José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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sitivo, os principios fundamentais da ordem dernocratica adotada.
Outros preceitos, que verernos, oferecem os desdobrarnentos para
seu funcionamento.
Euma tematica que merece reflexao critica. Pois, setoda derno-
cracia importa na pariicipaciio do povo no processo do poder, nem toda
.dem ocracia epariicipatioa, no sentido conternporaneo da expressao.
A ·denlocracia representativa pressupoe urn conjunto de institui- ·
c;6esque disciplinarn a participacao popular no processo politico, que
vern a formar os dire-itos politicos que qualificarn a cidadania, tais
como as eleicoes, 0 sistema eleitoral, as partidos politicos etc., como
constam dos arts. 14 a 17 da Constituicao, que merecerao considera-
c;ao especial, mais adiante, quando formos tratar dos direitos politi-
cos.
Na democracia representativa a participacao popular eindireta,
peri6dica e formal, por via das instituicoes eleitorais que visam a
disciplinar as tecnicas de escolha dos representantes do povo. A ordem
democratica, contudo, nao eapenas uma questao de eleicoes perio-:
dicas, em que, par meio do voto, sao escolhidas as autoridades go-
vemamentais. Por urn lade, ela consubstancia urn proce?imento tecni-
138 CURSO DE DIREITO CONSTITUCION AL POSITIVO
co ·para a designacao de pessoas para 0 exercicio de funcoes gover-
namentais. Par outro, eleger significa expressar preferencia entre a1-
ternativas, realizar urn ato formal de decisao politica, Realmente, nas
democracias de partido e sufragio universal, as eleicoes tendem a
ultrapassar a pura funcao designat6ria, para se transformarern num
instrurnento, pelo qual 0 povo adere a uma politica governamental e
confere seu consentimento, e, por.consequencia, legitimidade, as au-
toridades governamentais. Ela e, assim, 0 modo pelo qual 0 pova,
nas democracias representativas; participa na formacao da vontade
do governo e no processo politico."
10. 0 mandate politico representatiuo
A eleicao gera, em favor do eleito, 0 mandaiopolitico representaii-
vo, que constitui 0 elemento basico da democracia representativa.
Nele se consubstanciam os principios da representacdo e da uuiori-
dade legitima. 0 primeiro significa que 0 poder, que reside no povo, e
exercido, em seu nome, por seus representantes periodicamente elei-
tos, pais uma das caracteristicas do mandato e ser temporario." 0
segundo consiste em que 0 mandata realiza a tecnica constitucional
par meio da qual 0 Estado, que carece de vontade real e pr6pria,
adquire condicoes de manifestar...se e decidir, porgue epelo mandato
que se constituem as orgaos govemamentais, dotando-os de titula-
res e, pais, de vontade humana, mediante as quais a vontade do Es-
tado eformulada, expressada e realizada, au, ppr outras palavras, 0
poder se imp6e.
o mandato se diz politico-representativo porque constitui uma si-
tuacao juridico-politica com base na qual alguern, designado par via
eleitoral, desempenha uma funcao politica na democracia represen-
tativa. Edenominado mandaio representaiioo para distinguir-se do
mandate de direiio privado e do mandato imperativo. 0 primeiro e urn
contrato pelo qual 0 outorgante confere ao outorgado poderes para
41. Cf. Nils Diederich, "Elecciones, sistemas electorales", in Marxisnzo y demo-
cracia (Enciclopedia de conceptos basicos): politica 3, p. l.
42. Essas exigencies .do mandato representativo decorrem de normas expres-
sas da Constituicao. Assim, 0 principio da forma representativa consta do paragrafo
unico do art. 1Q, quando diz que 0 poder eexercido diretarnenteou em seu nome por
represeniantes eleitos e no art. 34, VII, a, quando destaca a forma republicana, represen-
tativa e democrdiica como um dos principios constitucionais. A ternporariedade do
mandata e explicitarnente fixada em quatro anos para Deputados, Governadores,
Vice-Covernador, Prefeito e Vice-Prefeito (arts. 27, 28, 29, I, 32, §§ 1Q e 2Q, 44, para-
grafo unico), em oito anos .para Senadores (art. 46, § 12) e em quatro anos para Presi-
dente e Vice-Presidents da Republica (art. 82).
DO PRINCtPIO DEMOCRATICO E GARANTIA DOS DtREITOS 139
representa-lo em algum neg6cio juridico, praticando atos em .seu
nome, nos termos do respectivo instrumento (procuracao): nele 0
mandahirio fica vinculado ao mandante, tendo que prestar contas a
este, e sera responsavel pelos excessos que cometer no seu exercicio,
podendo ser revogado quando 0 rnandante assirn 0 desejar. 0 man-
dato imperativo vigorou antes da Revolucao Francesa, de acordo com
o qual seu titular ficava vinculado a seus eleitores, cujas instrucoes
teria que seguir nas assernbleias parlamentares; se ai surgisse fato
novo, para 0 qual nao dispusesse de instrucao, ficaria obrigado a
obte-la dos eleitores, antes de agir; estes poderiam cassar-lhe a repre-
senta<;ao. Ai 0 principio da revogabilidade do mandato imperativo.
o mandaio representatioo ecriacao do Estado liberal burgues, ain-
da como urn dos meios de manter distintos Estado e.sociedade, e
mais uma forma de tornar abstrata a relacao povo-governo, Segun-
do a teoria da representacao politica, que se concretizano mandato,
o representante nao fica vinculado aos representados, por nao se tra-
tar de uma relacao contratual; egera), livre, irreoogiiuel em principio, e
nao comporta ratificacao dos atos do mandatario. Diz-se geral, por-
que 0 eleito por uma circunscricao ou mesmo por urn distrito nao e
representante 56 del,a au dele, mas de todas as pessoas que habitam 0
territorio national. E livre, porque 0 representante nao esta vincula-
do aos seus eleitores, de quem nao recebe instrucao alguma, e se re-
cebernao tern obrigacao juridica de atender, e a quem, por tudo isso,
nao tern que pres tar contas, juridicamente falando, ainda que politi-
camente 0 faca, tendo em vista 0 interesse na reeleicao, Afirma-se, a
proposito, que 0 exercicio do mandato decorre de poderes que a Cons-
tituicao confere ao representante, que the garantem a autonomia da
vontade, sujeitando-se apenas aos ditames de sua consciencia. Eirre- .
oogauet, porque 0 eleito tern 0 direito de manter 0 mandata durante 0
tempo previsto para sua duracao (cf nota 42), salvo perda nas hip6-
teses indicadas na 'p ropria Constituicao (arts. 55 e 56). Em alguns
paises epossivel a revogacao do mandato por certa numero de votos
dos eleitores, e0 caso de recall nos EVA e era a da revocacao na anti-
ga Uniao Sovietica, as constituintes recusaram incluir a destituicao
de mandatos em certos casos, conforme varias propostas apresenta-
das. Ficamos, pois, com 0 principio do mandato irrevogavel,
Ha muito de ficcao, como se ve, no mandato representativo. Pode-
se dizer que nao ha representacao, de tal sorte que a designacao de
mandatario nao passa de simples tecnica de formacao dos orgaos
governamentais. E 56 a isso se reduziria 0 principio da participacao
popular, 0 principio do governo pelo povo na democracia represen-
tativa. E, em verdade, nao sera urn governo de expressao da vontade
popular, desde que os atos de governo se realizam com base na vanta-
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de autonoma do representante. Nesses termos, a democracia repre-
sentativa acaba fundando-se numa ideia de igualdade abstrata pe-
rante a lei, numa -consideracao de homogeneidade, e assenta-se no
principia individualista que considera a participacao, no processo
do poder, do eleitor individual no momenta da votacao, 0 qual t'nao
dispoe de mais influencia sobre a vida politica de seu pais do que a
momentanea de que goza no dia da eleicao, por 'cer ro relativizada
por disciplina au automatismo partidario e pela pressao dos meios
de informacao e da desinforrnacao da propaganda; que, uma vez
produzida a eleicao, os investidos .pela representacao ficam desliga-
dos de seus eleitores, 'pois nao os representam a eles em particular,
mas a todo -0 ·povo, a nacao inteira&quot;.&quot; A representacao e montada
sobre a mito cia&quot;identidade entre povo e representante