José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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popular" que
tende "a fundar a crenca de que, quando este decide ecomo se deci-
disse aquele, que 0 segundo resolve pelo primeiro, que sua decisao e
a decisao do povo;... que, em tal suposicao, 0 povo se autogoverna,
sem que haja desdobramento, atividade, relacao intersubjetiva entre
dais entes distintos; 0 povo, destinatario das decisoes, e 0 represen-
tante, auior, auioridade, que decide para 0 povo" .44
Contudo, a evolucao do processo politico vern incorporando
outros elementos na democracia representativa que promovem uma
relacao mais estreita entre as mandataries e 0 povo, especialmente
os instrumentos de coordenacao e expressao da vontade popular:
partidos politicos, sindicatos, associacoes politicas, comunidades de
base, imprensa livre, de tal sorte que a opiniao publica -exp.ressaa da
cidadania - acaba exercendo urn papel muito importante no sentido
~~ ._ql!.e os eleitos prestern mais atencao as reivindicacoes .do povo,
mormente as de suas bases eleitorais. 0 sistema de partidos politi-
cos, especialmente, tende a dar feicao imperativa ao mandato politi-
co, na medida em que os representantes partidarios estejam compro-
metidos ~om 0 cumprimento de programa e diretrizes de sua agre-
miacao. E claro que .essa natureza de mandata imperativo, em fun-
c;ao da orientacao do partido, se tornara cada vez mais uma vincula-
c;ao ao povo, na proporcao em q.ue os partidos se facam mais demo-
craticos, com seus orgaos dependentes de rnais ampla vontade de
seus filiados. Entao, a questao se apresenta com duas faces: em rela-
c;ao aos partidos de massa e de estrutura interna democratica, oman-
data partidiirio (pois, assim devera ser chamado 0 mandato represen-
tativo que se faca por meio de partido politico) realizara uma .ten-
dencia de mandata imperativo de carater popular e democratico,
43. CE. Luis Carlos Sachica, Democracia, representacion, participacion, p. 14.
44. Idem, p. 15.
00 PRINC1PIO DEMOCRATICO E GARANTIA 005 DIREITOS 141
especialmente se ~ infidelidade partidaria causar a perda de manda-
ta; em relacao, porem, aos partidos de quadro, ao contrariorrealizara
urna funcao de mandata imperativo de carater oligarquico, 0 que,
em certo sentido, ainda acontece entre nos, com alguma propensao
ao prirneiro tipo, que' 56 nao se efetiva dada a interferencia constante
do poder na estrutura partidaria.
o tipo de sistema eleitoral tarnbem exerce influencia na repre-
sentatividade, especialmente se tivermos em conta que forma com 0
sistema de partidos politicos dois mecanismos.de expressaoda von-
tade popular na escolha dos govemantes. 0 sistema de representa-
c;ao proporcional, especialmente, consoante veremos, favorece a me-
lhor ~ mais equitativa representatividade do povo, visto como, por
ele, a representacao, em determiriada circunscricao, se distribui ern
p,ropor<;ao as ·corren tes ideologicas ou de interesse integradas nos
partidos politicos.
11. Democracia participativa
o qu~ se quis acentuar com as consideracoes sU.pra eque 0 siste-
ma de partidos, com a sufragio universal e a representacao proporcio-
nal,: da a democracia representativa urn sentido mais concreto, no
qual desponta com mais nitidez a ideia de pariicipaciio, nao tanto a
individualista e isolada do eleitor no so momenta da eleicao, mas a
coletiva organizada, Mas sera ainda participacao representativa, que
assenta no principia eleitoral. Ora, qualquer forma de participacao
ql.).e dependa de eleicao nao realiza a democracia participativa no
senlido atual dessa expressao, A eleicao consubstancia 0 principio
&quot;representativo, segundo oqual oeleito pratica atos em nome do povo.
o principia participativo caracteriza-se pela participacao direta e
pessoal da cidadania na formacao dos atos de govemo.
As primeiras manifestacoes da democracia participativaconsis-
tiram nos institutes de democracia semidireta, que combinam institui-
coes de participacao direta com instituicoes de participacao indireta,
tais como:
- a iniciaiioa popular pela qual se admite que 0 povo apresente
projetos de lei ao legislativo, desde que subscritos por ruimero razoa-
vel de eleitores, acolhida no art. 14, III, e regulada no art. 61, § 2Q; 0
projeto precisa ser subscrito por, no minima, urn por cento do eleito-
rado .nacion al (cerca de '800.000 eleitores), distribuidos pelo menos
em cinco Estados, com nao menos de tres decimos por cento dos ele~­
tores de cada urn deles; estatui-se tambem que lei dispora sobre a
iniciativa popular no processo legislativo estadual, enquanto que,
em relacao aos Municipios, ja se dispos que a sua lei organica adota-
142 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
ra a iniciativa popular de leis de interesse especifico do Municipio,
da cidade ou de bairros, atraves de manifestacao de, pelo menos,
cinco por cento do eleitorado; pena, nao ter sido acolhida a iniciativa
popular em materia constitucional;
- 0 referenda popular que se caracteriza no fato de que projetos
de lei aprovados pelo legislativo devarn ser submetidos a vontade
popular, atendidas certas exigencies, tais como pedido de certo nu-
mere de eleitores, de certo numero de parlamentares ou do proprio
chefe do executivo, de sorte que 0 projeto se tera por aprovado ape-
nas se receber votacao Iavoravel do corpo eleitoral, do contrario, re-
putar-se-a rejeitado; esta previsto no mesmo art. 14, II, sendo da corn-
petencia exclusiva do Congresso.Nacional autoriza-lo (art. 49, XV),
mas a Constituicao nao estabeleceu as condicoes de seu exercicio;
fica livre 0 Congresso Nacional de autoriza-lo tambern em materia
constitucional: ele pode mesmo expedir uma lei definindo criterios e
requisites para seu exercicio:
- 0 plebiscita e tarnbem uma consulta popular, semelhante ao
referendo; difere deste no fato de que visa a decidir previarnente uma
questao politica ou institucional, antes de sua formulacao legislati-
va, ao passo que 0 referendo versa sabre aprovacao de textos de pro-
jeto de lei ou de ernenda constitucional, ja aprovados; 0 referendo
ratifica (confirma) ou rejeita 0 projeto aprovado; 0 plebiscito autori-
za a formulacao da medida requerida; alguma vez.fala-se ern referen-
da consuliioo no sentido de plebiscito, 0 que nao ecorreto.&quot; 0 plebis-
cita esta previsto no art. 14, I, podendo ser utilizado pelo Congresso
Nacional nos casos que este decidir seja conveniente, mas ja tambern
indicado em cases especificos, para a formacao de novos Estados e
de novos Municipios (art. 18, §§ 3Q e 4Q);46
- a a(iio popular, ja existente no constitucionalismo brasileiro,
desde a Imperio, mantida no art. SQ, LXXIII, da Constituicao, aqual
dedicarernos maior espa«;o mais adiante.
A Constituicao adotou outras formas de democracia participati-
va, como as consagradas nos arts. io. 11,31, § 3Q, 37, § 3Q, 74, § 2Q, 194,
VII, 206, VI, 216, § 1Q.
45. Tipico nesse sentido eo referendo consultivo previsto no art. 92 da Consti-
tuicao Espanhola sabre &quot;decisiones politicas de especial transcendencia&quot;, erronia
tecnica observada por Juan A. Santamaria, em cornentario ao referido dispositivo,
, in Fernando Garrido Falla e outros, Comentatios a fa constitution, p. 1.317, nota 4.
46. Importante for 0 plebiscite realizado em 21.4.1993, pelo qual 0 eleitorado
definiu a forma de Estado (republica e nao monarquia constitucional) e 0 sistema de
governo (presidencialisrno e nao parlamentarismo). Note-se que 0 veto popular, modo
de consulta ao eleitorado sobre uma lei existente, visando revoga-Ia pela votacao dire-
ta, aprovado no 1Q turno pela Assernbleia Nacional Constituinte, nao vingou ao final.
DO PRINcIpia ' DEMOCRATICO E GARANTIA DOS DIREITOS 143
12. Delnocracia pluralista
o Estado Dernocratico de Direito, em que se constitui a Republi-
ca Federativa do Brasil, assegura as valores de uma sociedade pluralisia .
(Preambulo) e Iundamenta-se no pluralismo politico (art. 1Q, V).
A Constituicao opta, pais, pela sociedade pluralista que