José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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q~e as exercern: quer dizer que existe sernpre distin-
. <;ao-de funcoes, que.r haja orgaos especializados para curnprir cada
uma delas, quer estejam concentradas num orgao apenas, A dioisiia
depoderes consiste ern confiar cada uma das funcoes governamentais
(legislativa, executiva e jurisdicional) a orgaos diferentes, que tomam
os names das respectivasfuncoes, menos 0 [udiciario (orgao au po-
der Legislative, orgao ou poder Executivo e 6rgao au poder judicia-
rio). Se as funcoes forem exercidas por urn orgao apenas, tem-se con-
centraciio de poderes.
25. Em sentido estrito e habitual, considera-segovcrnoapenas 0 orgao que exerce
a funfao execuiiua,em oposicao ao legislative. Nos sistemas de governo parlamentar,
reserva-se 0 termo go-verno para 0 poder executivo, que e exercido pelo Conselho de
Ministros (cf. cap. III do tit. IV). Em sentido amplo e proprio, 0 conceito de governo
e0 oferecido no texto.
26. Cf. Maurice Duverger, Droit constiiuiionnel et institutions politiques, v 1/150
e 55.; German Jose Bidart Campos, ob. cii., pp. 333 e S5.; Jorge Xifras Heras, Curso de
derecho constitucional, t. II/126 e S5.
DOS PRINCfpIOS CONSTITUCIONAIS DO ESTADO BRASILEIRO 109
A dioisiio depoderes fundamenta-se, pais, em dois elementos: (a)
espe~ializa(iio [uncional, significando que cada orgao e especializado
no exercicio de uma funcao: assim, as assernbleias (Congresso, Ca-
maras. Parlarnento) se atribui a funcao Legislativa; ao Executivo, a
fun<;ao executiva; ao [udiciario, a funcao jurisdicional; (b) indepen-
dencia organica, significando que, alem da especializacao funcional, e
necessario que cada orgao seja efetivamente independente dos ou-
tros, 0 que postula ausencia de meios de subordinacao. Trata-se, pois,
como s~ ve, de uma forma de organizacao juridica das manifestacoes
do Poder. .
o principio da separacao de poderes ja se encontra sugerido em
Ari~t6teles,27John Locke&quot; e Rousseau,&quot; que tarnbem conceberam uma
doutrina da separacao de poderes, que, afinal, em termos diversos,
veio a ser definida e divulgada por Montesquieu.&quot; Teve objetivacao
positiva nas Constituicoes das ex-colonias inglesas da Arnerica, con-
cretizando-se em definitivo na Constituicao dos Estados Unidos de
17.9.1787. Tomou-se, com a Revolucao Francesa, urn dogma consti-
- tucional, a ponto de 0 art. 16 da Declaracao dos Direitos do Homem
e do Cidadao de 1789 declararque nao teria constituicao a sociedade
que nao assegurasse a separacao de poderes, tal a compreensao de
que ela constituiu tecnica de extrema relevancia para a garantia dos
Direitos do Homem, como ainda 0 e.
_Hoje, 0 principio nao configura mais aquela rigidez de outrora.
A ampliacao das atividades do Estado conternporaneo impos nova
visao da teoria cia separacao de poderes e novas formas de relaciona-
mento entre os orgaos legislativo e executivo e destes com 0 judicia-
rio,&quot; tanto que atualrnente se prefere falar ern colaboraciio de poderes,
que ecaracteristica do parlamentarismo, em que 0 governo depende
da confianca do Parlamento (Camara dos Deputados), enquanto, no
presidencialismo, desenvolveram-se as tecnicas da independencia or-
ga,l1ica e harmonia dos poderes.
11. Independencia e harmonia entre os poderes
A Constituicao manteve a clausula &quot;independentes e harmoni-
cas entre si&quot;, propria cia divisao de poderes no presidencialismo,
acrescentada, alias, na Comissao de Redacao.
27. Cf. Politica, IV: II, 'l29Ba.
28. CE. E~sayo sobre el gobierno civil, XII, §§ 143 a 148.
29. CE. Du conirat social, III, l.
30. Cf. De l'esprit des lois, XI,S.
31. Cf. nosso Principios do processo de[ormadio das leis no direiio constitucional,
p.34.
110 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
A independencia dos poderes significa: (a) que a investidura e a
perrnanencia das pessoas num dos orgaos do governo nao depen-
dem da confianca nem cia vontade dos outros; (b) que, no exercicio
das atribuicoes que lhes sejam pr6prias, nao precisam os titulares
consultar os outros nem necessitam de sua autorizacao: (c) que, na
organizacao dos respectivos services, cada urn e livre, observadas .
apenas as disposicoes constitucionais e legais; assim eque cabe ao
Presidente da Republica prover e extinguir cargos publicos da Ad-
ministracao federal, bern como exonerar au dernitir seus ocupantes,
enquanto eda competencia do Congresso Nacional ou dos Tribunais
. prover os cargos dos respectivos services administrativos, exonerar
oudernitir seus ocupantes; as Camaras do Congresso e aos Tribunais
compete elaborar os respectivos regirnentos internos, em que se con-
substanciam as regras de seu funcionamento, sua organizacao, dire-
c;ao e policia, ao passo que ao Chefe do Executivo incumbea organi-
zacao da Administracao publica, estabelecer seus regimentos e regu-
larnentos. Agora; a independencia e autonomia do Poder [udiciario
se tornaram ainda rnais pronunciadas, pois passou para a sua com-
petencia tambern a nomeacao de juizes e tomar outras providencias
referentes asua estrutura e funcionarnento, inclusive em materia or-
camentaria (arts. 95, 96 e 99).
A harmonia entreos poderes verifica-se primeiramente pelas nor-
mas de cortesia no trato reciproco e no respeito as prerrogativas e
faculdades a que mutuamente todos tern direito. De outro lado, cabe
assinalar que nem a divisao de funcoes entre os orgaos do poder nern
sua independencia sao absolutas. Ha interferencias, que visam ao
. estabelecirnento de urn sistema de freios e contrapesos, a busca do
equilibria necessario arealizacao do bern da coletividade e indispen-
savel para evitar 0 arbitrio e 0 desmando de urn em detrimento do
outro e especialrnente dos govemados.
Se ao Legislativo cabe a edicao de normas gerais e impessoais,
estabelece-se urn processo para sua formacao ern que 0 Executivo
tern participacao importante, quer pela iniciativa das leis, quer pela
sancao e pelo veto. Mas a iniciativa legislativa do Executivo e contra-
balancada pela possibilidade que 0 Congresso tern de modificar-
lhe 0 projeto por via de ernendas e ate de rejeita-lo. Por outro lado,
o Presidente da Republica tern 0 poder de veto, que pode exercer
em relacao a projetos de iniciativa dos congressistas como em rela-
c;ao as emendas aprovadas a projetos de sua iniciativa. Em com-
pensacao, 0 Congresso, pelo voto da maioria absoluta de seus mem-
bros, podera rejeitar 0 veto, e, pelo Presidente do Senado, promul-
gar a lei, se 0 Presidente da Republica nao 0 fizer no prazo previsto
(art. 66).
DOS PRINC(PIOS CONSTITUCIONAIS 00 ESTAOO BRASILEIRO 111
Se 0 Presidente da Republica nao pode interferir nos trabalhos
legislativos, para obter aprovacao rapida de seus projetos, e-lhe, 'po-
rem, facultado marcar prazo para sua apreciacao, nos termos dos
paragrafos do art. 64.
Se os Tribunais nao podem influir no Legislative, sao autoriza-
dos -a declarar a inconstitucionalidade das leis.riao as aplicando nes-
te caso.
o Presidente da Republica nao interfere na funcao jurisdicional,
em compensacao os ministros dos tribunais superiores sao por ele
norneados. sob controle do Senado Federal, a que cabe aprovar 0 nome
escolhido (art. 52, III, a).
Sao esses alguns exemplos apenas do mecanisme dos freios e
contrapesos, caracterizador da harmonia entre os poderes..Tudo isso
demonstra que os trabalhos do Legislativo e do Executivo, especial-
mente, mas tarnbem do [udiciario, s6 se desenvolverao a born termo,
se esses orgaos se subordinarem ao principle da ha.rmonia, que nao
significa nem 0 dominic de urn pelo outro nem a usurpacao de atri-
buicoes, mas a verificacao de que, entre eles, ha de haver consciente
colaboracao e controle reciproco (que, alias, integra 0 mecanisme),
para evitar distorcoes e desmandos.A desarmonia, porern, se da sem-
pre que se acrescem atribuicoes, faculdades e prerrogativas de urn
em detrimento de outro.
12. Exceciies ao principia
As constituicoes anteriores estabeleciarn 0 principio