José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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dos limites do Rio de Janeiro. Pouca influencia exerceu no interior do
pais, onde a Iragmentacao e diferenciacao do poder real e efetfvo
perduravam, sedimentadas nos tres seculos de vida colonial. Nem
se poderia rnudar, da noite para 0 dia, essa relacao de poder que
estava em consonancia com a realidade existente, que apresentava
urn povo disserninado por urn amplissimo territorio, formando, so-
cialmente, "urn conjunto ainda incoerente de nucleos humanos,
ganglionarm~ntedistribuidos pela orla de' umIitoral vastissimo e
pelos campos e sert6.es do interior"; e "urn arnontoado dequase vin-
te capitanias dispersas, rnuitas delas com uma tradicao mais que se-
cular de autonomia e independencia"."
7. Influencia das novas teorias politicos
e 0 mouimento constitucional
Mas aqui ja se constituira uma nobreza brasileira "assentada so-
bre a base dos grandes Iatifundios, numerosa, rica, orgulhosa,
esclarecida pelas ideias novas, que revolucionam as centros cultos
do Rio e de Pernambuco", bern como "uma aristocracia intelectual,
graduada na suamaioria pelas universidades europeias, especial-
mente a Universidade de Coimbra"," que acorre ao Rei, domina 0
Pace, como elemento catalisador, que haveria de influir na formacao
politica desses primeiros tempos, que coincidem como aparecirnen-
to de urn novo fator, urn novo modificador da estrutura politica, que
sao as novas teorias politicas que entao agitavam e renovavam, des-
.de os seus fundamentos, 0 mundo europeu: 0 Liberalismo, 0 Parla-
mentarismo, 0 Constitucionalismo, ,0 Federalismo, a Democracia, a
Republica." Tudo isso justifica 0 aparecimento do movimento cons-
titucional, no Brasil, ainda quando D. [oao VI mantinha a sua corte
no Rio de Janeiro. Cogitou-se ate de aplicar aqui, salvo as modificacoes
que as circunstiincias locais iornassem necessiirias, a pr6pria constitui-
, ,
7. Cf. Pedro Calmon, Historic do Brasil, cit., v. II/l.377 a 1.379.
8. Cf. Oliveira Vianna, ob. cit., p. 245.
9. Idem, p. 247.
10. Idem, pp. 245 e 246.
74 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
c;ao elaborada pelas Cortes portuguesas, chamada Constituicao do
Porto." .
8. A lndepcndencia e 0 problema da unidade nacional .
Proclarnada a Independencia, 0 problema da unidade nacional
impoe-se como a primeiro ponte a ser resolvido pelos organizadores
das novas instituicoes. A consecucao desse objetivo dependia cia es-
truturacao de urn poder centralizador e uma organizacao nacional
que freassem e ate demolissem os poderes regionais e locais, que efe-
tivamente dominavarn no pais, sem deixar de adotar alguns dos prin-
cipios basicos da teoria politica em mada na epoca.
o constitucionalismo era a principia fundamental dessa teoria,
e realizar-se-ia por uma constituicao escrita, em que se consubstan-
ciasse 0 liberalismo, assegurado por uma declaracao constitucional
dos direitos do homem e· urn mecanismo de divisao de poderes, de
acordo com 0 postulado do art. 16 da Declaracao dos Direitos do
Homem e do Cidadao de 1789, segundo 0 qual niio tern constiiuiciio a
sociedade onde niio eassegurada agarantia dos direitos nem deierminada a
separaiiio dos poderes.
as estadistas do Imperio e construtores cia nacionalidade tinham
pela frente uma tarefa ingente e dificil: conseguir construir a unidade
do podersegundo esses principios que nao toleravam 0 absolutismo.
E conseguiram-no dentro dos limites permitidos pela realidade vigen-
tel montando, atraves da Constituicao de 1824, urn mecanisme
centralizador capaz de. propiciar a obtencao dos objetivos pretendi-
dos, como provou a historia do Imperio. "E [como nota Oliveira Vianna]
uma edificacao possante, salida, macica, magnificamente estruturada,
constringindo rijamente nas suas malhas resistentes todos os centros
provinciais e todos os·n6dulos de atividade politica do pais: nada esca-
pa, nem a mais remote povoado do interior, asua compressiio poderosa"."
9. A Constituiciio imperial
o sistema foi estruturado pela Constiiuiciio Poliiica do Imperio do
Brasil de 25.3.1824. Declara, de inicio, que 0 Imperio do Brasil e a
11. Cf. Eduardo Espinola, Consiituiiiio dos Estados Unidos do Brasil, v. liS; Afonso
Arinos de Melo Franco, Curse de direito constitucional brasiieiro, p. 17, que e 0 melhor
livro sabre a formacao constitucional do Brasil. Excelente por sua abundante docu-
rnentacao ea Historia constiiucional do Brasil de Paulo Bonavides e Paes de Andrade, ja
em 3~ edicao. Importante tambern ea obra de Paulo Bonavides e R. A. Amaral Vieira,
Textos politicos da historic do Brasil, publicada pela Imprensa Universitaria do Ceara.
12. Cf. ob. cii., p. 258.
DA EVOLU<;Ao pOLfTICO-CONSTITUCIONAL DO BRASIL 7S
associac;ao politica de todos os cidadaos br-asileiros, que formam uma
nacao livre e independente que niio admiie, comqualqueroutre, lace de
uniiio ou[ederaciio, que se oponha asua independencia (art. I&quot;), 0 territo-
rio do Imperio foi dividido em provincias, nas quais foram transfor- .
madas as capitanias entao existentes (ar.t. 2Q) . Seu governo era
monarquico hereditario, constitucional e representativo (art. &quot;3Q) . 0
principio da divisao e harmonia&quot;dos poderes politicos foi adotado
como &quot;principio conservador dos direitos dos cidadaos, e 0 mais se-
gura meio de fazer efetivas as garantias que a Constituicao oferece&quot;
(art. 9Q) , mas segundo a forrnulacao quadripartita de Benjamin
Constant: Poder Legislatioo, Poder Moderador, Poder Executivo e Poder
[udicuirio (art. 10).13 0 Poder Legislativo era exercido pela assernbleia
geral, cornposta de duas camaras: ados deputados, eletiva e tempo-
raria, e ados senadores, integrada de membros vitalicios nomeados
pelo Imperador dentre componentes de uma lista triplice eleita por
provincia (arts. 13,·35, 40 e 43). A eleicao era indireta e censitaria. 0
Poder Moderador, considerado a chave de toda a organizacao politi-
ca, era exercido .privativarnente pelo Imperador, como chefe supre-
mo da nacao e seu primeiro representante, para que incessanternente
velasse sobre a manutencao da independencia, equilibrio e harmo-
nia dos demais poderes politicos (art. 98).0 Poder Executivo, exerci-
do pelos ministros de Estado, tinha como chefe tambern 0 Imperador
(art. 102).0 Poder [udiciario, independente, era cornposto de juizes
e jurados (art. 151). No art. 179, a Constituicao trazia uma declaracao
de direitos individuais e garantias que, nos seus fundamentos, per-
maneceu nas constituicoes posteriores.
10. Centralizaciio montirquica
As provincias foram subordinadas ao poder central, atraves do
seu presidente, escolhido e nemeado pelo Imperador, e do chefe de
policia, tambern escolhido e nomeado pelo Imperador, com atribui-
coes nao 56 policiais como judiciais ate 1870, do qual dependiam or-
gaos menores, com acao nas localidades, cidades, vilas, lugarejos,
dis tritos: os IIdelegados de policia&quot;, os &quot;subdelegados de policia&quot;, os
&quot;inspetores de quarteir6es&quot;, 'os &quot;carcereiros&quot; das cadeias publicas e
o pessoal subalterno da adrninistracao policiaL Eainda 0 poder cen-
tral que nomeia 0 &quot;juiz de direito&quot;, 0 &quot;juiz municipal&quot;, 0 &quot;promotor
publico&quot;. E ha tambem a &quot;Guarda Nacional&quot;, em que se transforma-
ram as milicias locais, a qual, a partir de 1850, passou a ser subordi-
nada ao poder central.
13. Cf. Benjamin Constant, Curse de politicoconstitucionnl, pp. 13 e 5S.
76 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
OEste poder [lembra Oliveira Vianna] nao se limita a agir atra-
ves desses orgaos locais: opulenta-se com atribuicoes, que lhe dao
meios de influir sobre os pr6prios orgaos da autonomia local. Ele
pode anular as eleicoes de vereadores rnunicipais e juizes de paz. Ele
pode reintegrar 0 funcionario municipal demitido pela Camara. Ele
pode suspender rnesmo as resolucoes das Assembleias provinciais&quot;.&quot;
11. Mecanismo politico do poder central
Mas a chave de toda a organizacao politica estavaefetivamente
no Poder Moderador, concentrado na pessoa do Imperador.