José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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representantes eleitos atraves de parti-
dos politicos, arts. 1Q, paragrafo unico, 14 e 17; associacoes, art. .5Q,
XXI; sindicatos, art. 812, III; eleicao de empregados junto aos empre-
gadores, art. 11) e pariicipaciio por via direia do cidadiio (exercicio direto
, do poder, art. 1Q, paragrafo unico: iniciativa popular.referendoe ple-
biscito, ja indicados; participacao de trabalhadores e ernpregadores
na administracao, art. 10, que, na verdade, vai caracterizar-se como
uma forma de participacao por representacao, j~ que certamente vai
ser eleito algum trabalhador ou empregador para representar as res-
pectivas categorias, e, se assim e. nao se da participacao direta, mas
por Via representativa; participacao na administracao da justica pela
acao popular; participacao da fiscalizacao finance ira municipal, art.
31, § 3<1; participacao da comunidade na seguridade social, art. 194,
VII; participacao na administracao do ensino, art. 206, VI).59 &quot;
A esse modele, a Constituicao incorpora principios da justica
social e do pluralismo. Assim 0 modelo e 0 de uma democracia social,'
participaiioa e piuralista. Nao e, porem, uma democracia socialista,
pais 0 modelo economico adotado efundamentalmente capitalista.
E precise, porern, esclarecer que democracia pluralista nao eincom-
pativel com socialismo. Reconhece-se que lise possa efetivarnente
instaurar urn sistema socialista em que sejam mantidas as caracteris-
ticas de uma democracia pluralista: vale dizer, urn socialismo operante
numa sociedade onde continuern a existir mais Iormacoes sociais,
habilitadas a exprimir os seus interesses, ideais e rnateriais, e buscar
inseri-los, atraves dos canais democraticos, na vida politica e na acao
dos poderes publicos&quot; .60 I
59. Sobre 0 tema, cf. Manuel Ramirez, ob. cit., pp. 66 e ss.
60. Essa ea opiniao corrente 'no campo da &quot;esquerda rnediterranea&quot;, consoan-
te anota Carlo Lavagna, Costituzione e socialismo, p. 83, que, no entanto, nao parece
cornpartilhar inteiramente com aquela opiniao (cf. pp. 83 a 85). Burdeau diz que a
democracia pluralista eurn regime ao mesmo tempo liberal, na medida em que per~
manece ligado a autonomia da pessoa humana, consagrando todas as liberdades
gra~asas quais 0 individuo se libertou progressivamente da tutela estatal, socializante,
porque sua legislacao estara preocupada em satisfazer imperativos econ6micos e
sociais do nosso tempo, atribuindo ao Estado tarefas que exigem urn aurnento da
sua autoridade, urn reforco de seu controle, 0 estabelecimento de diretivas e de limi-
tacoes que excluem 0 liberalismo econornico (cf. A democracia, pp. 72 e 73).
SEGUN&quot;DA PARTE
DOS DIREITOS
E GARANTIAS FUNDAMENTAlS
Titulo I
A Declaraciio de Direitos
Capitulo 1
FoRMA(AO HISTOR1CA
.DAS DECLA~C;()ESDE DIREITOS
1. Generalidades. 2. Antecedentes das.declaraciies dedireitos. 3..Cartas edecla-
racoes inglesas. 4. A Declaraciio de Virginia. 5. A Declaraiiio Norte-America-
na. 6. A Declaraciio dos Direiios do Homem e do Cidadiio. 7. A Declaraciio do
Pouo Trabalhador e Explorado. 8. Unitersaiiuuiio das declaraciies de direitos.
9. Declaradio de direitos nas consiiiuidies contempordneas. 10. Declaraciio.de
direitos nas constituicoes brasileiras.
1. Generalidades
Iniciamos aqui 0 estudo dos direitos [undamentais do homem, ex~
pressao que, na atual Constituicao, abrange direitos individuais, po-
liticos, sociais. Teremos que considerar, tambern, os direitos econo-
.micos~: Nao nos preocupara, por enquanto, contudo, a questao do
conceito e ·da terminologia respeitante aos direitos do homem. A isso
dedicaremos 0 Capitulo II deste Titulo, depois que examinarmos as
declaracoes de direitos, cuja evolucao e conteudo nos orientarao na
forrnulacao .de sua :teoria e certamente ajudarao a compreender 0
conteudo do nosso Direito positivo sobre a materia.
2. Antecedentes das declaraciies de direitos
o reconhecimento dos direitos fundamentals do homem, em enun-
ciados explicitos nas declaracoes de direitos, ecoisa recente, e esta lon-
ge de se esgotarem suas possibilidades, jaque cada passo na etapa da
evolucao da Humanidade irnporta na conquista de novos direitos. Mais
que conquista, 0 reconhecimento desses direitos caracteriza-se como
reconquista de alga que, ern 'termos primitivos, se perdeu, quando a
sociedade se dividira entre proprietaries e nao proprietaries.
150 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
Efetivamente, na sociedade primitiva, gentilica.os hens perten-
ciam, em conjunto, .a todos os gentilicos e, entao, se verificava uma
comunhao dernocratica de interesses.' Nao existia poder algum do-
minante, porque 0 poder era interne asociedade mesma. Nan ocor-
ria subordinacao nem opressao social au politica. 0 homem buscava
liberar-se da opressao do meio natural, mediante descobertas e in-
vencoes. Com a desenvolvimento do sistema de apropriacao priva-
da, contudo, apare~e uma forma social de subordinacao e de opres-
sao, pois 0 titular da propriedade, mormente da propriedade territo-
rial, impoe seu dominio esubordina tantos quanta se relacionem com
a coisa apropriada. Surge, assim, uma forma de poder extemo a50-
ciedade, que, por necessitar impor-se e fazer-se valer eficazrnente, se
torna politico. E at teve origem a escravidao sistematica, diretamente
relacionada com a aquisicao de bens.' 0 Estado, entao, se forma como
aparato necessario para sustentar esse sistema de dorninacao. 0 ho-
mem, entao, alern dos empecilhos da natureza, viu-se diante de
opress6es sociais e politicas, e sua hist6ria nao e senao a historia
das lutas para delas se libertar, e 0 vai conseguindo a duras penas.
E chegara 0 dia - ainda segundo 'Morgan - &quot;em que 0 intelecto
humano se eleva ate dominar a propriedade e defina as relacoes do
Estado com a propriedade que salvaguarda e as obrigacoes e limi-
tacoes de direitos do seu dono. Os interesses da sociedade sao maio-
res que os dos individuos e devem ser colocados em uma relacao
justa e harmonica. [...[A democracia no governo, a fraternidade na
sociedade, a igualdade de direitos e privilegios e a educacao uni-
versalantecipam 0 proximo plano mais elevado da sociedade, ao
qual a. experiencia, 0 intelecto e 0 saber tendem firmemente. Sera
uma ressureicao, em forma mais elevada, da liberdade, igualdade e
fraternidade das antigas gentes&quot;.&quot;
Certo eque, no correr dessa evolucao, alguns antecedentes for-
mais das declaracoes de direitos foram sendo elaborados, como 0
veto do tribuno da plebe contra acoes injustas dos patricios em Roma,
a lei de Valerio Publicola proibindo penas corporais contra cidadaos
em certas situacoes ate culminar com 0 Interdicto 'de Homine Libera
Exhibendo, remoto antecedente do habeas corpus modemo, que 0 Di-
reito Romano instituiu como protecao juridica da liberdade.&quot; Nao nos
iludamos, contudo, porque essas medidas tinham alcance limitado
1. Cf. Rudolf von Jhering, Uesprit du Droit Romain dans Ies diverses phases de son
deoeloppement,s: 1/203, § 17; Lewis H. Morgan, Lasociedad primitiua, p. 531; Friedrich
Engels, A origem da familia, da propriedade e do Estado, P: 150.
2. Cf. Morgan, ob. cit., p~ 534.
3. Db. cit,pp. 543 e 544.
, 4. Cf. Domingo Garcia Belaunde, EI &quot;habeas corpus&quot; en el Peru, p. 2.
FORMAC;AO HIST6RICA DAS DECLARAC;OES DE DIREITOS 151
aOS rnernbros da classe dominante, mas, em Atenas, ja se Iutava pe-
las liberdades democraticas.&quot; Foi, no entanto, no bojo daIdade Me-
dia que surgiram os antecedentes mais diretos das declaracoes de di-
reitos. Para tanto contribuiu a teoria do direito natural que condicio-
nou 0 aparecimento do principia das leis[undamentais do Reine lirni-
tadoras do poder do monarca, assim como 0 conjunto de principios
que se chamou humanismo.Ai floresceram as pactos, os foraise as car-
tas de franquias,6 outorgantes de protecao de direitos reflexamente
individuais, embora diretamente grupais, estamentais, dentre os quais
mencionam-se, por primeiro,