Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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é mais uma vibração, 
tão imóvel está. Cada vida é uma pulsação desta vibração. Não, não me engano. Estou 
tremendamente presente na minha sensação. Respiro seu ritmo na minha própria vida. Nesta 
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profundidade de consciência, a vida é una. O universo é um grande organismo do qual eu, como 
todos, sou uma pequena engrenagem, útil,
 
inconfundível, necessária, eternamente em função. 
 
A verdade está em mim. Nela estou imerso e ela me nutre. Percebo-a por identificação. O 
mistério é a barreira de trevas que o invólucro da matéria impõe. Superada a matéria, o mistério 
desaparece. A limitação esta na ilusão do nosso relativo, não na realidade. O todo esta saturado 
de verdade, grita-a em alta voz e a alma foi feita para ouvir. Basta romper a crosta e emergir da 
própria surdez. 
 
O todo está saturado de amor; ele é a vibração e une o particular, que parece disperso em 
pó impalpável, atrai-o, torna-o compacto e devolve-o à unidade. Sinto que em sua diversa 
multiplicidade, o universo é uno. Ecoa em mim o ruído das forças que tudo coligam, socorrem e 
guiam. Cada ponto se encontra no todo e o todo se reencontra em cada ponto. Tudo é 
individualizado, mas comunicante, tudo é distinto, mas indivisível, tudo obedece a uma lei 
inflexível, mas elástica,
 
de infinitas adaptações e compensações e se elabora na imobilidade de 
seu íntimo movimento. Assim estou fundido no todo e o todo fundido em mim. Sou,
 
agora, 
onipresente no espaço, coexistente no tempo, como o é qualquer consciência neste plano. Assim 
a minha vida esta na vida de todas as criaturas e a minha percepção, a minha consciência está em 
todo o universo. Eis a sensação da nova dimensão e isto é o superamento e o aniquilamento de 
todas as medidas precedentes. Onde existir um ser, já estou eu, sentindo, vivendo. Eis a 
verdadeira sensação interior de Deus. A minha concepção e sensação funde-se na concepção e na 
sensação em que o Universo concebe e sente, ele próprio. Nenhuma objeção teológica ou 
científica poderá destruir esta minha forma de consciência universal. A voz de Deus é mais forte 
que a voz dos homens. 
 
O infinito não é o imenso, o incomensurável, como se costuma pensar. Não é grande nem 
pequeno. É simples, espontâneo, calmo; não é uma extensão cansativa, uma fantástica 
multiplicação de medidas. É uma atmosfera natural e tranqüila, na qual caíram os limites, foi 
superada a negação. Não é um múltiplo do finito, mas uma coisa diferente. A anulação como 
consciência humana me faz emergir à superfície de um oceano luminoso e tranqüilo, livre e sem 
tempestades. Espaço e tempo são trevas, cisões, prisão, barreira, negação. O infinito é estado de 
repouso situado além dos limites que a mente humana, em seu relativo, procura eternamente 
superar, sem o conseguir jamais. Ali o espírito chegou; ultrapassou seu superamento e seus 
trabalhos. 
 
É nesta zona de grande calma que o espírito ouve a música profunda que está nos 
fenômenos. O ritmo estético e lógico de seu desenvolvimento, a harmonia dos equilíbrios e das 
finalidades. E isto tudo não é mais aquela pequena compreensão da mente, mas avizinha-se à 
alma, dentro dela ressurge, com ela se funde num canto único e imenso. Este canto prende-a, 
vence-a, arrasta-a e nela irrompe e se unifica numa exultação potente e estupenda. Dir-se-ia que 
a alma explode projetando-se no universo e que o universo se condensa para fechar-se nela. 
Nesta dimensão superespacial, universo e espírito têm a mesma extensão. É tão bela e doce a 
harmonia da criação que o sintonizar-se com ela, o unificar-se em sua ressonância, constitui uma 
ventura que em seu grau mais intenso é o êxtase em que se alcança a sensação de Deus. A prece 
não é senão a harmonização inicial. Harmonizar-se, em toda parte, na majestade do canto 
gregoriano, no simbolismo litúrgico, nas correntes que emanam das catedrais trecentistas; 
harmonizar-se ainda com maior presteza diante do divino espetáculo do criado; harmonizar-se na 
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estética suprema de um ato de bondade e de amor fraternal em Cristo \u2014 este é o caminho que 
conduz à sensação de Deus. Cristo apareceu e não podia deixar de aparecer a São Francisco,
 
no 
Alverne, senão como o último ponto desta suprema harmonização. 
 
As fibras humanas se partem na tensão destes paroxismos. Eu ouvi a harmonia do criado, 
fundi-me nela e alcancei a sensação de Deus. O meu coração pulsou com o coração de todas as 
criaturas irmãs e nestas palpitações percorreu-me o amor de Deus. Todas as vozes falaram em 
mim e eu respondi a todas as vozes. 
 
Guiou-me ao centro, de esfera em esfera, um cântico de amor. Deslizando ao longo da 
sinfonia dos fenômenos e da teoria dos seres, o meu espirito subiu a Deus. Mas a última tensão 
do êxtase é imensa. O espírito não resiste por muito tempo e precipita-se de dimensão em 
dimensão,
 
para se reencontrar, como consciência normal, no corpo exânime. Ouço então, como 
um eco, o cântico continuar de esfera em esfera, ascendente e dulcíssima harmonia que se esvai, 
se dilui nas trevas terrestres. De novo a mentira dos sentidos e revivo apenas para tornar a ouvir 
as palpitações de meu coração extenuado. Não conservo em mim senão uma recordação e uma 
saudade; senão uma ânsia amargurada daquele meu longínquo paraíso, que aqui em baixo parece 
loucura. Que parece nunca mais poder retornar. 
 
 
 
 
IX 
 
CRISTO 
 
 
Eis a que sensações e a que planos de consciência nos leva a ascese mística. Neste plano 
alcancei \u2014 e só nele se pode alcançar \u2014 o conhecimento imediato de Cristo. Sei que tremenda 
coisa estou dizendo e só agora posso dizê-la \u2014 depois de amadurecer através das experiências 
que descrevi. Até agora, estive calado. Mas o meu trabalho todo se moveu para convergir, 
fatalmente, para as culminâncias onde aponta a síntese suprema do meu pensamento e da minha 
vida. A figura em que a concepção abstrata e sublime do êxtase se humaniza, tornando-se ainda 
mais acessível como presença e assim se avizinha da consciência normal \u2014 é Cristo. Sua voz 
tomou forma e se delineou naquele vulto que contemplo com amor e tremor; definiu-se num Ser 
que me tornou pela mão e me disse: "Caminhaste e estás cansado, mas não podes parar. Deves 
ainda avançar e vencer outras lutas e cansaços. Segue-me. Não podes mais parar. Coragem. 
Estou ao teu lado" Na doçura da carícia, no ímpeto da tempestade, no terror da solidão, ouvi 
ainda: \u201cSegue-me, segue-me\u201d. E essa ordem se gravou em mim. Naquele momento me tornei 
criança, fechou-se a vista da terra e reabriu-se a visão do céu e o êxtase me retomou em seus 
tentáculos e me levou para longe. 
 
E a Sua face que me aparece e me atrai no centro do incêndio, o aerólito gigantesco que se 
avizinha de mim, flamejando. Era uma voz e se tornou uma figura sensível e próxima, completa 
na sublimação de todos os atributos do concebível. A debilidade de representação humana, ao 
desejo da matéria, de concretizar, foram concedidas imagens, mas não são Imagens de Cristo. 
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Certas figuras adocicadas, de uma suavidade mole, exterior, rósea e ovalada \u2014 são um véu, não 
uma expressão, são distância e sofrimento para quem as contempla. 
 
O verdadeiro Cristo é uma realidade e uma sensação imensa que repele imagens. É um 
infinito que se conquista por sucessivas aproximações. A medida que o espírito sobe, aos vários 
planos de consciência correspondem vários planos de conhecimento de Cristo,