Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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acréscimos na matéria, novas estratificações exteriores que tornam espesso o invólucro e 
encadeiam o espírito ao lastro terreno, que é feito de dor. 
 
Para quem vê e compreende, é espantoso esse espetáculo. Seria ridículo, se não fosse 
mortificante. É uma corrida dilacerante para o inútil. Tal é o mundo a que falo, eu o sei. Falo de 
elevações de espírito as mais rarefeitas atmosferas da inteligência e do amor Pretendo arrebatar o 
leitor ainda para mais além, em arroubos divinos. Levá-lo-ei, plenamente, à sensação do êxtase 
místico, porque esta é a substância do fenômeno. Serei compreendido? Sei bem que se trata 
muitas vezes de almas de idades diferentes, de diversa e menos profunda maturação interior,
 
para 
cuja insensibilidade são necessários certos abalos brutais. Mas, a dor delas é real e me dilacera. 
Sinto-as chamar de muito longe. Conquanto não a entendam, nem a admitam, ela implica para 
mim o tremendo dever de dar-me para o bem delas. Vejo-as sufocar, imersas até a garganta, na 
treva e no tormento; vejo iminentes os perigos de agora, que elas ignoram. Para que, pois, 
deveria eu viver,
 
a não ser para ajudar. Não tenho eu o dever de restabelecer, onde há mais 
necessidade, aquela luz que do alto chove em torrentes, gratuitamente,
 
sobre mim? 
 
A organização unitária e compacta do universo impõe uma solidariedade entre o alto e o 
baixo, no labor de ascender. Quem mais tem mais deve dar. E por esta razão de equilíbrio e de 
amor que o extremo da grandeza de Cristo se casou com o extremo oposto de sua cruenta paixão. 
Através de meu espirito movem-se forças que, na harmonização destes planos, são de todos. Não 
posso insular-me. O universo é agora para mim um concerto; é necessário viver, harmonizando-
se. Sinto-me enlevado no caminho do retorno e sobe comigo para Deus o cântico de todas as 
criaturas. As dissonâncias humanas do egoísmo, da avidez, da violência não lograrão fazer calar 
este cântico imenso que é a alma da criação. Abandonei tudo ao longo do caminho da dor. 
Ressurgi, nu, das lacerações oriundas da separação. Mas, agora, na expansão de meu espírito, 
vem ao meu encontro, sem mais limites, o universo. Doar-me, eis o meu trabalho; imergir-me no 
ritmo do todo, eis minha nutrição. 
 
Tais doações,
 
normalmente consideradas absurdas e muito menos necessárias, são dever 
absoluto para a alma que, nua, transpôs o umbral. Se se sobe em conquista de conhecimento e de 
amor é para executar um trabalho mais árdua, é para cumprir mais árduos deveres. Pois que 
devera nascer uma nova civilização e é necessário o sacrifício para prepará-la; será um novo 
ciclo histórico que formará nova raça em que a fraternidade já não será vã palavra, mas nova fase 
evolutiva de mais perfeita harmonização espiritual. 
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XV 
 
METODOLOGIA MÍSTICA 
 
 
Viver e amar, tal é a substância do meu misticismo, qual aparecerá nesta sua expressão de 
fenômeno vivido. A proporção que caem os véus e a fonte se aproxima e transparece, ascende-se 
e lavra o incêndio. Dentro dele se ouvirá cantar a música do divino, o amor das criaturas, o amor 
de Deus. Diante de nós, veremos ressurgir a figura de Cristo que nos precede e avança pelos 
séculos. Veremos aparecer gradativamente, numa sucessão de quadros, esta visão e nela a 
transformação de uma alma. Mas, retardemos ainda a marcha, antes de aventurar-nos no grande 
vôo. Avancemos por um gradual crescimento de tensão. Tratamos suficientemente do aspecto 
técnico da questão. Deixemos atras este superado labor. Estamos ainda no vestíbulo, diante do 
portal. Nossa psicologia deve avançar através de progressiva desmaterialização e as precedentes 
afirmações teóricas devera o converter-se em sensível forma de vida. Para tornar possível a 
compreensão, devemos separar-nos gradualmente da psicologia corrente e gradualmente 
despojar-nos do invólucro analítico racional, liberar-nos e elevar-nos da forma mental de nosso 
tempo. O precedente estudo técnico nos fez compreender racionalmente a ascese mística; agora, 
devemos compreendê-la espiritualmente. Aquela primeira orientação esta na base e por isso nos 
ajuda e nos ajudará, mas agora é necessário atingir a superelevação do edifício. É necessário 
elevar-se na nova forma de pensamento e mover-se nela; devemos rasgar o véu e encarar a luz. 
 
Aqui a ascese mística superou, em nosso exame, a fase teórica da compreensão e ingressa 
no campo pratico de sua realização. Emerge da exposição racional com uma palpitação de vida, 
não mais ilustração explicativa, mas norma de atuação. Quem ainda duvida verá que a ascese se 
torna um método e que há uma metodologia para chegar a Deus e realizar a unificação. Isto faz 
igualmente parte de minha experiência. Esta exposição nos encaminhará à compreensão da 
última parte e dos quadros psicológicos que a completam. Veremos assim nascer aqui, como 
conseqüência lógica de nossas promessas, uma metodologia mística. É a mesma dos grandes 
místicos, da qual porém não deram explicação racional e científica necessária á hodierna 
compreensão. Essencialmente, ela é a metodologia da evolução na fase espírito, decorre de cada 
palavra minha em meus escritos passados, neles esta contida, em suas linhas gerais, e continua 
aqui em um seu mais alto desenvolvimento. 
 
O campo experimental de minhas observações se estende, assim, às experiências dos 
místicos que viveram o fenômeno e deram o seu testemunho, confirmando-o. Há uma ciência 
mística, cujos autores se dão as mãos. Embrionária nos primeiros tempos do Cristianismo, 
desenvolve-se depois,
 
alcançando muitas vezes alturas inauditas. S. Dioniso Areopagita enuncia 
as leis gerais da teologia mística, lançando-lhe as bases; João Ruysbroech (nascido na Bélgica, 
em 1293) assimilou-lhe o pensamento e sobretudo o viveu. No Ornamento das Núpcias 
Espirituais, ele verdadeiramente arde como um incêndio e voa como águia; seu espírito solta um 
grito imenso e se abisma na vertigem dos mais altos estados místicos. E quem não conhece 
Eckart, Tauler e ainda a Beata Angela de Foligno, S. Boaventura, S. Teresa, alma vibrante 
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inigualada, e o santo da mística Assis,
 
S. Francisco, sombra de Cristo? Máximo doutor em 
teologia mística, da grandeza de S. Tomás em dogmática, é S. João da Cruz (nascido na Espanha, 
em 1542). Suas obras: Subida do Monte Carmelo, a Noite Escura da Alma, o Cântico 
Espiritual e a Chama Viva do Amor descrevem as vias da ascese espiritual até a unificação da 
alma com Deus. 
 
Há, pois, um método para chegar a Deus, com características que se repetem, 
demonstrando que atras das realizações pessoais há um fenômeno geral. Nisso são concordes, 
numa nota dominante, os místicos teóricos e os místicos experimentais. Que fazem, que querem 
todos esses homens? São almas atormentadas por estranha necessidade: têm pressa de chegar a 
Deus, são impulsionados por um desejo vertiginoso, o desejo da unificação. Ardem todos de 
íntima efervescência de amor. Vivem com os braços abertos para Deus e para as criaturas, 
sofrendo antes de chegar e, depois, cantando e amando. Inflamam-se no incêndio do êxtase, em 
fontes inimagináveis, para, em seguida, derramar torrentes de luz e de paixão. Ouvimos clamores 
que em nosso mundo não são compreendidos, por isso não são admitidos. Que ocorre então? 
 
Ocorre o fenômeno da absorção do eu inferior no eu superior, através da noite escura dos 
sentidos. Desloca-se o centro da gravidade da vida para um mundo hiperbiológico, situado além 
de nossa capacidade de conceber. Se, teórica e tecnicamente, é isso concebível,