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oxford United Press.
Pôr do sol na Estação Ecológica de Itirapina, SP (Foto: 
Fernanda Tibério)Fernanda Tibério)
Livro vermelho da flora do Brasil \u2013 Plantas raras do Cerrado | 21 
Capítulo 2
o bioma Cerrado: conservação e ameaças
Chapter 2
The Biome Cerrado: Conservation and Threats 
Fab i o R . S carano,1,2 Paula C e ot to,1 Rodr i g o M e de i ro s ,1,3 
Ru s s e l l A . M i t te rm e i e r 1
Introdução
o Cerrado é uma savana neotropical que ocupa cerca de 2 milhões de km2, ou 22% do território brasileiro, e se situa no coração da América do 
Sul. Em extensão, entre os biomas brasileiros, o Cerrado 
fica atrás apenas da Amazônia e ocorre nos estados de São 
Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do 
Sul, Tocantins, Bahia, Maranhão, Piauí e Distrito Federal. 
Além disso, incorpora ainda partes do território de países 
vizinhos como Bolívia e Paraguai (Cavalcanti et al., 2012). 
Esse bioma, que abriga diversidade biológica comparável 
às florestas úmidas como a Amazônica e a Atlântica, tem 
sofrido intensa degradação de seus hábitats e é, portan-
to, considerado um dos 35 hotspots de biodiversidade do 
mundo (Mittermeier et al., 2011). Contam-se mais de 
12.070 espécies conhecidas da sua flora (Lista de espé-
cies da flora do Brasil, 2014), das quais 44% endêmicas 
(Scariot et al., 2005). Da flora do Cerrado, 645 espécies 
encontram-se ameaçadas de extinção, o que representa 
mais de 30% das espécies presentes na lista vermelha do 
Brasil (Martinelli & Moraes, 2013). Estima-se que quase 
a totalidade das ervas ou plantas herbáceas seja também 
exclusiva da região (Scariot et al., 2005). Quanto às aves, há 
856 espécies, cerca de metade da avifauna brasileira, sendo 
30 endêmicas. Entre os mamíferos, mais de 200 espécies, 
com 10% de exclusivismo; dentre os répteis, contam-se 
180 espécies, a metade do total brasileiro, e 17% de ende-
mismo (Cavalcanti et al., 2012). 
Uma característica essencial do Cerrado é que sua 
geografia proporciona penetração nos vizinhos Mata 
Atlântica, Amazônia e Caatinga, como artérias que 
permitem por vezes uma existência lado a lado entre 
fisionomias bastante distintas. os grandes tributários da 
margem direita do Amazonas, como o Tapajós, Xingu 
e Tocantins nascem e percorrem boa parte do seu cur-
so no Cerrado, e suas matas ribeirinhas atuam como 
corredores de conexão entre a planície amazônica e 
o planalto. Da mesma forma, as nascentes dos rios das 
bacias do Paraná e Paraguai se estendem até a área cen-
tral dos cerrados, permitindo a dispersão de espécies de 
Mata Atlântica ao longo desses cursos. As faunas e floras 
dos cerrados e da Caatinga se substituem nos exten-
sos sistemas da margem esquerda do rio São Francisco, 
onde as matas secas apresentam afinidades biogeográ-
ficas distintas (Cavalcanti et al., 2012). Ademais, dados 
da Embrapa Cerrados indicam que o bioma contribui 
com a vazão que flui em oito das 12 regiões hidro-
gráficas brasileiras definidas pela Agência Nacional das 
Águas, de forma que a importância do bioma para a 
manutenção dos recursos hídricos do país é de grande 
relevância (Lima, 2011).
Ameaças
o principal vetor de desmatamento na América Latina e no Brasil é a mudança de uso da terra causada principalmente pela agricultura 
(Magrin et al., 2014). Grande parte da expansão agrí-
cola ocorrida na última década deu-se sobre áreas de 
Cerrado, considerado a principal fronteira agrícola no 
país hoje. Além da perda de biodiversidade, o desmata-
mento é responsável também pela maior proporção da 
emissão de gases estufa no Brasil (Lapola et al., 2014). 
Uma vez que a biodiversidade é a guardiã de servi-
ços ambientais vitais para a própria agricultura, esse 
cenário é paradoxal e preocupante. Se considerarmos 
que o Brasil é globalmente importante para a segu-
rança alimentar \u2013 sendo hoje o segundo maior produ-
tor de alimentos do mundo \u2013 ameaças decorrentes de 
escassez de água, desaparecimento de polinizadores e 
mudanças climáticas irão afetar não só a biodiversidade 
em si, mas toda a economia dos habitantes do bioma, 
hoje fortemente centrada na agricultura. As projeções 
para as próximas quatro décadas indicam os maiores 
aumentos relativos na produção agrícola do país e, ao 
mesmo tempo, o novo Código Florestal, que dá a base 
da proteção ambiental para essa expansão, permitirá 
ainda mais desmatamento no Cerrado (Soares-Filho et 
al., 2014). 
1. Conservação Internacional | Conservation International
2. Universidade Federal do Rio de Janeiro
3. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
22 | Livro vermelho da flora do Brasil \u2013 Plantas raras do Cerrado
As mudanças climáticas, em parte relacionadas às 
mudanças de uso de terra já mencionadas, são outro 
grande fator de ameaça ao bioma. Projeções de distri-
buição de espécies de pássaros endêmicos (Marini et al., 
2009) e espécies de plantas (Siqueira & Peterson, 2003) 
sob cenários de mudanças climáticas indicam um des-
locamento em direção ao sul e sudeste do país, justa-
mente onde a fragmentação e a perda de hábitats se deu 
em maior grau. Além disso, no Cerrado (e na América 
Latina como um todo) a conservação da biodiversidade 
é em grande parte confinada a áreas protegidas (Heller 
& zavaleta, 2009). Com a magnitude das mudanças cli-
máticas projetadas para esse século é de se esperar que 
muitas espécies e tipos vegetacionais percam represen-
tatividade dentro dessas áreas protegidas. 
Conservação
A criação e implementação de áreas protegidas é ainda uma das principais ações empregadas para a conservação da biodiversidade (Chape et 
al., 2005). Apenas 11% da área de cobertura do bioma 
Cerrado se encontram no interior de áreas protegidas 
(Martinelli et al., 2013). Elas têm sido aparentemente efi-
cientes em conter o desmatamento do bioma, mas ainda 
faltam estudos que indiquem até que ponto a extensão, 
localização e conectividade dessas áreas podem ser re-
presentativas (Carranza et al., 2013; 2014). Se considerar-
mos que a meta lançada pela Convenção de Diversidade 
Biológica de proteger 17% da superfície terrestre até o 
ano 2020 (Mittermeier et al., 2010) idealmente deveria 
ser atingida em cada bioma brasileiro, o Cerrado teria 
um déficit de pelo menos 6% na extensão das suas áreas 
protegidas. Carranza et al. (2013) fazem referência ao 
fato de estar havendo um aumento nos investimentos 
em conservação no Cerrado e mencionam a Iniciativa 
Cerrado Sustentável e o Plano de Ação para Prevenção 
e Controle de Desmatamento e das Queimadas no 
Cerrado, que são os instrumentos existentes para permi-
tir o alcance da meta de redução da taxa de conversão 
do Cerrado em 40% até 2020 traçada pelo Ministério 
do Meio Ambiente (MMA, 2011). Entretanto, ainda que 
assim seja, de 2011 até agora em 2014, o Brasil criou 
poucas áreas protegidas federais no país como um todo 
e ainda reduziu a área de algumas (Scarano et al., 2012).
Além da importância dessa cobertura de áreas prote-
gidas para a conservação da biodiversidade, estudos re-
centes também têm demonstrando o importante papel 
dessas áreas para a economia nacional e o setor produ-
tivo. Medeiros et al. (2011), por exemplo, demonstraram 
que 80% dos recursos hídricos que alimentam a pro-
dução de energia hidroelétrica são oriundos de áreas 
protegidas. Pavese et al. (2012) descreveram os impactos 
negativos que a perda de biodiversidade gera e como 
uma reversão desse quadro pode representar um boa 
oportunidade para o setor de negócios no Brasil. 
Considerações finais
Apesar do reconhecimento da importância da biodiversidade e dos serviços ambientais para a economia brasileira, e do fato de se tratar de 
um bioma bem estudado do ponto de vista biológico 
e agrícola (oliveira & Marquis, 2002), o desmatamento 
do Cerrado continua. Essa dificuldade em transformar 
o conhecimento em ação parece fruto de hesitação