Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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não se aproxima, não se mostra: sente-se. A fria 
idéia da verdade se aquece, se anima e vibra nas palpitações de todo o universo. A sinfonia da 
criação não se vê apenas por compreensão: toca-se por percepção. E isto é a sublimidade do 
êxtase. 
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Assim, a música das coisas se pôs a cantar dentro de mim; a beleza,
 
a força, o amor do todo 
revive em mim. Os fenômenos, a vida, o universo, já não esta o afastados e no exterior, mas 
falam, existem em mim. Na unificação perde-se o sentido das distinções. A compreensão é um 
abraço. Já' não sou apenas um espectador de fora ante o panorama da criação e a arquitetura do 
universo, para deduzir e subir à Divindade, mas estou em comunhão interior com a Sua vibração. 
O meu olhar é um gesto que aperta ao meu coração todos os seres que comigo vivem em Deus. E 
todos cantamos o mesmo canto, vibramos na mesma harmonia, abraçamo-nos com o mesmo 
amor, vivemos a mesma alegria de viver, sofremos e estamos redimidos pela mesma dor, 
subimos todos com o mesmo esforço para o mesmo Deus. Da fria análise da mente os conceitos 
emergem aqui como figuras vivas que falam a realidade da sensação. Tudo se move, os 
fenômenos vivem, os seres respondem, as almas amam. O pensamento vivifica o espaço. A 
verdade se torna tangível. O todo toca a minha expansão de consciência. Deus, então, é real, 
presente, atual e ativo, em mim e em torno de mim. Para onde quer que me volte, esta sensação 
absoluta emerge de todas as coisas: o universo se ergue e vem ao meu encontro, como uma onda 
imensa, esmagadora. Morre-se em si mesmo, no próprio egoísmo, para ressurgir em todas as 
coisas. A palavra eu assume um significado diferente. A evolução rompeu os diques e o universo 
irrompe em mim. 
 
Não são destilações teológicas, nem sublimações passionais, mas estupenda realidade 
vivida. Esta é a minha alegria, depois de ter deixado para trás as alegrias humanas. Esta é a 
minha prece. Os lábios estão mudos, a mente está muda e não sabe mais formular pensamentos. 
O meu eu está suspenso, trepidante, sobre as asas desta vibração que enche o universo; ele não 
sabe, não sabe nada mais que esta sua imensa alegria, demasiado vasta para que se conheça toda. 
Canta, porque tudo canta. A música não é sua e apenas ecoa, se desenvolve, sai, expande-se 
dentro dele, até se tornar o seu próprio modo de ser. A vibração autônoma da distinção se perdeu 
e se anulou na vibração mais ampla. 
 
Chegou a liberdade de todas as compressões humanas, a explosão, a fuga não para o 
exterior, que é o caminho que restringe, mas para o interior que é o caminho da expansão. 
Projetando-se sensorialmente ao exterior, o eu se engolfa no particular, no relativo, na ilusão. Por 
ai se adensam os véus, se levantam as barreiras, se desce em dimensão, as idéias se ocultam. 
Uma espessa névoa obscurece a consciência. É o caminho das trevas. Vejo este abismo,
 
que está 
sob mim, em sentido involutivo, um abismo de angústia e de desejo, onde o maior mal é a 
cegueira que impede a visão de Deus. É o inferno. Ele esta na impossibilidade de corresponder as 
vibrações da luz divina. O eu destruiu-se num beco estreito e grita, invoca e sofre inutilmente, 
batendo a todas as portas, que se conservam fechadas a sua expansão. Ouço vozes desesperadas 
subir daqueles densos invólucros. A pobre alma se debate no seu tormento, na sua sensibilidade, 
contra as paredes espessas e tenazes. Deve transpô-las com a sua paixão, demoli-las com o 
gotejar de seu sangue. A cada novo espasmo, uma pedra se move e cai. Que festa a do espírito ao 
se abrirem as primeiras brechas! Vejo os prisioneiros esgueirarem-se da prisão derruída, emergir 
dos muros demolidos e, finalmente livres, lançarem-se ao infinito. Vejo a maré dos seres sair das 
trevas para a luz. Isto é a vida. E é tal aquela treva que, além de um certo grau, minha vista já não 
a penetra; é tal aquela luz que, além de certo limite, os meus olhos ia não a suportam. E a treva é 
também dissonância, como a luz é harmonia. A treva é densidade de matéria, sufocação de 
espírito, malvadez, ira, desespero. A luz é transparência de espírito, felicidade, bondade, amor e 
bênção. 
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Sinto a luz mover-se em direção as trevas. E a força de penetração e atração que redime e 
levanta. As trevas são inércia, resistência, negação. Sinto o choque e a luta entre as duas forças: o 
bem e o mal. Alcançam-se e se dilaceram. Sinto o entrechoque, que faz tremer o universo. A luz 
ataca com a violência do amor que conquista os corações; o ódio resiste tenazmente, as trevas 
gritam o seu terror. E desenvolve-se uma hierarquia de irmanações, uma descida de auxílios, um 
entrançado de atrações e repulsões. Vejo o turbilhão do amor projetar-se do alto para baixo, lutar 
para sair. Num momento supremo da história do mundo, vejo o vórtice do amor projetar-se com 
extrema violência, e a maré de dor crescer até o ponto de tocar o vórtice. E, então, aparece 
Cristo. Então, a terra chega ao céu e o céu desce a terra e entre os dois extremos do amor e da 
dor, nasce o milagre da redenção. Sinto ressoar em meu coração a euforia daquela fusão e o 
cantar da alegria daquela redenção,
 
como coisa minha, porque eu também estou naquela maré de 
dor que foi apanhada e fundida no incêndio de amor. 
 
É, verdadeiramente, a suprema maturação de uma alma \u2014 isto que conto. É coisa que não 
se pode fingir nem improvisar. Tais palavras não se escrevem a frio, com a satisfação calma de 
quem se equilibra entre as coisas da terra. Há em mim um espasmo de alma que grita sua alegria 
e seu cansaço, uma explosão, uma paixão por qualquer coisa de sobre-humano que está para 
chegar. O sublime quer descer a minha pena, que não resiste e esta para se partir. Eu queimo 
como uma tocha. No entanto, não sei me atribuir mais nada; porque quanto mais altas são minhas 
concepções, mais escrevo, abandonando-me a Deus. Sinto-o vizinho. Não sei mais rogar, não sei 
mais compreender. 
 
Vivo numa atmosfera de incêndio. Parece-me que minha alma ia não pode conter toda a 
sua alegria, em terrível crescendo. Esta exaltação dá fogo a minha palavra e faz com que possa 
exprimir o inexprimível. E eu obedeço e conto e reconto ainda, para saborear todo o meu êxtase, 
para compreendê-lo, para senti-lo todo na sua inexaurível luz. Avanço com a alma fremente, 
apertada, na ânsia de me compreender a mim mesmo, de firmar e registar estes lampejos do 
espírito. Só a harpa de um anjo, decerto, poderá narrar tais coisas. Eu aqui deturpo-as e insulto-
as. Não disponho de matéria mais diáfana que a palavra para me exprimir, uma imagem menos 
concreta, um pensamento mais fluido e mais transparente. Queria um meio mais digno,
 
e não o 
consigo encontrar. O meu ritmo interior sufoca neste marasmo que é a expressão humana, as 
luzes se extinguem, brilhos se confundem e se perdem. O que escrevo mostra a mancha disforme 
onde está um quadro sublime. A palavra é impura, sabe a carne e a terra. Assim o belo se 
deforma, o movimento se cristaliza, o pensamento se mutila, tudo se precipita neste meu 
miserável balbuciar. Não há, no concebível humano, medida que possa conter o superconcebível. 
No entanto, esta imensidade é tão simples, tão espontânea, tão natural! E eu procuro ser simples 
e espontâneo para que as vestes não ofusquem a beleza do corpo. Deixo escapar as palavras 
como elas querem nascer, saturadas e transparentes, vibrantes e ardentes, como o quer o 
argumento. Abandono-me ao ímpeto lírico, porque revela o canto interior que me inebria. Não é 
já possível refletir e raciocinar. Já o fizemos muito. Assim, eu mesmo