Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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do amor. 
Dessarte, o contato de Deus e o furor de nosso desejo conjugam-se na mais inefável 
simplicidade. Invadido e possuído do amor, o espírito, por incríveis esquecimentos, chega a não 
recordar-se mais senão de seu possuidor. Sente-se abrasado e, ao engolfar-se no abismo daquele 
a quem agora toca, vendo superados, pela realidade que ele vive, o próprio desejo e a própria 
avidez, assiste, estupefato, ao próprio desfalecimento. Mas, reunindo, num supremo esforço, 
todas as suas forças, encontra na profundeza de sua atividade a energia necessária para mudar-se 
a si mesmo em amor. Então, o santuário íntimo de sua essência criada, em que principia e acaba 
sua atividade terrestre, está em suas mãos. E domina, com suas virtudes e seus poderes, a 
multiplicidade do mundo". 
 
É através destas sensações, confirmadas peles místicos, que age o processo progressivo 
que vimos: vibração, ressonância, sintonia, desprendimento, purificação, afinidade, atração, 
amor, unificação. No ápice do desenvolvimento do fenômeno esta a unificação. Trata-se de um 
procedimento de amor, base da vida. Parece que o estado mais perfeito e completo do ser, que é 
o da unidade em Deus, tenha sido outrora, como que precipitado, por involução, no cindido 
dualismo do amor sexual, em que o ser, dolorosamente desdobrado em dois, deva percorrer 
ansiosamente, cada dia, o trabalho de reconstrução da unidade através das vias imperfeitas, 
instáveis e insidiosas do amor humano. O misticismo remonta as vias da evolução que levam à 
liberação de tais limitações, de todas as cisões e separatismo que são a característica dos planos 
inferiores, em que a unidade se fragmenta e se pulveriza no múltiplo e no relativo. Trata-se de 
um grande esforço de reabilitação do ser involuído, de reconstrução da integridade e imensidade 
do eu,
 
hoje perdida como se fora punição. Trata-se de reconquistar, em Deus, o verdadeiro amor, 
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universal para todos os seres19. Em baixo, ele se manifesta humanamente semelhante a uma 
chuva de doações, que o espírito difunde totalmente em torno de si, isto é, semelhante a uma 
forma de sacrifício e de amor por todos os homens e todas as criaturas, na qual se exprime 
claramente o seu caráter universal. Estes seres representam sobre a terra, canais de expansão 
divina. 
 
Se o aspecto racional do fenômeno, como já foi exposto, é intelectualmente compreensível, 
o seu aspecto sensitivo é absolutamente inimaginável e incomunicável a quem não sente e, 
portanto, não pode provar. Faltam palavras e expressões na linguagem, falta sobretudo no 
coração humano a capacidade de vibrar e de responder a tais emoções. Como se pode explicar a 
perda de individuação distinta de consciência, a identificação por reabsorção no princípio do 
universo, a transumanização da dor por harmonização, se tais estados não existem no plano de 
consciência normal? Eis onde chega quem logrou romper o invólucro: um contato realmente 
contínuo, interno e profundo, que é unidade. Os amores humanos têm a mesma tendência, mas 
encaixados no invólucro físico, jamais podem chegar a essa identificação completa e deixam 
sempre uma distância que divide, um resíduo de egoísmo. Mas, este não esta entre os amores, 
tantos entre tantas formas, mas é o Amor. S. Paulo nos disse que o amor é a estrada mestra, ou 
melhor, a única via do misticismo, a graça mais necessária do que qualquer outra. E ele quem 
clama: \u201cVivo autem iam non ego; vivit vero in me Christus\u201d: já não sou eu que vivo, mas é 
Cristo que vive em mim\u201d20. "A razão e a inteligência", acrescenta Ruysbroeck, "detêm-se na 
porta. Mas, o amor, que é o amor, o amor que recebeu uma ordem quer, se bem que cego como 
os outros, corajosamente avançar. Ele conservou, na própria cegueira, o instinto da alegria. 
Assim, quando, ante a porta, a inteligência se prostra e sucumbe, diz o amor: Entrarei". E o amor 
entra e a morte é vencida neste triunfo. 
 
Diz-se que a maior punição das almas culpadas consiste na privação de contemplarem a 
Deus, o que é o acantonamento fora das grandes correntes da vida. A maior alegria das almas 
eleitas reside precisamente neste contato com Deus, nesta suprema embriaguez de harmonização, 
nesta fusão completa. Mas, é inútil acumular palavras. Aqui me atormento com exprimir o 
inefável. Esse contato de amor, que em si torna sensível a presença de Deus, é uma sensação tão 
sutil que só se atinge mediante apuração e aguçamento da própria sensibilidade. É uma nota tão 
alta e de tal freqüência vibratória, que não a percebe o ouvido comum; se a percebesse, ele se 
arrebentaria, tão intenso é o seu potencial. Para atingi-la, é necessário, inclusive para a 
consciência madura e adestrada, entrar gradativamente em sintonia e elevar-se em tensão. A isso 
se chega a pouco e pouco e pode ajudar aquele processo de sintonização noúrica, condição de 
recepção inspirativa, que descrevi em meu precedente volume21. A contemplação nos guia na 
casa de Deus. A auscultação das harmonias do criado é importante via musical de elevação,
 
porque nos faz assistir conscientes ao pensamento de Deus. 
 
Chegada a esse estado, a consciência está, não só metaforicamente, mas também 
realmente, fora de si, porque esta em novo plano de existência e fora de sua dimensão 
conceptual. Diz-se então arrebatada em êxtase. O êxtase é um estado tremendamente ativo e 
supremamente consciente, é o estado de percepção da unificação. Esta pode ser inconsciência, 
 
19
 Esses problemas são amplamente desenvolvidos e elucidados em outras três obras do mesmo Autor, 
posteriormente escritas: Deus e Universo, O Sistema e Queda e Salvação. (N. do T.) 
20
 Epístola aos Gálatas, 2:20. (N. do T.) 
21
 As Noúres, Op. cit. (N. do A.) 
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somente para os inconscientes nesse plano. O êxtase é a última fase do fenômeno místico, o 
coroamento da ascese, o vértice atingido, não racionalmente, como fizéramos em princípio,
 
mas 
sensitivamente. Aqui não se trata de entender o fenômeno, porém, muito mais do que isso,
 
trata-
se de vivê-lo. Tal é a diferença existente entre observar e ser. O êxtase é a revelação consciente 
da união, é a percepção da realização perfeita da identificação vibratória. A "graça",
 
tão 
discutida, é um fenômeno real, cientificamente admissível, isto é, uma descida de corrente que 
eleva para a sintonização e tende para a unificação; e a emanação do Alto,
 
na qual a Divindade se 
revela ativa e move suas atrações. O estado de graça é o estado de harmonização alcançado. 
 
Eis o glorioso epílogo da via longa e dolorosa que o místico percorreu. O poeta se põe a 
caminho, mas só o místico chega. O poeta tenta e invoca, o místico realiza e ama. Assim,
 
o 
místico é o poeta completo, íntegro,
 
que alcançou toda a realidade de seu sonho. O êxtase é a 
síntese suprema de toda arte,
 
porque o é de toda concepção e de toda beleza Assim, os místicos 
são poetas imensos, vertiginosos, maravilhosos. Não se ausentam da vida, mais nela estão mais 
intensamente presentes. O místico retorna as coisas, mas com visão divina, retorna as criaturas e 
torna a amá-las, porque nelas esta Deus e nelas reencontra Deus. Todas as coisas não possuem 
mais do que um significado e um poder: o de elevar seu espírito a Deus. Seu egoísmo se 
transformou no amor de um eu tão vasto que abrange toda a criação e não pode conter senão 
Deus. já não bastam seus pobres braços humanos para cingir o infinito. O místico, então, parte 
em dois tempos o ritmo do seu dinamismo: contemplação e ação. E os