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(Martinelli & 
Moraes, 2013). É preciso reconhecer que até a última 
década, houve um progresso substancial com relação à 
expansão da rede mundial de áreas de proteção, sen-
do o Brasil um dos países que mais avançou recente-
mente, criando a maior parte dessas áreas nesse período 
(Scarano et al., 2012; Bertzky et al., 2012). É necessário 
destacar que uma das mais importantes medidas deve 
ser o direcionamento das decisões relativas aos locais 
de criação com base no conhecimento científico e o 
desenvolvimento de mecanismos para estabelecimento 
de prioridades, incluindo espécies em risco de extin-
ção como indicadores-chave (Brooks et al., 2006). Assim 
sendo, as avaliações de risco de extinção e elaboração 
de listas vermelhas podem ajudar no direcionamento 
de estratégias em face da falta de conhecimento taxo-
nômico, ecológico e populacional, frequentemente uti-
lizado para justificar dificuldades na conduta de estudos 
de biodiversidade, bem como na definição de planos de 
conservação (Canhos et al., 2014). Além disso, é preciso 
estabelecer uma relação mais próxima com os gestores 
das UCs objetivando colaborar para o estabelecimento 
na prática de ações de conservação específicas para as 
espécies ameaçadas da área, como por exemplo a inclu-
são de planos de ação em planos de manejo.
Quais as principais ameaças e em que proporção 
estão associadas às plantas raras do Cerrado?
As principais ameaças registradas nas avaliações de risco 
de extinção das plantas raras do Cerrado refletiram a 
evolução da ocupação histórica do Cerrado brasileiro. 
A incidência das ameaças envolve de maneira geral a 
atividade mineradora e posterior expansão da fronteira 
agrícola, e outras ameaças relacionadas a essas atividades, 
como por exemplo os incêndios antrópicos, utilizados 
principalmente para o manejo do solo, e a consequente 
invasão de espécies exóticas. A exploração do Cerrado 
iniciou-se no século XVIII, com a busca por ouro e 
pedras preciosas abrindo as primeiras rotas de estradas 
e ferrovias na região (da Fonseca et al., 1999). Tais rotas 
possibilitaram o estabelecimento da pecuária extensi-
va em pastagens naturais, que permaneceu a principal 
atividade econômica até meados da década de 1950, e 
representou o primeiro grande impacto no ecossistema 
do Cerrado (da Fonseca et al., 1999). Mudanças drás-
ticas aconteceram em meados da década de 1950 com 
a criação de Brasília e o desenvolvimento rodoviário, 
decorrente do plano de governo para estimular o cres-
cimento no interior do país (da Fonseca et al., 1999). Tal 
desenvolvimento deu lugar a megaempreendimentos 
no ramo da agricultura, e o Cerrado se tornou a nova 
fronteira agrícola do Brasil. Com isso, extensas áreas fo-
ram invadidas por pastagens plantadas e lavouras, princi-
palmente de soja, milho e arroz (da Fonseca et al., 1999). 
Aproximadamente metade da área original do Cerra-
do foi transformada em pastagens plantadas e culturas 
anuais (Klink & Machado, 2005). A mudança de uso e 
cobertura do solo causam impacto não só por conta da 
substituição da vegetação, mas também pelo uso exces-
sivo de fertilizantes e outros químicos para compensar a 
deficiência de nutrientes e minerais e a acidez do solo 
(Muller, 2003), além da contaminação de rios e córregos 
(Klink & Machado, 2005). Também, a mudança no uso 
do solo pela incorporação de pastagens plantadas é uma 
grande ameaça à vegetação nativa do Cerrado devido às 
suas práticas inadequadas de manejo (Klink & Macha-
do, 2005). Para a formação dessas pastagens, a vegetação 
é removida com o auxílio do fogo e, em seguida, são 
semeadas gramíneas de origem africana. Tais gramíneas 
competem com espécies nativas por água e nutrientes e 
proliferam com sucesso em áreas perturbadas, em beiras 
de estradas, plantações abandonadas e áreas de proteção 
ambiental (ziller, 2001). São responsáveis pelo aumento 
da biomassa e, quando secas, são altamente inflamáveis, 
causando alteração no regime natural de queimadas 
desses ambientes (D\u2019Antonio & Vitousek, 1992; Pivello, 
2011). Apesar do fogo fazer parte da dinâmica dos ecos-
sistemas de Cerrado, incêndios em áreas dominadas por 
essas gramíneas são mais quentes e prolongados, e pro-
vocam chamas mais altas, que podem alcançar o dossel 
das árvores, alterar o processo de sucessão da vegetação, 
modificar a fauna do solo e comprometer o estabele-
cimento de árvores e arbustos (D\u2019Antonio & Vitousek, 
1992; Klink & Machado, 2005). Além disso, mais recen-
temente o turismo vem aumentando significativamente 
em áreas de Cerrado. Entretanto, a falta de estrutura e 
ordenação das atividades mesmo em Unidades de Con-
servação é apontada como ameaça às espécies devido 
ao pisoteio, uso de veículos, aumento da frequência de 
incêndios e acúmulo de lixo (Machado, 2008; Pinto, 
2008).
Conclusões
Em 2014, com o avanço do conhecimento e das discussões sobre a política de conservação, o Ministério do Meio Ambiente \u2013 MMA, insti-
tuiu o Programa Nacional de Conservação das Espé-
cies Ameaçadas de Extinção (Pró-Espécies) por meio 
da Portaria MMA N° 43 (MMA, 2014). Esse progra-
ma foi criado especificamente para espécies ameaçadas, 
considerando a adoção de ações de prevenção, conser-
vação, manejo e gestão, com vista a minimizar as amea-
ças e o risco de extinção de espécies (MMA, 2014). 
Como evolução, o Pró-Espécies estabelece, oficial-
mente, regras para as avaliações de risco, exigindo que 
as novas listas oficiais de espécies ameaçadas do Brasil, 
atendam aos padrões internacionalmente reconhecidos, 
como as categorias e os critérios de avaliação de risco 
de extinção da IUCN e que, com base nessa avaliação, 
sejam desenvolvidos planos de ação para a conservação 
Livro vermelho da flora do Brasil \u2013 Plantas raras do Cerrado | 33 
das espécies ameaçadas (MMA, 2014). Por meio dessa 
portaria, o CNCFlora, que já vinha realizando avalia-
ções de risco com base na metodologia da IUCN des-
de sua criação, foi designado, no âmbito do JBRJ, como 
responsável pela avaliação de risco e planejamento de 
ações de conservação das espécies da flora do país, além 
da elaboração e atualização periódica das listas nacio-
nais oficiais de espécies ameaçadas. Assim, diante dos 
resultados mais recentes alcançados pelo CNCFlora, a 
partir das avaliações do risco de extinção da flora bra-
sileira, concluímos que o Brasil caminhou no alcance 
das metas estabelecidas pela GSPC, porém, ainda tem 
um grande desafio pela frente, que envolve não só a 
avaliação de risco de toda a flora, mas também o inves-
timento de recursos para o desenvolvimento de ações 
para conservação dessas espécies e criação de áreas pro-
tegidas que garantam efetivamente a conservação das 
populações de espécies ameaçadas e raras.
Apesar do atual reconhecimento da conservação dos 
recursos vegetais como um dos pilares fundamentais 
para a manutenção da biodiversidade e existência hu-
mana, a conservação de plantas ainda precisa avançar em 
relação à magnitude da questão (Wyse Jackson & Ken-
nedy, 2009), à garantia de investimentos a longo prazo 
(Rondini et al., 2014) e a uma estratégia pragmática para 
ampliação da escala de avaliação de risco. 
Ainda que a Estratégia Global para Conservação de 
Plantas \u2013 GSPC, seja um bom plano norteador para con-
ter a crise e a extinção de espécies, é preciso ressaltar a 
necessidade de adequação das metas à realidade de cada 
país em relação à dimensão da diversidade de espécies e 
aos níveis de desenvolvimento socio-econômicos. Além 
disso, apesar da função da GSPC de medir o progresso 
no alcance de um conjunto de metas e alinhar programas 
de governo e iniciativas empreendidas por diversas orga-
nizações a partir da integração de iniciativas nacionais e 
internacionais (Wyse Jackson & Kennedy, 2009), ainda é 
preciso criar uma via ou dispositivo para estabelecimento 
de fundos de captação de