Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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em forma completamente nova, em que se apresentam totalmente 
renovadas a concepção, a orientação psicológica e a visão do fenômeno e de suas leis. 
 
Vemos, assim, o fenômeno da mediunidade inspirativa amadurecer e transformar-se, 
naturalmente, por lógico desenvolvimento, naquilo que se pode chamar, em seu primeiro tempo, 
metafania mística, no sentido de recepção cada vez mais total, isto é, de emanações, não mais 
exclusivamente conceptuais, mas também afetivas etc. A medida, porém, que esse fenômeno se 
encaminha para sua maturação, transcende de tal modo o simples fenômeno inspirativo, num 
arrebatamento de todo o ser, que acaba por se encontrar diante deste, como a luz solar diante da 
luz lunar. 
 
Tal é o fenômeno místico de que agora nos ocupamos. 
 
 
 
 
III 
 
 
MEDIUNIDADE - METAFANIA - MISTICISMO 
Ascese Mística Pietro Ubaldi 
 
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Entraremos, mais adiante,
 
nos pormenores deste desenvolvimento. Basta-nos, por agora,
 
traçar as linhas de orientação. A sucessão destas fases não a apreendi de livros, que não leio,
 
ou 
de textos, que não consulto, mas de minha experiência direta. Quis conservar aqui minha 
virgindade de pensamento, permanecendo em contato direto e exclusivo com o fenômeno, da 
maneira que depois a eventual coincidência com os resultados de outros estudos e de outras 
experiências se tornasse, para mim e para os outros, mais surpreendente e comprobatória. 
 
Fica assim definida a amplitude do fenômeno da ascese mística, objeto deste estudo, que 
pode ser expressa nestes termos e ser compreendida dentro destes limites: por ascese mística 
entendo o desenvolvimento do fenômeno psíquico, desde a fase de metafania lúcida ou de 
inspiração consciente, até a sua fase de misticismo que se consuma com a unificação integral 
entre receptor e transmissor. O presente estudo, assim como minha experiência, que lhe serve de 
guia, move-se entre esses confins. 
 
A essência do fenômeno consiste sempre na universal e insuprimível evolução do espírito. 
Mas, certo é que nesses níveis o simples fenômeno mediúnico se espraia sobre tal mar de 
conquistas e de grandiosas afirmações, que aquele fio de revelação supranormal e primeiro 
lampejo de transparências transcendentais, que é a simples metafania,
 
se perde na vertigem de 
luz, que é o estado místico,
 
de tal modo que, longe de diminuir a personalidade na inconsciência, 
a arrebata consciente até o superconcebível. Ouço a voz interior exprimir-se num cântico de har-
monias universais: \u2014 \u201cContempla, \u2014 diz-me a voz, \u2014 a substância espiritual das formas do ser. 
O todo é um turbilhonar de esferas. Este movimento representa a mais doce música, a mais 
maravilhosa harmonia de luzes, a mais gigantesca construção, na mais ampla exatidão de 
relações, e é também cântico de conceitos e sentimentos. Observa e,
 
na harmonia deste amor 
infinitamente múltiplo, esquece a dissonância de tua dor que se encontra fechada no tempo. 
Deixa teu espírito explodir, além de todas as medidas, no incomensurável, além de todos os 
limites, no infinito, além de todos os ritmos menores, no ritmo divino do todo. Verás e ouvirás. 
Toda alma é feita para ver e ouvir.\u201d 
 
\u201cRepara. Os seres dividem-se e reúnem-se, segundo hierarquias. Cada qual se põe, por 
virtude de seu peso especifico, em seu nível natural, inviolavelmente. Eles se vêem e se falam e 
se escutam. Vozes e luzes, de plano a plano, descem e sobem: porque o Alto tem sede de se dar, 
como o plano inferior tem sede de ajuda. Esta é a Lei, imperante em toda parte e em todo nível. 
Assim, tudo se distingue por individuações inconfundíveis e tudo volta a reunir-se e irmanar-se 
na mesma luz e no mesmo cântico. Ao apelo do fraco responde um eco bondoso; graças à 
bondade do Alto, há sempre uma dádiva por fazer. Auxiliar-se reciprocamente, eis a lei.\u201d 
 
\u201cA luz irradia do Centro e transparece de esfera a esfera, através dos seres que a compõem. 
O metafânico é alma desperta à escuta e ouve aquilo que para os outros é silêncio. Conceito, 
harmonia e potência consubstanciam aquela luz; ela é sinfonia do pensamentos e ações, é 
também corrente de amor e de força a enxertar-se no espírito, que é a causa única da vida. E 
reforça as motivações e fecunda vossas obras.\u201d 
 
A percepção noúrica é um contato com a irradiação divina, que é a linfa vital do universo. 
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\u201cPor isso, digo-vos: Escutai e purificai-vos, para que tudo seja ascensão. Não ausculteis 
vãmente, por simples curiosidade, porque sagrada é a voz do Alto. Não dissipeis a potência 
substancial da vida. Sirva-vos tudo isso para subir. Jamais atendais às tristes vozes dos planos 
inferiores, a não ser para ajudar a sofrer e a subir.\u201d 
 
\u201cA lei de ascensão moral, conduzida através da bondade e do amor, é a lei do centro, que por 
ela sustém o universo.\u201d 
 
Relembro aqui as palavras de Goethe a Eckermann: \u201cNenhuma produção de ordem superior, 
nenhuma invenção jamais procedeu do homem,
 
mas emanou de uma fonte ultraterrena. Portanto, 
o homem deveria considerá-la um dom inesperado do Alto e aceitá-la com gratidão e veneração. 
Nestas circunstâncias, o homem é somente o instrumento de uma Potência superior, semelhante a 
um vaso julgado digno de receber um conteúdo divino.\u201d 
* * * 
Sentiremos, depois, mais de perto, o incêndio daquelas sublimações de espírito, pelas quais 
se passa da fase de inspiração consciente à de unificação mística. Mas é necessário, antes, 
compreender e explicar racional e cientificamente o fenômeno. Antes de abandonar-se ao 
impetuoso lirismo da visão, é necessário seguir o fenômeno em cada uma de suas manifestações, 
apreendê-lo, em sua realidade nua, com as tenazes do analista. Cumpre, antes de tudo, dar 
completa satisfação à razão. 
 
Na evolução do fenômeno mediúnico,
 
do plano físico ao plano psíquico inconsciente, depois 
consciente, até a unificação mística com a fonte, é nota fundamental a progressão de consciência, 
de intervenção da vontade e, ao mesmo tempo, de desmaterialização. E nela se encontra uma 
progressiva conquista do fator moral, uma ascendente realização de acrisolamento espiritual, 
uma transformação em peso específico, cada vez mais livre e mais leve. Todo o vasto fenômeno 
da evolução da mediunidade se conjuga, assim, em suas zonas de desenvolvimento, através de 
características constantes. Enquanto a mediunidade de efeitos físicos se move prevalentemente 
por força de causas barônticas5 e com técnica ectoplasmática, e a mediunidade intelectual 
inconsciente pode abrir-se por todas as portas e fazer-se órgão de recepção de todo pensamento, 
desde o mais nobre até o mais vil, assistimos aqui a um processo de progressiva purificação do 
fenômeno e do médium. Na recepção inspirativa consciente, o fator moral, como tantas vezes 
tenho insistido, ocupa o primeiro plano e no misticismo não constitui somente condição 
prevalente, mas absoluta e irrevogável, tanto que ele representa o vértice da perfectibilidade 
moral e religiosa. O fenômeno transborda, pois, em suas mais altas maturações, além dos limites 
das possibilidades e da competência da ciência, no campo da fé e da religião. Para mim, todavia, 
não existe antagonismo, a não ser de relatividade de perspectivas e de unilateralidade de pontos 
de vista. Devemos, contudo, elevar a ciência ao nível da fé e empreender, sem transviar-nos, a 
penetração nos domínios do supersensório. É chegada a hora de estes antagonismos entre ciência 
e fé, hoje destituídos de sentido, porque filhos de visões unilaterais e de momentos históricos 
superados, caírem para sempre, relegados