José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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que a Constituicao alberga como
urn de seus principios fundamentais. ~
64 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
A inovacao explicita consiste na ampliacao do ruicleo imodifi-
cavel par emendas, como consta do art. 60, § 4Q, que merecera consi-
deracao logo mais.
. Pelo citado art. 60, I, II e III, ve-se que ·a Constituicao podera ser
emendada por proposta de iniciatioa: (1) de urn terce, no minima, dos
mernbros da Camara dos Deputados au do Senado Federal; (2) do Pre-
sidente da Republica; (3) de rnais da metade das Assernbleias Legisla-
tivas das unidades da Federacao, manifestando-se cada uma delas,
pela maioria relativa de seus membros, retomando, aqui, uma regra
que vinha desde a Constituicao de 1891,5up.rimida pela de 1969, regra
. que nao teve uma unica aplicacao nesses cern anos de Republica; (4)
popular, ace ita a interpretacao sistematica referida acima, caso em que.
as percentagens previstas no § 2Q do art. 61 serao invocaveis, au seja, a
proposta de emenda tera que ser subscrita par, no minimo, urn por
cen-to do eleitorado nacional, distribuido pelo menos 'em cinco Esta-
dos, com nao menos de zero virgula tres par cento dos eleitores 'de
cada urn deles. Repita-se que esse tipo de iniciativa popular podevir a
ser aplicado com base em normas gerais e principios fundamentals da
Constituicao, mas ele nao esta especificamente estabelecido para emen-
das con~titucionaiscomo 0 esta para as leis (art. 61, § 2~).
A elaboracao de emendas aConstituicao e simples. Apresentada
a proposta, sera ela discutida e votada ern cada Casa do Congresso
Nacional, emdois iurnos, considerando-se aprovada quando obtiver,
em ambos, trie uuintos dos votos dos membros de cada uma delas (art.
60, § 2Q) . Veja-se que, diferentemente da Constituicao anterior, que pre-
via discussao e votacao da emenda em sessao conjunta das duas Ca-
sas, a Carta Magn~ vigeEte<.p~e~e q~e elas atuern..separadamente.
- ~ . Finalmente.uma vez aprovada, a emenda sera promulgada pelas
Mesas da Camara dos Deputados e do Senado Federal,' com 0 respec-
tivo numero de ordem. Acrescenta-se que a materia constante de pro-
posta de emenda rejeitada au havida par prejudicada nao podera ser
objeto de.nova proposta na mesma sessao legislativa (art. 60, § 5Q) .:.
22. Poder constituinte e poder reformador
A Constituicao, como se ve:~conferiu ao Congresso Nacional a com-
petencia para elaborar emendas a ela. Deu-se, assim.a urn orgao cons-
tiiuido 0 poder de emendar a Constituicao. Par isso se Ihe da a deno-
minacao de poder consiituinte insiituido ou constiiuido. Par outro lado,
como esse seu poder nao the pertence por natureza, primariamente,
mas, ao contrario, deriva de outro (isto e, do poder constituinte ori-
ginario), e que tambem se lhe reserva 0 nome de poder constituinte
derivado, embora pare<;amais acertado falar ern compeiencia constituin-
DA CONSTITUlc::Ao 65
te derivada au consiiiuinte de segundo grau: Trata-se de urn problema
de tecnica constitucional, ja que seria muito complicado ter que con-
vocar 0 constituinte originario todas as vezes em que fosse necessa-
. I
rio emendar a Constituicao. Pot isso, 9 proprio poder constituinte
orig~ario,ao estabelecer a Constituicao Federal, instituiu urn poder
constit'liil1te reformador, ou poder de reforma constitucional, ou poder de
enlenda constitucionaj.
No fundo, contudo, o agente, ou sujeito da reforma, e opoder
constituinte originario, que, por esse metoda, atua em segundo grau,
de modo indireto, pela outorga de competencia a urn orgao constitui-
do para, em seulugar, proceder as modificacoes na Constituicao, que
a realidade exige. Nesse sentido, cumpre lembrar, corn 0 Prof. Manoel
Concalves Ferreira Filho, que poder de reforma constitucional au, na.
sua terminologia, poder constituinte de revisao lie aquele poder, ine-
rente aConstituicao rigida que se destina a modificar essa Constitui-
c;ao segundo 0 que a mesrna estabelece. Na verdade, 0 Poder Consti-
tuinte de revisao visa, em ultima analise, permitir a mudanca da
Constituicao, adaptacao da Constituicao a novas necessidades, a
novos impulsos, a novas forcas, 'sem que para tanto seja precise re-
correr arevolucao, sem que sej.aprecise recorrer ao Poder Constituinte
originario&quot; .38_ - .---- ---
23. Limitaciies ao poder de reforma constitucional
Discute-se, em doutrina, sobre ·os limites do poder de reforma
constitucional, E inquestionavelmente urn poder limitado, porque
regrado por norrnas da propria Coristituicao que the impoem proce-
dimento e modo de agir, dos quais nao pode arredar sob rena de sua
obra sair viciada, ficando mesmo sujeita ao sistema de controle de
constitucionalidade. Esse tipo de regramento da atuacao do poder
de reforma configura limitaciies[ormais, que podem ser assim sinteti-
camente enunciadas: 0 6rgiio do poder de reforma (ou seja, 0 Congresso
Nacional) lui de proceder nos estritos termos expressamente estaiuidos ~a
Consiiiuiciio.
A ·doutrina costuma distribuir as limitacoes do poder de refor-
rna em tres grupos: as iemporais, as circunstanciais e as maieriais (ex-
plicitas e implicitas), .
~-As limitacoes iemporais nao sao comumente encontraveis na his-
toria constitucional brasileira, So a Constituicao do Imperio estabe-
leceu esse tipo de limitacao, visto que previra que tao-so ap6s quairo
38. Cf. Direito consiitucional comparado, I - 0 Poder Consiituinte, pp. 155 e 156.
66 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
atlas de sua vigencia poderia ser reformada (art. 174). A Constituicao
de Portugal declara que pode ser revista decorridos cinco anos sobre
a data da publicacao de qualquer lei de revisao (art. 284). Edesne-
cessario Iembrar que a revisao constitucional, que era prevista no
art. 3Q das Disposicoes Transit6rias da Constituicao de 1988, nao re-
velava limitacao temporal, a qual, alias, se esgotou com a malfeita
revisao empreendida e concluida com apenas seis modificacoes no
texto constitucional. Nao cabe mais falar ern revisao constitucional.
A revisao terrninou e nao ha como revive-la legitimamente. Agora s6
existe 0 processo das ernendas do art. 60.
Desde a Constituicao de 1934, tomou-se pratica corrente estatuir
urn tipo de lin-zi-ta(iio circunstanciai ao poder de reforrna, qual seja a de
que niio se procederii iz reforma da Consiiiuiciio n~ vigencia do estado de
sitio. A Constituicao vigente mudou urn pouco nesse particular. Veda
emendas naoigencia deinteroenciio federal, deestado dedefesa ou deestado
de sitio. Introduziu a vedacao referente aintervencao federal nos Es-
tados, que nao era prevista antes (art. 60, § lQ). .
Acontroversia sobre 0 tema mais se aguc;a, quanta a saber quais
os lin-lites materials do poder de reforma constitucional. Trata-se de
responder aseguinte questao: 0 poder de reforma pode atingir qual-
quer 'dispositivo da Constituicao, ou ha certos dispositivos que nao
podem ser objeto de emenda ou revisao?
Para solucionar a questao, a doutrina distingue entre limiiaciies
materiais explicitas e liniitacoes materials implicitas.
Quanto as primeiras, compreende-se facilmente que 0 constituin-
te originario podera, expressamente, excluir determinadas materias
ou conteudos da incidencia do poder de emenda.As constituicoes bra-
sileiras republicanas sernpre contiveram urn' nucleo imodificdoel, pre-
servando a Federacao e a Republica. A atual Constituicao naoincluiu
a Republica expressamente entre as materias imodificaveis por ernen-
cia. Nao 0 fez, porque previu urn plebiscito para que 0 povo decidisse
sobre a forma de governo: Republica ou Monarquia constitucional. 0
povo, em votacao direta, optou por maioria esmagadora pela Repu-
blica, legitimando-a de uma vez por todas, ja que a sua proclamacao
nab contou com sua participacao. Assirn, populannente consolidada,
ede se perguntar se, nao estando ela expressamente no rol das clausu-
las intangfveis, pode ser objeto emenda a sua abolicao com instaura-
c;ao