José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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de Gomes Canotilho e Vital Moreira, segundo a qual
os "principios fundamentais visam essencialrnente definir e caracte-
rizar a colectividade politica e 0 Estado e enumerar as principals
opcoes politico-constitucionais". Relevam a sua importancia capital
no contexto da constituicao e observam que as artigos que as consa-
gram "constituem por assirn dizera sintese ou matriz de todas as
restantes normas constitucionais, que aquelas podem ser directa au
indirectamente reconduzidas"." No mesmo sentido, janos tinhamos
pronunciado antes, em monografia publicada em 1968, a prop6sito
da H<;ao de Crisafulli sobre as normas-principio. Entao, escrevemos
que &quot;mais adequado seria chama-las de normas[undameniais, de que
as normas particulares sao mero desdobramento analitico&quot;, e demos
como exemplo as normas dos arts. 1Q a 6Q da Constituicao de 1969. 14
Para Gomes Canotilho, constituem-se dos principios deJinidores
da[orma de Estado, dos principios definidores da esiruiura do Estado, dos
principios eslruturanies do regime politico e dos principios caracterizado-
res da [orma de governo e da organizaciio politica em geral. 15
A analise dos principios fundamentals da Constituicao de 1988
nos leva aseguinte discriminacao:
(a) principios relativos aexistencia, forma, estrutura e tipo de
Estado: Republica Federativa do Brasil, soberania, Estado Democriiiico de
Direito (art. 1Q);
(b) principios relativos aforma de governo e aorganizacao dos
poderes: Republica e separacdo dos poderes (arts. 1Q e 2Q) ;
(c) principios relativos aorganizacao da sociedade: principio da
livre organizaciio social, principia de conuioencia justa e principia da soli-
dariedade (art. 3Q, I);
(d) principios relativos ao regime politico: principia da cidadania,
principia da dignidade da pessoa, principia do pluralismo, principio da 50-
berania popular, principia da represeniacao politica e principia da pariici-
pa(iio popular direta (art. 1Q, paragrafo unico):
(e) principios relativos aprestacao positiva do Estado: principio
da independencia e do desenvolvimento nacional (art. 3Q, II), principia da
[ustica social (art. 3Q, III) e principia da niio discriminaclio (art. 3Q, IV);
if) principios relativos acomunidade intemacional: da indepen-
dencia nacional, do respeiio aos direiios [undamentais da pessoa humana,
13. Db. cit., p. 66.
14. Cf. nosso Aplicabilidade das normas constitucionais, P: 108, cuja 1~ ed. efe
1968. '&quot;
15. CE. Direito Constitucional, p. 178. '
DOS PRINCfpIOS CONSTITUCIONAIS 95
da autodeteminaciio dos pOVOS, da niio-inieroenciio, da igualdade dos Esta-
dos, da soluciio pacifica dos conflitos e da dejesa da paz, do repiidio ao ierro-
risnioe ao racismo, da cooperaciio entre os pooos e 0 da integraciio da A me-
rica Latina (art. 4Q) .
4. Principios [undamentais e principios gerais
do Direito Constitucional
Ternos que distinguir entre principios constitucionais fundamen-
tais e principios gerais do Direito Constitucional. Vimos ja que os
primeiros integram 0 Direito Constitucional positivo, traduzindo-se
em normas fundamentals, norrnas-sintese ou normas-matriz, &quot;que
explicilam as oaloracoes poliiicas[undameniais do legisIador constiiuin-
te&quot;,16 normas que contern as decis5es politicas fundamentais que 0
constituinte acolheu no documento constitucional. Os principios ge-
rais formam temas de uma teoria geral do Direito Constitucional,
par envolver conceitos gerais, relacoes, objetos, que podem ter seu
estudo destacado da dogmatica juridico-constitucional.
A ciencia do direito constitucional [diz Pinto Ferreira] induz da
realidade historico-social os lineamentos basicos, os grandes princi-
pios constitucionais, que servem de base aestruturacao do Estado. Os
principios essenciais assim estabelecidos sao os summa genera do di-
reito constitucional, formulas basicas au postos-chaves de interpre-
tacao e construcao te6rica do constitucionalismo, e dai se justifica a
atencao desenvolvida pelos juristas na sua descoberta e elucidacao.
Eles podem ser reduzidos a urn grupo de principios gerais, nos quais
se subsumern as principios derivados, de importancia secundaria&quot;.&quot;
Os temas que discutimos no Titulo I sao integrados por concei-
tos e principios gerais, como a classificacao das constituicoes, 0 prin-
cipia da rigidez constitucional, 0 da supremacia da constituicao, os
referentes ao poder constituinte e ao poder de reforrna constitucio-
nal etc., que sao temas do chamado Direito Constitucional geral. E
certo, contudo, que tais principios se cruzam, com frequencia, com
os principios fundamentais, na medida em que estes possam ser.
positivacao daqueles.
5. Funciio e releoiincia dos principios fundamentais
Jorge Miranda ressalta a[uncao ordenadora dos principios funda-
mentais, bern como sua acao imediata, enquanto diretamente aplica-
16. Cf. Gomes Canotilho, Direito constitucional, p. 178.
17. Cf. Principios gerais do direiio constitucional moderno, v. IIJ16.
96 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
veis au diretamente capazes de conformarem ,as relacoes politico-
constitucionais, aditando, ainda, que a 1/acao imediata dos principios
consiste, em primeiro lugar, em funcionarem como criteria de inter-
pretacao e de integracao, pois sao eles que dao coerencia geral ao
sistema&quot;.18 Isso e certo.
Temos, no entanto, que fazer algumas distincoes, por reconhe-
ce.rmos que as normas que integram os principios fundamentais tern
relevancia juridica diversa, e aqui valemo-nos, outra vez, do ensina-
mento de Gomes Canotilho e Vital Moreira. Algumas sao normas-
sintese ou normas-mairiz cuja relevancia consiste essencialmente na
integracao das normas de que sao sumulas, ou que as .desenvolvem,&quot;
mas tern eficacia plena e aplicabilidade imediata.&quot; como as que con-
tern as principios da soberania popular e da separacao de poderes
(arts. 1Q, paragrafo iinico, e 2Q) . A expressao &quot;Republica Federativa
do Brasil&quot; e, em si, uma declaracao normativa, que sintetiza as for-
mas de Estado e de governo, sem relacao predicativa .ou de .imp u ta-
bilidade explicita, mas vale tanto quanta afirmar que 0 &quot;Brasil euma
Republica Federativa&quot;. E uma norma implicita, e norma-sintese e
matriz de arnpla normatividade constitucional, A afirrnativa de que
a &quot;Republica Federativa do Brasil constitui-se em Estado Dernocrati-
co de Direito&quot; nao e uma mera promessa de organizer esse tipo de
Estado, mas a proclamacao de que a Constituicao esta fundando urn
novo tipo de Estado, e, para que nao se atenha a isso apenas em sen-
tido formal, indicam-se-lhe objetivos concretos, embora de sentido
teleologico,&quot; que mais valem por explicitar conteudos que tal tipo de
Estado ja contern, como discutiremos rnais adiante. Outras normas
dos principios fundani.entais sao indicativas dos 'fins do Estado,&quot;
como a doinc.Tll 0.,0 art. 3Q\u2022 Outras sao definicoes precisas de 'com-
portamento do Brasil como pessoa juridica de Direito internacional,
como as que integram 0 art. 4Q\u2022
18. Cf. Manual de Direiio constitucional, 1. II/199.
19. Cf. Fundamentos da Constituuiio, p. 72.
20. Sobre essa ternatica, cf. nosso Aplicabilidade das normas constitucionais, 2!!
ed., Sao Paulo, Ed. RT, 1982.
21. Nas edicoes anteriores, estava &quot;ernbora prograrnaticas&quot;, que agora
substituimos por &quot;ernbora de sentido teleologico&quot;, porque 0 termo &quot;programatico&quot;
nao exprime com rigor 0 sentido dessas normas e porque se trata de expressao com-
prometida com teorias ultrapassadas que viam na Constituicao normas sem valor
juridico que davam aquela denominacao.
22. Tambern aqui se usava antes &quot;prograrnaticas&quot;, substituida per &quot;indicati-
vas dos fins do Estado&quot;.
Capitulo II
'D O S PRINCipIOS CONSTITIICIONAIS
D-D ESTADO BRASILEIRO
I. REPUBLICA FEDERATIVA DO BRASIL: 1. 0 PalS e 0 Estado brasiieiros.
2. Terriiorio eforma de Estado. 3. Estado Federal: forma do Eslado brasileiro. 4.
Forma de Goperno: a Republica. 5. Fundamentos do Estado brasileiro.