José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
927 pág.

José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


DisciplinaDireito Constitucional I63.077 materiais1.458.272 seguidores
Pré-visualização50 páginas
favoravel"."
A democracia, em verdade, repousa sabre dais principios [unda-
mentais ouprinuirios, que the dao a essencia conceitual: (a) 0 da sobe-
rania popular, segundo 0 qual a povo ea (mica Jonte do poder, que se
exprime pela regra de que todo 0 poder emana do povo; (b) a participa-
~ao, direta all indireta, do povo 110 poder, para que este seja efetiva ex-
pressao da vontade popular; nos casos em que a participacao eindire-
ta, surge urn principio derivado ou secundario: 0 da representaciio. As
tecnicas que a democracia usa para concretizar esses principios tern
variado, e certamente continuarao a variar, com a evolucao do pro-
cesso historico, predominando, no momento, as tecnicas eleitorais
com suas instituicoes e 0 sistema de partidos politicos, como instru-
mentos de expressao e coordenacao da vontade popular.
Igualdade e liberdade, tambem, nao sao principios, mas valores
democraticas, no sentido de que a democracia constitui instrumento
28. Cf. nosso Principios do processo de formafQo das leis no direito constitucional,
pp. 24 e 28. ' .
29. Db. cit., p. 29.
132 CURSO DE DIREITO CONSTlTUC[ONAL POSITIVO
de sua realizacao no plano pratico. A igualdade e 0 valor fundant
da democracia, nao a igualdade formal, mas a substancial. Como ber
exprime Pinto Ferreira:
"Evidentemente, se a igualdade e aessencia da democracia, dey
~er.urna igualdade substancial, realizada, nao 56 forrnalmente no campI
juridico, porern estendendo a sua amplitude as dernais dimensoes d,
.vida socio-cultural, inclusive na zona vital da econornia" .30
E 0 valor fundante porque, sem sua efetiva realizacao, os de
mais nao se verificarao. A forma qualitativamente diferente de reali
zar esses valores eque distingue as duas versoes atuais cia democra
cia - democracia capitalista au burguesa e democracia popular Ot
marxista."
Nesse aspecto, tambern, crem~s que enecessario ernpreender 2
reelaboracao da materia, ·tend o em vista que falar pura e simples-
mente em igualdade e liberdade pode dar a ideia tradicional de
formalismo com quetais termos sao empregados na Iiteratura cons-
titucional e politica. Assirn, preferimos dizer que e.democracia e0 r~gi­
medegaraniia geral para a reaiizadio dos direitos[undameniais do homem.
Como, no entanto, os direitos econornicos e sociais sao conhecidos,
hoje, como indispensaveis aconcretizacao dos direitos individuais,
chega-se aconclusao de que garanti-Ios ernissao de urn regime de-
mocratico eficiente,
Assirn, a democracia - -governo do povo, pelo povo e para .o
.povo - aponta para a realizacao dos direitos politicos, que apontam
para a realizacao dos direitos economicos e sociais, que garantem a
realizacao dos direitos individuais, de que a liberdade ea expressao
mais importante. as direitos economicos e .sociaissao de n~tureza
"' igualitaria, sem os quais osoutros nao se efetivam realmente. E nesse
sentido que tarnbem se pode dizer que os direitos humanos funda-
mentais sao valores da democracia. Vale dizer: ela deve existir para
realiza-los, com 0 que estara concretizando.a justica social.
A insuficiencia da democracia em realizar esses valores 'ate 0
momenta, no plano concreto, nao retirasua validade, pois, como dis-
semos, ela e urn conceito historico, tanto quanto os valores que busca
garantir, 0 que ela nem sempre consegue pacificamente. Ao contra-
rio, por ser govemo do povo, pelo povo e para 0 povo, s6 se firma na
luta incessante, no emba.te constante, nao raro na via revolucionaria,
inclusive quanta ao proprio conceito de povo que eessencial aideia
de ·democracia.
30. Cf. Principios gerais do direito constitucional moderno, t. 1/181.
31. Cf., para pormenores, Ernesto Saa Velasco, Teoria constitucional general, pp.
197 e 55.
DO PRINC1PIO DEMOCRATICO E GAR'ANTrA DOS DIREITOS 133
6. a poder democrdtico e as qualificaciies da democracia
o que da essencia a democracia e 0 fato de 0 poder residir no
pava. Tad~ dernocracia, ~a.ra ser tal, repousa na.v~ntadepopular no
que t~nge a fonte e exercicio do poder, em oposl<;ao .aos reglI~es au-
tocraticos em que 0 poder emana do chefe, do caudilho, do ditador,
Vale dizer, portanto, que 0 conceito de democracia fundamenta-
se na existencia de urn vinculo entre povo e poder. Como este recebe
qualifica<;6es na conformidade de seu objeto e modo de atuacao, cha-
mando-se poder politico, poder econbmico, poder social, a liberacao demo-
cratica vai-se estendendo, corn ocorrer do tempo, a esses modos de
atuac;ao do poder. Isto e, a democratizacao do podere fenomeno histo-
rico, dar 0 aparecimerito de qualificacoes da dernocracia para denotar-
lhe uma nova faceta: dernocratizacao do poder politico, democracia po-
litica; democratizacao do poder social, democracia social; democratiza-
~ao do poder economico, democracia econbmica. Sao incrementos e ajus-
tamentos no conteudo dadernocracia. Jorge Xifras Heras anota, con-
tudo, q~e 0 simples reconhecimento desse vinculo significa bem pou-
co, porquanto a relacao pooo-gooemo oferece varias possibilidades de
interpreta<;ao, nao 56 distintas, mas ate mesmo contraditorias,
Assim, se se considera 0 vinculo sob a perspectiva format a re-
lacao povo-govemorefere-se apenas aformacao do govemo; se se parte
do criteria substancial, a relacao pooo-gouerno converte-se numa rela-
~ao de poder, e a democracia num governo de acao popular: se tiver-
mos em vista 0 criterio teleologico, a relacao povo-governo pode con-
centrar-se no prop6sito de garantir a liberdade e a democracia sera
puramenie poliiica, OU podera visar a consolidacao da soberania do
povo atravesda in&quot;stitui~aode urn regime de democracia socifll.~32
Foi com base nas transformacoes popularese nesse vinculo povo-
poder que Burdeau construiu sua doutrina das tres formas de demo-
cracia: (a) a democracia governada; (b) a democracia gooernanie de tipo
ocidental; (c) a democracia governante de&quot;iipo marxista&quot; A democracia
governada, que corresponde ademocracia politica burguesa do Es-
tado Liberal, foi &quot;construida racionalmente, porque nasceu, nao de
uma rebeldia da fome, mas da especulacao de escritores politicos, 0
impulse moral e0 civismo, a virtude mais her6ica; 0 impulso politi-
co do cidadao, quer dizer, urn tipo de homem que so a cultura e a
razao produzem. Disso resulta que, em tal regime, quem'govema e0
cidadao, enquanto os homens reais, com suas vinculacoes pessoais,
seus interesses e .suas ambicoes, sao governados&quot;.34 A democracia
32. Cf. Derecho constitucional, t.- II/21 e 22.
33. Cf. Traiii de science poliiique, t. V/581
34. Cf. Burdeau, La democracia, p. 40.
134 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
gooernante de tipo ocidenial, que se filia agovernada por seu carate- .~
essencial de respeito ao pluralismo das ideias ·de direito gra<;as ao ~
ordenamento constitucional de urn poder aberto, constitui-se coin '
base na ·vontade do povo real, coletividade sociologica, enquanto a
democracia governante de tipo marxista,que tarnbem se fundamenta na
vontade do povo real e da massa trabalhadora, adota uma ideia de
direito oficial.rnarxista, e uma estrutura de poder fechado, consequen-
.cia de sua afetacao a uma ideologia unica e hornogenea.&quot; Esses tipos
de democracia governante tendem respectivamente ademocracia de
conteudo social (charnada democracia social) e de conteudo econo-
mico (chamada dernocracia economica), respectivarnente, embora,
na concepcao de Burdeau, 0 conceito de democracia social abranja a
ambas, em termos que podemos aceitar, porque trazem implicita a .
historicidade, quando salienta que seu objetivo se resume naliberta-
\ao do individuo de todas as formas de opressao, para concluir espe-
cificamente:
&quot;Politicamente, 0 objetivo da democracia ea liberacao do indivi-
duo das coacoes autoritarias, a sua participacao no estabelecimento
da regra, que, em todos os dominios, estara obrigado a observar. Eco-
nomica e socialmente, 0 beneficia da democracia se traduz