Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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de alma, o 
comportamento do espírito, contêm o método de operar a transmissão e de captar tais ondas, 
método pelo qual se chega a pôr o espírito no estado e sintonia permanente com centros de 
consciência e de emanação situados em mais altos planos. 
 
Na ascese, avança-se gradativamente. Uma primeira vibração liga o espírito, por 
ressonância, com um plano mais alto. A repetição consolida a ligação, de modo que se torna 
possível adaptar paulatinamente o ser, até que logre estabilizar-se em novo equilíbrio e transferir-
se definitivamente para novo modo de ser. Por isso, justamente,
 
insisti muito sobre a afinidade 
com a transmissora na técnica das noúres, porque aí se iniciava este processo de sintonização que 
aqui se completa. Na ascese mística tende-se para a unificação; a sintonização, portanto, deve ser 
integral, de toda a alma e com todo o universo e não mais parcial apenas, localizada em uma 
dada ressonância conceptual. 
 
Então, a evolução, após haver invertido, por um momento, sua direção, retifica-a e retoma-
a para ascender vertiginosamente. O ser supera a fase de negação e torna-se a afirmar com 
centuplicada potência. Cambiado o centro, a vida então muda de significado e valor; contém 
realizações diversas das humanas, para as quais tende. O organismo físico já não é um meio de 
expressão e expansão, mas um cárcere, um meio de compressão. A morte torna-se vida e a vida 
se converte num processo da negação no humano e de afirmação no divino. É um desnudamento 
de alma, porquanto a certos níveis não pode chegar e neles ingressar senão a alma nua. Depois 
das primeiras vicissitudes, o espírito retoma a direção e verifica-se o fenômeno maravilhoso da 
inversão da dor,
 
isto é, de sua anulação. Conquista-se, então, a libertação. Superada a 
dissonância, o espírito harmoniza-se no grande concerto do universo, a dor humana separa-se 
cada vez mais dele e permanece cá em baixo, como coisa morta, entre as mortas escórias da vida. 
A dor é reabsorvida no amor, a vibração dissonante é submersa no oceano de harmonias da 
Divindade. Ocorre,
 
então, o que ocorre na morte: o sofrimento, que deveria aumentar,
 
é 
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progressivamente reabsorvido na insensibilidade Na luta entre a dor e o amor, vence o amor; 
morre a dor, triunfa o amor. Em meio dos tormentos,
 
a alma canta. 
 
Assim, emerge o espírito em um novo mundo Isso, porém, se realiza gradualmente. O 
sofrimento decorrente da mutilação de consciência no plano humano é compensado pela alegria 
da expansão no plano sobre-humano. A proporção que ocorre, no nível inferior, o sufocamento 
da vida, desdobra-se o campo coberto pela nova consciência; a proporção que se torna iminente o 
desprendimento, encurtam-se as distâncias e a alma aproxima-se da meta e exulta com seu 
triunfo. A vida dos místicos é o percurso desse trajeto. 
 
Ascetas existem duros e insensíveis que nada mais sabem dizer além de renúncia, em que 
tudo está ainda imerso na noite da separação humana; e ascetas há que, chegados a nível mais 
alto, cantam o amor. Há os que semeiam e os que colhem, os que se martirizam e os que 
triunfam,
 
mas todos percorrem as diversas fases de idêntico ciclo. No princípio, o caminho é 
inçado de dificuldades e resistências. O eu inferior não depõe facilmente as armas e, quando 
voluntariamente o faz, organiza uma defesa inconsciente em que reafloram os impulsos 
milenários, indomados, do pretérito biológico. Então, na profundeza da carne e da paixão, 
ressoam sussurros ameaçadores e a fera se revela, olhos sangrentos, ferozes, para dilacerar. Estão 
precisamente unidos, um ao outro, os dois tremendos inimigos \u2014 espírito e matéria \u2014 e a luta é 
atroz, interior, sem tréguas. Não raro, vence a besta. 
 
 
 
 
XVII 
 
A UNIFICAÇÃO 
 
 
Já está iniciada a cisão, traçado esta o antagonismo, cada vez mais larga se torna a brecha. 
Por entre as fendas do invólucro ia penetrou algo e possível já se tornou alguma fuga. Vivida foi 
uma nova experiência e já não pode esquecê-la o espírito, que torna a investir contra as paredes 
para sua libertação Momentos emocionantes, de trepidante expectativa em que se debate 
tenazmente a alma e, de sua prisão, clama apaixonadamente e cada vez mais comprime e 
intensifica seu esforço de libertação, porque ouviu através das espessas paredes a primeira 
ressonância, provou a primeira embriaguez do vôo, sente ruírem nas trevas uma a uma as últimas 
barreiras, além das quais explodirá a luz. Rasgam-se,
 
a pouco e pouco, os véus e ocorrem os 
primeiros contatos. Sons divinos descem até o espírito. Aberta esta a passagem e por ela jorra 
agora a fonte divina. A alma estará além de toda a sua ânsia, inundada. 
 
Chega então o espírito de Deus, qual a irrupção de um incêndio que passa por sobre tudo, 
para incinerar totalmente os resíduos das paixões humanas. Inicia-se, nessa altura, o processo da 
unificação. Mas, este, tampouco, advém sem luta. A alma esta agora nua e é percutida até a 
profundeza. A subversão dos equilíbrios ocasiona inauditas tempestades de sensações; no campo 
de forças da consciência,
 
a superveniência das potentíssimos radiações provoca fulgurações e 
incêndios. A alma deve arder e abrasar-se para surgir renovada das cinzas de seu passado. A 
suprema força divina atraiu e cingiu em sua órbita aquela alma que, presa se põe a gravitar-lhe 
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em derredor, cada vez mais vertiginosamente: e, quanto mais se constringem as órbitas, tanto 
mais violenta é a atração, mais ativa a absorção, mais próxima a unificação. Nesta unificação, a 
consciência sente perder-se como individuação distinta,
 
já não sabe quem seja e luta contra o seu 
dulcíssimo aniquilamento, feito de amor. Mas, ao mesmo tempo,
 
não pode deixar de expandir-se, 
porquanto aquela atração é também sua atração e os dois termos, unificando-se, não podem 
deixar de incidir fatalmente um sobre o outro. A alma experimenta vacilações: sente expandir-se 
ilimitadamente e isso é alegria suprema, porém, já, não se identifica, já não se reconhece como 
eu distinto e isso a entristece. Afigura-se-lhe que já não é possível existir sem representar um tal 
eu; nessa imensa expansão, parece-lhe consumir-se e recua apavorada. Abre-se-lhe aos pés a 
voragem do infinito e não sabe medi-la sua pequena consciência de antes. Esta experimenta a 
vertigem das grandes altitudes e volve a prender-se àquela força de atração divina que a leva 
sempre mais além e acaba por consumi-la como coisa humana, para fazê-la ressurgir, 
integralmente e só, como coisa divina. 
 
Luta, sempre luta, mas agora dulcíssima luta. O combate, nos primeiros planos da ascese 
mística, se travará entre a besta e o anjo que ainda se conserva exausto e dilacerado pelos 
ferimentos recebidos, mas agora a luta se desencadeia entre o divino e o humano. Diz 
Ruysbroeck, em sua obra, O Ornamento das Núpcias Espirituais,
 
no capítulo \u2014 "O Combate": 
"Os assaltos do amor colocam, frente a frente, dois espíritos: o Espírito de Deus e o nosso. 
Começa, então, a luta. Nosso espírito inclina-se para Deus e quer possui-Lo. O impulso do amor 
tem por cúmplice o ato secreto de Deus, ardentemente buscado. O duelo ocorre na profundeza. 
São de espantosa intimidade os ferimentos recebidos pelos combatentes; eles se atiram raios que 
lhes abrasam a força ardente e o ardor do combate aumenta a ansiedade do amor entre eles. 
Assim, ambos se fundem. O espírito de Deus agracia-nos e o nosso retribui e, desse duplo 
impulso, nasce a força do amor. Esses fluxos e refluxos fazem multiplicar-se a fonte