José Afonso da Silva   Curso de Direito Constitucional Positivo   25ª Edição 2005
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José Afonso da Silva Curso de Direito Constitucional Positivo 25ª Edição 2005


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coisa e, par extensao, a de organizacao inter-
na de seres e entidades. Nesse sentido eque se diz que iodo Estado
tern constituiciio, que e0 simples modode ser do Estado.
A consiituiciio do Estado, considerada sua lei fundamental, seria,
entao, a organizacao dos seus elementos essenciais: urn sistema de
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normas [uridicas, escriias ou cosiumeiras, que regula aforma do Estado, a
forma de sellgoverl1o, 0 modo de aquisiciio e 0 exercicio do poder, °estabele-
cimento de seus 6rgiios, os lin-lites de sua actio, os direiios[undamentais do
homemeas respectivas garaniias. Emsiniese, a consiituiciioe0 conjunto de
normas que organize os elementos constiiutiuos do Estado.1
2. Concepciies sobre as consiituiciies
Essa nocao de constituicao estatal, contudo, nao expressa senao
umaideia parcial de seu conceito, porque a toma como algo desvin-
culado da realidade social; quando deve ser concebida como uma
estrutura normativa, uma conexao de sentido, que envolve urn con-
junto de valores. Mas aqui surge urn campo de profundas divergen-
cias doutrinarias: em que seniido se. deve conceber as constituicoes:
no sociol6gico, no politico au no puramenie juridico?
Ferdinand Lassalle 'as entende no sentido sociol6gico. Para ele, a
constituicao de urn pais e, em essencia, a soma dosfatores reais do poder
que rege-m nesse pals, sendo estaa consiituiciioreal e efetiva, nao passan-
do aconstituicao escrita de uma n folha de papel",? Outros, como Carl
Schmitt, ernprestam-Ihes seniido politico, considerando-as como deci-
sao politica fundamental, decisiio concreta de conjunto sabre 0 modoeforma
de exisiencia da unidade politicQ,.fazendo distincao entre consiituiciio e
leis constitucionais; aquela 56 se refere adecisao politica fundamental
(estrutura e orgaos do Estado, direitos individuais, vida democratica
etc.); as leis constitucionais sao as demais dispositivos inscritos no
texto do documento constitucional, que nao contenharn materia de
decisao politica fundamental.' Outra corrente, liderada por Hans
1. A doutrina distingue tres elementos constitutivos do Estado: territorio, popu-
farao e goven10. Certos autores, como Alexandre Groppali, admitem outro elemento
- a[inalidade (cf. Douirina do Esiado, pp. 123 e ss.). Parece-nos cabivel a considera-
t;ao da finalidade, concebido 0 Estado como urna entidade de fins precisos e deter-
minados: regular globalmente em todos os seus aspectos, a vida social de dada co-
munidade (cf. Giorgio Balladore Pallieri, Diritto costituzionale, p. 10), visando a rea-
lizacao do bern cornum. 0 Estado e, assim, urna ordenaciio que tern parJim especifico
e essencial a regularnentacao global das relacoes sociais entre os membros de uma
dada populaiiio sobre urn dado terriiorio (cf. Balladore Pallieri, ob. cit., p. 14), desta-
cando, na definicao, as quatro elementos constitutivos, entre os quais 0 termo orde-
na¢o da a ideia de poder institucionalizado, governo constitucional. Cf. tarnbern
Dalmo de Abreu Dallari, Elementos de teoria geral do Estado, pp. 64 a 104.
2. Cf. Que es una constitucion], pp. 61 e 62; sociologica tambern ea posicao de
Charles A. Bear, Una interpretacion economica de la constitucion de los Estados Unidos,
Buenos Aires, Ed. Araiu, 1953, trad. de Hector Saenz y Quesada; de Harold J. Laski,
Legouuernement parlementaire en Angleterre, Paris, PUF, 1950, trad. de Jacques Cadart
e Jacqueline Prelot, e La crisis de La democracia, Buenos Aires, Ed .. Siglo Veinte, 1950,
trad. de Armando Bazan, bern como a concepcao marxista.
3. Ct. Teoria de La constiiucion, pp. 20 e 55.
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Kelsen, ve-as apenas no seniido [uridico, constituicao e, entao, consi-
derada norma pura, puro deuer-ser, sem qualquer pretensao a funda-
mentacao sociologica, politica ou filos6fica. A concepcao de Kelsen
toma a palavra constituicao em dois sentidos: no logico-juridico e no
[uridico-positioo, de acordo com 0 primeiro, constituicao significa nor-
ma[undamental hipoteiica, cuja funcao eservir de' fundamento l6gico
transcendental da validade da constituicao[uridico-posuioa que equi-
vale a norma positiva suprema, conjunto de normas que regula a
criacao de out-ras normas, lei nacional no seu rnais alto grau.4
Essas concepcoes pecam pela unilateralidade. Varies autores, por
isso, tern tentado formular conceito unitario de constituicao, conce-
bendo-a em sentido que revele conexao de suas normas com a totali-
dade da vida coletiva; consiituiciio total, "mediante a qual se processa
a integracao dialetica dos varies conteudos da vida coletiva na uni-
dade de uma ordenacao fundamental e suprema"."
Busca-se, assim, formular uma concepciio estrutural de constitui-
(ao, que a considera no seu aspecto normativo, nao como norma pura,
mas como norma em sua conexao com a realidade social, que the da
o conteudo Iatico e 0 sentido axio16gico. Trata-se de urn complexo,
nao de partes que se adicionam ou se somam, mas de elementos e
membros que se enlacarn num todo unitario. 0 sentido juridico de
constituicao nao se obtera, se a apreciarrnos desgarrada da totalida-
de da vida social, sem conexao com 0 conjunto da comunidade. Pais
bem.certos modos de agir em sociedade transformam-se em condu-
tas humanas valoradas historicamente e constituem-se em fundamen-
to do existir comunitario, formando os elementos consiiiucionais do
grupo social, que 0 constituinte intui e revela como preceitos norma-
tivos fundamentais: a consiituiciio.
A constituicao ealga. que tern, CO1110[erma, urn complexo de nor-
mas (escritas ou costumeiras); como conieudo, a conduta humana
motivada pelas relacoes sociais (economicas, politicas, religiosas etc.);
como jim, a realizacao dos valores que apontam para a existir da co-
munidade. :e, finalrnente, como causa criadora e recriadora, 0 poder que
emana do pavo. Nao pode ser compreendida e interpretada, se nao
se tiver em mente essa estrutura, considerada como conexiio de senti-
do, como e tudo aquila que integra urn conjunto de valores. Isso nao
4. Cf. Teoria Pura do Direiio,v. 1/1, 2, 7 e 55. e v. II/12, 19 e 55.; Teoria General del
derecJzo y del Esiado, pp .. 5 e 55./ 65 e 55./ 135 e 147.
5. Cf. Pinto Ferreira, Principios gerais do direito consiitucional moderno, t. 1/31, e
Da Constiiuiciio, p. 24; no mesmo sentido, ernbora sob orientacao diferente, Manuel
Garda-Pelayo, Derecho constitucionalcomparado, pp. 20, 100, 101 e 111;Hermann Heller,
Teoria del Estado, pp. 269 a 290; nosso Aplicabilidade das normas consiiiucionais, pp. 20
a 25.
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impede que 0 estudioso de preferencia a dada perspectiva. Pode
estuda-la sob 0 angulo predominantemente formal, au do lade do
conteudo, au dos valores assegurados, au da interferencia do poder.
3. Classificaciio das constituiciies
A doutrina apresenta varies rnodos de classificar as constitui-
coes, nao havendo uniformidade de pontos de vista.sobre 0 assunto.
Adotamos a seguinte:
(a) dogmaticas
(b) hist6ricas
(a) escritas
(b) nao escritas
CLASSIFICA<;Ao
DAS
CONSTITUI<;OES
1. ouanio ao conteudo
2. quanioa[orma
3. quanto ao modo
de elaboraciio
4. quanta il origem
I{a) materiais(b) formais
I
I
(a) populares
(democraticas)
(b) outorgadas
5. quanto iz estabilidade
, -
(a) rigidas
(b) flexiveis
(c) semi-rigidas
A consiituiciio material econcebida em sentido amplo e ern senti-
do estrito. No primeiro, identifica-se com a organizacao total do Es-
tado, com regime politico. No segundo, designa as normas constitu-
cionais escritas au costumeiras, inseridas au nao nurn documento
escrito, que regulam a estru-tura do Estado, a organizacao 'd e seus
orgaos ,e as direitos fundamentals.&quot; Neste caso, constituicao 56 se re-
6. Nesse sentido eque a Constituicao do Imperio do Brasil, nos termos de seu
art. 178, definia como conslitucional 56 0 que dissesse respeito aos limites e atribui-