José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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0 desvio do governo da maioria. Cf., neste sentido, Poliiiqued'Aris-
talc, texto frances apresentado e anotado por Marcel Prelot, p. 86.
DOS PRINC[PIOS CONSTITUCIONAIS 00 ESTADO BRASILEIRO 103 .
Essas tres formas, adverte Aristoteles, podern degenerar-se: a monar-
quia, em tirania; a aristocracia, em oligarquia; .a republica, em democra-
cia.14 Essa doutrina prevaleceu ate que Maquiavel declarou que todos
os Estados, todos as dominios que exerceram e exercem poder sabre
os homens, foram, e sao, ou republicas au principados." Oaf por diante,
tern prevalecido a classificacao dualista de forrnas de governo em re-
ptlblica e monarquia, ou governo republicano e governo monarquico.
Aquele caracterizado pela eletividade peri6dica do chefe de Estado, e
este por sua hereditariedade e vitaliciedade.
o principia republicano - 0 art. 1Q da Constituicao nao instaura a
Republica. Recebe-a cia evolucao constitucional, desde 1889. Man-
tem-na como principio fundamental da ordem constitucional. Desde
a Constituicao de 1891, a [erma republicana de governo figura como
principio constitucional, hoje nao mais protegido contra emenda cons- .
titucional, como nas constituicoes anteriores, ja que a forma republi-
cana nao mais constitui nucleo imodificavel por essa via; 56 a forma
federativa continua a se-lo (art. 60, § 4Q, I). Mas 0 principio eprotegi-
do contra os Esiados, prevista a intervencao federal naquele que 0
desrespeitar (art. 34, VII, a).
o principia republicano nao deve ser encarado do ponto de vis-
ta puramente format como algo que vale por sua oposicao aforma
monarquica. Ruy Barbosa ja dizia que ° que discrimina a forma re-
publicana nao eapenas a coexistencia dos tres poderes, indispensa-
veis em todos os governos constitucionais, mas, sim, a condicao de
que, sobre existirem os Poderes Legislativo, Executivo e [udiciario,
as dois primeiros derivern, realmente, de eleicoes populares." Isso
significa que a forma republicana implica a necessidade de legitimi-
dade popular do Presidente da Republica, Governadores de Estado
e Prefeitos Municipais (arts. 28, 29, I ell, e 77), a existencia de assem-
bleias e camaras populares nas tres orbitas de governos da Republi-
ca Federativa (arts. 27,29, I, 44, 4S·e 46), eleicoes peri6dicas portern-
po limitado que se traduz na temporariedade dos mandatos eletivos
(arts. cits.) e J conseqiientemente, nao vitaliciedade dos cargos politi-
14. Cf. Politica, III, 5, 1279b. Para Aristoteles, democracia seria, portanto, uma
forma desviada de governo. Atualmente, no entanto, democracia econsiderada como
regime e nao forma de governo. Por este motivo, em algumas edicoes, a forma des-
viada do governo da maioria echamada de demagogia.
15. Cf. ll principe, p. 31: "Tutti gli stati, tutti e' dominii (he hanno avuto e hanno
imperio sopra gli uomini, sono stati e sono 0 republiche 0 principati. E' principati
sono, 0 ereditarii, de' quali el sangue delloro signore ne sia suto lunge tempo principe,
o esono nuovio". .
16. Cf. Comeniarios a Constituuiio Federal brasileira, v. 11165. Sabre 0 principia
republicano, cf. Carmen Lucia Antunes Rocha, ob. cit., pp. 91 e 55.
104 , CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
cos, prestacao de contas da.adrninistracao publica (arts. 30, III, 31,
34, VII, d, 35, II, e 70 a 75).17 .
Forma e sistema de gotemo - Outro conceito e 0 de sistema de
goverl1o, que nao se confunde corn forma de governQ. Sistema de go-
verno diz respeito ao modo como se relacionarn os poderes, especial-
mente a Legislativo e 0 Executivo, que da origem aos sistemas parla-
nientarista, presidencialista e direiorial." Nao eaqui 0 lugar para apro-
fundar 0 tema, que sera discutido quando examinarmos a organiza-
cao dos poderes (arts. 44 a 135), que nao foi considerado entre os
principios fundarnenta~sda ordem constitucional.
5. Fundamentos do Estado brasileiro
. \
o Estado brasileiro,-segundo 0 art. JQ, tern como fundamentos a
soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores
sociais do trabalho e da livre iniciativa e 0 pluralismo politico.
A soberania nao precisava ser mencionada, porque ela e funda-
mento do pr6prio conceito de Estado. Constitui tambern principia
da ordem economica (art. 170, I). Soberania significa poder politico
sllprenlo. e independenie, como observa Marcello Caetano: supremo,
porque "nao esta limitado por nenhum outro na ordem interna", il1-
dependente, porque, "na ordem internacional, nao tern de acatar re-
gras que nao sejam voluntariarnente aceitas e esta em pe de igualda-
de com os poderes supremos dos outros poVOS". 19 0 principia da
independencia nacional ereferido tambern como objetivo do Estado
(art. 3Q, I) e base de suas relacoes internacionais (art. 4Q, I).
A cidadania esta aqui num sentido mais ample do que 0 de titu-
lar de direitos politicos. Qualifica os participantes da vida do Esta-
·'.dO,20 0 reconhecirnento do individuo como pessoa integrada na socie-
.dade estatal (art. SQ, LXXVII). Significa ai, tambern, que 0 funciona-
mento do Estado estara submetido avontade popular. E ai 0 termo
17. A proposito, cf. Gomes Canotilho, Direito constitucional, P: 499.
18. -A terminologia einsegura. Biscaretti di Ruffia, ob. cii., P: 203, fala, p. ex., em
"forma de governo parlamentar" em lugar de "sistema de governo parlamentar".
Pablo Lucas Verdu, como a maioria, chama de sistema de governo a interdependencia
funcional necessaria a impulsao da orientacao politica. IIEI sistema de gobierno se
caracteriza porque la pluralidad de 6rganos constitucionales se conexiona mediante
los controles y responsabilidades constitucionales que garantizan la identidad y
coherencia de la orientacion politica", Cf. Curso de derecho politico, v. 1/426.
.19. Cf. Direito consiitucional, v. 1/169; cf. tarnbem Jorge Miranda, ob. cit., t. III/
154.
20. Sobre cidadania, cf. Jorge Miranda, Manual de direito consiitucional, t. III/82
e ss.
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DOS PRINC(PIOS CONSTITUCIONAIS DO ESTADO BRASILEIRO 105
conexiona-se·com 0 conceito desoberania popular (paragrafo unico do
art. 1Q), com os direitos politicos (art. 14) e com 0 conceito de digl1 ida-
de da pessoa hun-lana (art. 1Q, III), com os objetivos cia educacao (art.
205),. como base e meta essencialdo regime dernocratico.
Digllidadeda pessoa humana e urn valor supremo que atrai 0 con-
teudo de todos os direitos fundamentais do homem, desde a direito
a vida.."Concebido como referencia constitucional unificadora de
todos os direitos furidarnentais [observam Gomes Canotilho e Vital
Moreira], 0 conceito dedignidade da pessoa humana obriga a uma
densificacao valorativa que tenha em conta oseu amplo sentido nor-
mati.vo-~onstitucionale nao .um a qualquer ideia aprioristica do ho-
mem, nao podendo reduzir-se 0 sentido da dignidade humana ade-
fesa dos direitos pessoais tradicionais, esquecendo-a nos casas de
direitos sociais, ou invoca-la para construir 'teoria do micleo da per-
sonalidade' individual, ignotando-a quando se trate de garantir as
bases da existencia humana"." Dar decorre que a ordem econornica
ha de ter por fim assegurara todos existencia digna (art. 170), a or-
dern social visara a realizacao da justica social (art. 193), a educacao,
o desenvolvimento da pessoa e seu preparo para 0 exercicio da cida-
dania (art. 205) etc., nao como meros enunciados formais, mas como
indicadores do conteudo normativo eficaz da dignidade da pessoa
humana.
. Destaca-se ainda o pluralismo politico como fundamento do Esta-
do brasileiro, que rnerecera ampla consideracao quando formos dis-
cutir °principle dernocratico. Os valores sociais do irabalho e da inicia-
iio« prioada sao, tam-bern, fundamentos da ordem economica, como
veremos.
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6. Objetiuos [undamentais do Estado brasileiro
A Constituicao consigna, como objetivos-flll1danlentais da Repu-
blica Federativa do Brasil, valedizer, do Estado brasileiro: