José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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quem coube a Capitania de
Pernambuco.
70 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
As capitanias eram organizacoes sem qualquer vinculo umas com
. as outras. Seus titulares - os donatarios - dispunham de poderes
quase absolutos. Afinal de contas, elas constituiam seus dominies.
onde exerciam seu governo com jurisdiciio civel e criminal.' embora 0
fizessem por ouvidores de -sua norneacao e juizes eleitos pelas vilas.
A dispersao do poder politico e administrativo era assim completa,
sem elo que permitisse qualquer .interpenetra<;ao, salvo apenas a fonte
comum que era a metropole.
2. Gouernadores-gerais
Em 1549, institui-se 0 sistema de governadores-gerais. Introduz-
se, com isso, um elemento unitario na organizacao colonial! coexis-
tente com as capitanias diversificadas. 0 primeiro governador nomea-
do - Tome de Sousa - vern munida de urn docurnento de grande
importancia: 0 Regiment» do Goternador-Geral.
/JOs regimentos dos governadores-gerais tern, de fato, a maior
importancia para a historia administrativa do pais: antecipavam-se
as cartas politicas, pelo menos na delimitacao das funcoes e no res-
peito exigido das leis, forais e privilegios, -atenuando 0 arbitrio, fi-
xando a ordem juridicav.iForam eles, pois, cartas organizatorias do
regime colonial, que conferiam ao govemador-geral poderes atinen-
tes ao IIgoverno politico&quot; e ao II govemo militar&quot; cia colonia. &quot;Em tor-
no desse orgao central agrupavam-se outros orgaos elementares e
essenciais aadministracao: 0 'ouvidor-mor ', encarregado geral dos
neg6cios da justica: 0 'procurador da fazenda', encarregado das ques-
toes e interesses do fisco real; 0 'capitao-mor da costa', com a funcao
da defesa do vasto litoral, infestado de flibusteiros&quot;.&quot;
3. Fragmentaciio e dispersiio do poder politico na colonia
o sistema unitario, inaugurad6 com Tome .de Sousa, rompe-se
ern 1572, instituindo-se a duplo governo da colonia, que retoma a
unidade cinco anos depois. Em 1621, e a colonia dividida em dois
&quot;Estados&quot;: 0 Estado do Brasil, compreendendo todas as capitanias,
que se estendiam desde 0 Rio Grande do Norte ate Sao Vicente, ao
sul: e 0 Estado do Maranhiio, abarcando as capitanias do Ceara ate 0
extrema norte. Sob 0 impulse de fatores e interesses economicos, so-
ciais e geograficos esses dais &quot;Estados&quot; fragmentam-se e surgem'novos
2. CE. Pedro Calmon, Hist6ria do Brasil, nota 2, v. 1/222.
3. Cf. Oliveira Vianna, Eva/uriio do povobrasileiro, P: 199.
DA EVOLU<::AO pOLfTICO-CONSTITUCIONAL DO BRASIL 71
centros aut6nomos subordinados a poderes politico-administrativos
regionais e loeais efetivos. As pr6prias capitanias se subdividem
tangidas por novos interesses economicos, que se vao formando na
evoluc;ao colonial.
Assirn, por exernplo, Piau! erige-se em capitania independente
do Maranhao; Minas destaca-se de Sao Paulo; Rio Grande do Sui
torna-se capitania etc.
Enfim, 0 governo geral divide-se em govemos regionais (Estado
do Maranhao e Estado do Brasil), e estes, em varias capitanias gerais,
subordinando capitanias secundarias, que, par sua vez, pOlleo a pou-
co, tambem se libertarn das suas metropoles, erigindo-se em capita-.
nias autonomas. Cada capitania divide-se em comarcas, em distritos e
em termos. &quot;Em cada urn desses centros administrativos 0 capitao-
general distribui os representantes da s.ua autoridade, aos orgaos 10-
cais do governo geral: as 'ouvidores', os 'juizes de fora', as 'capitaes-
mores' das vilas e aldeias, as 'comandantes de destacarnentos' dos
povoados, as 'chefes de presidios' fronteirinhos, as 'capitaes-mores
regentes' das regioes recem-descobertas, as regimentos da 'tropa de
linha' das fronteiras, os batalh6es de 'milicianos', os tercos de 'orde-
nancas'ias 'patrulhas volantes' dos confins das regi5es do ouro&quot;.&quot;
&quot;Estes centros de autoridade local, subordinados, em tese, ao
govemo-geral da capitania, acabam, porern, tornando-se praticamen-
te autonomos, perfeitamente independentes do poder central, encar-
nado na alta autoridade do capitao-general&quot;.' Formam-se II governi-
culos locais, representados pela autoridade todo-poderosa dos capi-
tacs-mores das aldeias; os pr6prios caudilhos locais, insulados nos
seus latifundios, nas solidoes dos altos sertoes, eximem-se, pela sua
mesma inacessibilidade, a pressao disciplinar da .autoridade publi-
ca; e se fazern centros de autoridade efetiva, monopolizando a auto-
ridade politica, a autoridade judiciaria e a autoridade militar dos
poderes constituidos. Sao eles que guerreiam contra as tribos barba-
ras do interior, em defesa das populacoes que habitam as convizi-
nhancas das suas casas fazendeiras, que sao como que as seus caste-
los feudais e as cortes dos seus senhorios&quot;.6
Nas zonas de mineracao, por influencia da forma economica,
surgem autoridades especiais: &quot;capitaes-mores das minas&quot;, &quot;junta
de arrecadacao cia fazenda real&quot;, &quot;intendencias do ouro&quot; ou &quot;dos
diamantes&quot;, &quot;guardamorias das minas&quot;, IIcasas de fundicao&quot;, condi-
cionando uma organizacao administrativa peculiar.
4. Cf. Oliveira Vianna, ob. cit., pp. 214 e 215.
5. Idem, p. 215.
6. Idem, p. 217.
72 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
4. Organizaciio municipal na colonia
Nas zonas de exploracao agricola, floresceu uma organizacao
municipal, que teve profunda influencia no sistema de poderes da
colonia. 0 Senado da Camara au Camara Municipal constituiu-se no
orgao do poder local. Era composto de varies &quot;oficiais&quot;, a imitacao
do sistema de Portugal. Seus mernbros eram eleitos dentre os &quot;ho-
mens bans da terra&quot;, que, na realidade, representavam as grandes
proprietaries rurais. Assim foi nas zonas acucareiras. Mas, nas zonas
pastoris e mineradoras, essa organizacao municipal nao encontrou
condicoes para prosperar, salvo no fim da colonia com a decadencia
da rnineracao e maior estabilidade populacional.
5. Efeitos futuros
Nesse sumario, jase ve delinear a estrutura do Estado brasilei-
ro que iria constituir-se corn a Independencia. Espeeialmente, nota-
mos que, na dispersao do poder politico durante a colonia e na for-
macae de centros efetivos de poder locais, se encontram os fatores
reais do poder, que d arao a caracteristica basica da organizacao po-
litica do Brasil na fase imperial enos primeiros tempos da fase re- .
publicana, e ainda nao de todo desaparecida: a formacao coronelisti-
ea oligarquica.
II. FASE MONARQUICA
6. Brasil, Reina Ilnido a portugal -
A fase monarquica inicia-se, de fate, com a chegada de D. [oao
VI ao Brasil em 1808, e vai-se efetivando aos poueos. Instalada .a cor-
te no Rio de Janeiro, s6 isso ja importa em mudanca do statuscolonial.
Em 1815, 0 Brasil eelevado, pela lei de 16 de dezembro, acategoria
de Reine Llnido a Portugal, pondo em consequencia fim ao Sistema
Colonial, e monopolio da Metr6pole. Urn passo afrente foi a procla-
macae da Independencia a 7.9.18~2, da qual surgiu 0 Estado brasilei-
ro sob a forma de governo imperial, que perdurou ate 15.11.1889.
Transferida a sede da Familia Reinante para 0 Rio de Janeiro, era
preciso instalar as reparticoes, as tribunais e as comodidades neces-
sarias aorganizacao do governo; cumpria estabelecer a ordern, corn
a policia, a justica superior, os orgaos administrativos, que tinham
ate ai faltado a colonia. Assim se fez a partir de 1Q de abril. Foram
instituidos, criados e instalados a Conselho de Estado, a Intendencia
Geral de Policia, 0 Conselho da Fazenda, a Mesa da Consciencia e
DA EVOlU<;AO pOlITICO-CONSTITUCION AL DO BRASIL 73
Orden'S, 0 Conselho Militar, 0 Desembargo do Paco, a Casa da
Suplica<;ao, a Academia de Marinha; a junta-Cera] do Comercio, o
juizo dos falidos e conservador dos privilegios: 0 Banco do 'Brasil,
para auxiliar 0 Erario, a Casa da Moeda, a Impressao Regia etc. Abri-
ram-se antes os portos, decretara-se a liberdade da industria, possi-
bilitara-se a expansao comercial.&quot;
Mas essa organizacao de poder nao teve efetiva atuacao alern