José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
927 pág.

José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


DisciplinaDireito Constitucional I63.081 materiais1.458.385 seguidores
Pré-visualização50 páginas
chapa oposta a
daquele, que tinha como companheiroAlmirante Wandenkolk. Con-
cluida a eleicao, convertera-se a Constituinte em Congresso, sepa-
rando-se em Camara e Senado. A oposicao, liderada por Prudente
de Moraes, nao conseguira impedir a eleicao do Pai da Republica,
mas impusera urn Vice-Presidente, em que se escorasse. Consumado
o fate, pretendeu-se destruir 0 governo pelo impeachment, que de-
pendia ainda de regularnentacao. Aparelhara-se, entao, urn projeto
que ·defin isse os crimes de responsabilidade do Presidente. 0 gover-
no vetara-.o. Prudente de Moraes, Vice-Presidente do Senado, no exer-
cicio cia Presidencia deste (porque Floriano estava afastado), resol-
veu submeter 0 veto ao Senado, que 0 rejeitara e assim tambern a
Camara. Em represalia, Deodoro dissolvera 0 Congresso (3.11.~891)~
Reagira a Armada, afrente 0 Almirante Custodio Jose de Mello. A 23
de novembro, Deodoro, "para evitar corresse 0 sangue generoso dos
brasileiros", renuncia aPresidencia da Republica. Sobe 0 Vice-Presi-
dente, Floriano Peixoto. E revela-se. Ita poder transformou-o: assim
'modesto e vulgar' como 0 retrataria Quintino - "esquivo, indife-
rente, impassivel"." Considerado 0 consolidador da Republica, come-
cou derrubando os govemadores dos Estados. Poueo depois, a rea-
cao contra Floriano. Estala a guerra civil: Custodio J. de Mello, dei-
xando 0 Ministerio da Marinha, junta-se a revolta da Armada com
Saldanha da Gama, Gumercindo Saraiva e outros. Floriano domi-
nou, e s6 entregou 0 poder ao Presidente eleito para 0 quadrienio de
1894/1898, que foi Prudente de Moraes. Com este, a oligarquia, que
mandaria nos Estados, se instala no poder.
19. Cf. Anais da Consiituinte, v. 1/160.
20. Cf. Pedro Calrnon, ob. cit., p. 1.934.
· 80 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
o sistema constitucional implantado enfraquecera 0 poder cen-
tral e reacendera os poderes regionais e locais, adorrnecidos sob 0
guante do rnecanismo unitario e centralizador do Imperio. 0 gover-
no federal nao seria capaz de suster-se, se nao se escorasse nos pode-
res estaduais. Campos Sales percebeu-o muito bern. Formulou a dou-
trina de que a "politica e a acao devem ser privilegio de uma mino-
ria: as grandes deliberacoes nascidas de liberdades democraticas le-
vam necessariamente 0 pais a agitacoes e ao aproveitamento da si-
tuacao par urn grupo muitas vezes 0 menos capaz. A minoria de-
liberativa no plano federal deve corresponder outra minoria deli-
berativa dos Estados. Esta representacao aristocratica e 0 cerne de
seu pensamento. Consequentemente 0 problema apresenta-se como
a garantia de estabilizacao das atuais oligarquias no poder"." Fun-
dado nesse esquema doutrinario, imprime interpretacao pr6pria ao
presidencialismo. Despreza os partidos, e constr6i a "politica dos Go-
vernadores", que dominou a Primeira Republica e foi causa de sua
queda. .
o poder dos governadores, por sua vez, sustenta-se no coronelis-
mo, fenomeno em que se transmudaram a fragmentacao e a dissemi-
nacao do poder durante a colonia, contido no Imperio pelo Poder
Moderador. "'0 fenomeno do coronelismo tern suas leis pr6prias e fun-
ciona na base da coercao da forca e da lei oral, bern como de favores e
obrigacoes, Esta interdependencia efundamental: 0 coronel eaquele
que protege, socorre, homizia e sustenta materialmente os seus agre-
gados; por sua vez, exige deles a vida, a obediencia e a fidelidade. E
por isso que 0 coroneli~mo significa forca politica e forca militar".22
o coronelisrno fora 0 poder reate efetivo, a despeito das normas
constitucionais tracarem esquemas formals da organizacao nacional
com teoria de divisao de poderes e tudo. A relacao de forcas dos
coroneis elegia as governadores, os deputados e senadores. as go-
vernadores irnpunham a Presidente da Republica. Nesse jogo, as
deputados e senadores dependiam cia lideranca dos govemadores.
Tudo isso forma uma constituicao material em desconsonancia com
o esquema normativo da Constituicao entao vigente e tao bern estru-
turada formalmente."
A Emenda Constitucional de 1926 nao conseguira adequar a
Constituicao formal a realidade, nem impedira prosperasse a luta
contra 0 regime oligarquico dominante.
21. Cf. Edgar Carone, A Primeira Republica, p. 103.
22. Idem, p. 67.
23. Veja-se, em Edgar Carone, ob. cit., pp. 67 e 55., bela sintese documentada
sobre 0 coronelismo.
DA EVOlU<::Ao pOLfTICO-CONSTITUCIONAL DO BRASIL 81
16. A Reooluciio de 1930 e a questiio social
. Quatro anos depois daquela Emenda aConstituicao de 1891,
irrompera a Revolucao, que a pas abaixo com a Primeira Republica.
Mas 0 desenvolvimento da economia ja propiciava condicoes para 0
desmonte do coronelismo.rou, quandonada, 0 seuenfraquecimento.
Subindo Getulio Vargas ao poder, como lider civil da Revolucao, in-
clina-se para a quesiiiosocial. Logo cria 0 Ministerio do Trabalho; poe
Prancisco Campos no da Educacao, que daria impulso a cultura,
entorpecida e desalentada. 1/A revolucao respondia, com isso, e des-
de logo, aRepublica Velha, que uma feita rotulara de quesiiio de poli-
cia a inquietacao operaria&quot;.&quot; .
Cetulio, na Presidencia da Republica, intervem nos Estados. Li-
quida corn a politica dos govemadores. Afasta a influencia dos coro-
neis, que manda desarrnar. Prepara novo sistema eIeitoral para 0 Bra-
. sil, decretando, a 3.2.32, 0 C6digo Eleitoral, instituindo a justica elei-
toral, que cercou de garantias e aqual atribuiu as funcoes importan-
tissimas de julgar da validade das eleicoes e proclamar os eleitos,
retirando essas atribuicoes das assernbleias politicas, com 0 que deu
golpe de morte na politica dos governadores e nas oligarquias que
dominavam exatarnente em virtude do processo de uerificacdo de po-
deres. Por decreta de 3.5.32 marca eleicoes aAssembleia Constituinte
para 3.5.33. Dois meses depois, estoura em Sao Paulo a Revolucao,
que se chamou constitucionalista. A derrota dos revoltosos peIo dita-
dar nao obstou mantivesse 0 decreto anterior de convocacao das elei-
coes, que se realizariam no dia aprazado, organizando-se a Constituin-
te que daria ao pals nova Constituicao republicana: a segunda COllS-
iituiciio da.. Republica dos Estados Unidos do Brasil, prornulgada em
16.7.34. - - -
17. A Constituiciio de 1934 e a ordem econinnica e social
A nova Constituicao nao era tao bern estruturada como a pri-
meira. Trouxera conteudo novo. Mantivera da anterior, porem, as
principios formais fundamentais: a republica, a federacao, a divisao
de poderes (Legislative, Executivo e [udiciario, independentes e coor-
denados entre si), 0 presidencialisrno, 0 regime representativo. Mas
arnpliou os poderes da Uniao, enumerados extensamente nos arts. SQ
e 6Q; enumerou alguns poderes dos Estados e conferiu-lhes os pode-
res remanescentes (arts. 71 e 8Q) ; dispos sabre os poderes concorren-
tes entre a Uniao e Estados (art. 10). Discriminou, com mais rigor, as
-24. Cf. Pedro Calmon, ob. cit., p. 2.219.
82 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
rendas tributarias entre Uniao, Estados e Mun-icipios, outorgando a.
estes base econornica em que se assentasse a autonomia que lhes as-
segurava. Aumentou os poderes do Executivo. Rompeu com 0 bica-
rneralismo rigido, atribuindo 0 exercicio do Poder Legislative ape-
nas aCamara dos Deputados, transforrnando 0 Senado Federal em
6rgaQ de colaboracao desta (arts. 22 e 88 e 55.). Definiu 05 direitos
politicos e 0 sistema eleitoral, admitindo 0 voto feminine (arts. 108 e
S5.) Criou a [ustica Eleitoral, como 6rgao do Poder [udiciario (arts.
63,d, 82 e 55.). Adotou, ao lade da representacao politica tradicional,
a representacao corporativa de influencia fascista (art. 23). Instituiu,
ao lade do Ministerio Publico e do Tribunal deContas, os Conselhos
Tecnicos, como orgaos de cooperacao nas atividades governamen-
tais. Ao lade da classica declaracao de direitos e garantias individuais,
inscreueu um titulo sobre a ordeni econbmica