SpeciesLink (http://www.splink.org.br/) do Centro 
de Referência em Informação Ambiental \u2013 Cria. os 
registros que não apresentavam georreferência, foram 
georreferenciados considerando-se as localidades de 
ocorrência de acordo com as informações disponíveis 
na ficha de coleta, procurando o maior grau de precisão 
possível. os registros foram espacializados em um mapa 
interativo e disponibilizados com a ficha da espécie. Para 
referenciar as informações advindas desses registros de