Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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dois ciclos entrelaçam-se, 
completam-se, nutrem-se reciprocamente. Primeiro, engolfa-se no abismo divino para alcançar 
sua luz e energia. Depois, desce novamente entre as misérias humanas para exercer o bem e 
aliviar a dor. De sua altitude ele se abaixa, de braços abertos. O sulco tangível que deixa atrás de 
si a ascese do místico é feito de obras de bondade "O amor de Deus não pode ser ocioso". 
Estas conseqüências práticas, motivo de cisão no nível humano, deve a sociedade compreendê-
las. Cito a propósito outras palavras simples e sublimes de Ruysbroeck: "A consolação interior é 
de ordem menos elevada do que o amor ativo que se põe, espiritualmente ou corporalmente, a 
serviço dos pobres. Por isso, eu vos digo: ainda que sejais arrebatados em êxtase tão alto quanto 
S. Pedro ou S. Paulo, ou quaisquer outros que queirais, se ouvirdes de um doente que tenha 
necessidade de uma sopa quente ou de qualquer outro socorro do mesmo gênero, eu vos 
aconselho que vos desperteis por um instante de vosso êxtase e façais aquecer a sopa. Abandonai 
Deus por Deus; buscai-O e servi-O em seus membros: nada perdereis na permuta. O que por 
caridade abandonardes, Deus vô-lo restituirá com muitas outras perfeições". 
 
 
 
 
XVIII 
 
 
INCOMPREENSÃO MODERNA
 
 
 
 
Posta em frente a essa psicologia,
 
a mentalidade moderna não compreende. Contenta-se em 
tirar vantagens das suas conseqüências utilitárias, inteiramente imersa no eterno jogo da 
ambição. Despreza quem se recolhe à solidão e o define como ocioso e misantropo; só admite o 
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trabalho quando rumoroso, porque só compreende o que lhe fere os ouvidos. Aquela solidão,
 
entretanto, parece vazia e encerra uma terrível atividade interior. O místico mantém outras 
relações vitais, e se foge, por momentos, ao contato humano, é para nutrir-se no contato divino. 
O centro das suas atrações está colocado além da atmosfera terrestre, sua alma não ama a vida, 
senão enquanto ela representa uma missão de bem e uma prova para levá-lo a Deus. Para onde 
quer que o seu olhar se volte, não procura e não ama outra coisa, senão a Deus. Ele o sente 
identificado na sua própria essência, presente e ativo no mais íntimo de si mesmo. Todas as 
imagens caíram. Só Deus permanece, tonante voz interior, no silêncio exterior das coisas. A alma 
do mundo é vazia e se projeta ao exterior, para cobrir o seu vácuo horrendo; a alma do místico é 
plena e ama a solidão, que lhe permite projetar-se ao interior e sentir a própria plenitude. Ele não 
precisa aturdir os sentidos para esquivar-se à própria desolação; não teme, como o mundo, os 
silêncios em que a alma se manifesta. A realidade da vida está nesse recato em que a palavra 
cessa. Só quando atingimos a profundidade daqueles silêncios, a realidade levanta a fronte e nos 
encara. A grande claridade se encontra no fundo, além da mais densa treva. 
 
O plano de vida do místico está colocado muito acima da terra. Ele também sofre e goza,
 
teme e espera, lamenta-se e canta e ama, mas tudo isso se passa em outro nível de consciência, 
através de formas, reações e repercussões diferentes. A orientação conceptual e sensória, a 
maneira de ver as suas relações com os fenômenos, são completamente diversas. Ele capta, num 
todo, uma nova ordem de ressonâncias. Conquistou um novo sentido, o sentido místico, que é o 
sentido da harmonização com o universo. As suas vias são outras. O homem atual avança pelas 
vias do trabalho, do domínio sobre o mundo, e quer destruir a dor pelo exterior. É a via longa da 
evolução, que vence os obstáculos, doma as resistências, mas prende o espírito. O místico segue 
o caminho curto, avança pelas vias da concentração, do domínio de si mesmo, e destrói a dor no 
íntimo, não aniquilando-lhe as causas, mas superando-as, com uma diferente sensibilidade. Ele 
não toca e não modela o exterior, mas liberta o espírito, supera tudo, porque se eleva sobre a 
terra. 
 
Essas duas psicologias são contrárias, e não há possibilidade de se comunicarem. Por isso 
mesmo me objetarão a não-aplicabilidade de tudo isto, justificando-se a indiferença por certos 
problemas que \u201cnão servem para nada\u201d. E então se quererá relegar para o patológico e atirar 
aos ângulos esquecidos da História certos fenômenos. Não obstante, o problema psicológico é 
sempre o mais angustiante, e o mistério da personalidade humana é o mais tormentoso enigma. 
Este é, portanto, o estudo mais moderno, mais profundo, mais original que se possa fazer. A fé 
nos fala com palavras poderosas, mas vagas, e a ciência apenas balbucia; quando é honesta, 
confessa a sua ignorância. Contudo, na consciência estão as mais profundas realidades e as mais 
vastas possibilidades da vida. Ainda não se sabe nada. E, entretanto, a consciência já é o germe 
de todos os desenvolvimentos. Se qualquer coisa nasce no mundo exterior, em qualquer dos seus 
campos, desponta sempre daquele mistério interior. Se o divino desce sobre a terra, é por meio 
daquele trâmite. 
 
O problema é, pois, palpitante, atual,
 
e também prático. Não se pode esquecer ou abstrair 
aquilo que não se vê e não se toca,
 
porque justamente ali se encontram a causa e a origem das 
coisas. E cada um de nós traz em si essa unidade que se chama eu, essa síntese que se chama 
consciência. Esta é o que de mais vivo temos em nós, e tão vasta é que não lhe conhecemos os 
limites. Vemo-la abismar-se em camadas profundas, que não sabemos e não ousamos sondar. Ela 
evolve e se transforma continuamente em nós, mas está sempre presente. Não a vemos, e no 
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entanto as nossas mais íntimas sensações e emoções,
 
a alegria e a dor, estão nela e não no 
exterior; a nossa parte mais vital e importante se encontra nesse imponderável. Esse centro 
estabelece contatos com tudo o que o cerca, e apesar disso permanece sempre distinto, 
gigantesco e indestrutível. 
 
O homem moderno, que compreendeu as leis mecânicas de tantos fenômenos, zombando 
assim de tantos terrores, acredita com isso ter destruído o mistério e resolvido o enigma da vida. 
E num simplismo primário, não vê que o mistério é infinito e nada mais fez do que ampliar os 
seus limites. Não vê que no mundo sutil do espírito se encontram leis grandiosas e reações 
tremendas. Por isso,
 
quem tocou e viu, se revolta quando a inconsciência nega e sorri. Por isso 
me esforço sem tréguas para fazer que se veja e saiba. Nestas questões elevadas e distantes, "que 
não servem para nada", agita-se o problema das civilizações futuras. Nestas pugnas, não 
escritas, por certo, para exercício retórico, agita-se uma vida muito mais intensa, movem-se 
forças titânicas, tomba a semente de novas orientações, que amanhã conquistarão valores 
imensos. 
 
O espírito humano deve, por irresistível e fatal impulso de evolução, projetar-se além das 
barreiras que hoje o limitam, além das dimensões do seu atual concebível. Tem-se o dever de 
arrancá-lo da sua ordem de vibrações voltadas para a terra, e projetá-lo, com toda a sua 
potencialidade, nesta outra ordem de vibrações, que querem subir, superar e romper os espaços, 
para a fusão com o ritmo cósmico. 
 
 
 
 
XIX 
 
 
O SUBCONSCIENTE 
 
 
Conquanto se insurja em protesto a multidão dos cegos raciocinadores,
 
o homem não pode 
renegar o indestrutível pressentimento de seus futuros desenvolvimentos de consciência. Tem-se 
a sensação de que, sob o minúsculo eu normal de superfície, se estende em profundidade um eu 
ilimitado. E o homem inquire de si mesmo: que coisa, pois, sou eu? A ciência percebe que o 
mundo